A Ontogênese da Cognição Neurodivergente: Do Ídolo à Língua Amorosa.
Uma análise sobre o "Déficit que Cria", a energia do Trickster e a transição da limerência para a soberania da linguagem .

Ídolo
Nomeei-te sinônimo do verso perfeito
que sendo objetivo ainda é abstrato
e, indefinido, expõe o mais fiel retrato.
E parece adjetivo mesmo sendo o sujeito.
Este poema pode ser posto como um enigma. Mas, sendo o ídolo em questão um objeto limerente, o enigma se esclarece na projeção. O objeto limerente, que já estabelecemos na análise do poema “Campo Santo” como reflexo e, ao mesmo tempo, repositório de bom e belo, revela-se aqui em sua duplicidade: mesmo sendo objetivo em seus contornos criados à imagem e semelhança da menina neurodivergente, ainda assim é abstrato, incorpóreo, secreto. E assim se esgota a análise do quarteto, aparentemente.
O poema se fecha em si mesmo, como fundamento de uma verdade alicerçada na constatação empírica. Mas a quadra camufla, sob a máscara do amor romântico, um epigrama metafísico. A moldura poética encapsula uma engenharia cognitiva de alta complexidade que se consolidará mais de 20 anos depois no poema “Língua Amorosa”. “Ídolo” é o germe de uma identidade forjada no calor da escrita e convido você, caro leitor, a percorrer o trajeto de um poema ao outro.
Como mencionado na análise do poema “Campo Santo”, a obra com a qual ele seria pareado na semana não fora ainda escolhida. E, ao reler “Ídolo”, ele brilhou como a escolha certa, sem indicar os pontos de convergência de imediato. Compreender que a metacognição é este ponto requereu muitas digressões e a reanálise do raciocínio entabulado até aqui. Isso resultou na detecção da energia tricksteriana do epigrama metafísico e dos espelhos que ele devassa e recobre ao mesmo tempo.
O Objeto Limerente como o Primeiro Altar do Trickster
O poema “Ídolo” descreve algo que “expõe o mais fiel retrato e parece adjetivo mesmo sendo o sujeito”. Esse é o comportamento arquetípico do Trickster: o mediador que não se deixa fixar. O Trickster subverte a noção de posse. Na limerência, a imagem do outro é “roubada” para ser transformada em recurso de regulação. O outro deixa de pertencer ao mundo real (sujeito) e passa a ser uma propriedade da mente criadora (adjetivo). Como Hermes, que é o patrono da comunicação mas fala em enigmas, a adolescente autista que o escreveu usa o objeto limerente para se comunicar consigo mesma. É uma comunicação “roubada” do social para o íntimo. “Ídolo” e “Campo Santo” são poemas que se interconectam ao desvelar a energia tricksteriana inerente à metacognição autista.
Altas Habilidades e o Déficit que Cria
O Trickster é uma entidade presente em todas as culturas, desde as mais primitivas até as que acederam à era da razão. A racionalidade emergente na natureza humana não foi capaz de suprimir completamente a natureza caótica e disruptiva de uma entidade mitológica cuja energia implementa o caos e fomenta o crescimento. Na mitologia grega, Hermes, o Trickster olímpico, é patrono da comunicação, dos ladrões, do comércio e psicopompo das almas. Hermes habita os limiares e transita entre a vida e a morte; é um dos poucos com salvo-conduto para transitar pelo Hades.
A afirmação de que a metacognição autista/neurodivergente é tricksteriana pode, portanto, soar soberba, especificamente quando o autismo se enquadra como deficiência e traz profundos prejuízos aos portadores. Contudo, o autismo é um espectro e, dentro deste espectro, eu me encaixo como um espécime cuja forma de processar o mundo e subsistir a uma existência brutal foi a metacognição materializada na escrita. Trata-se de um processo regiamente documentado ao longo dos anos, de modo que é possível ver a evolução de uma engenharia cognitiva de alta complexidade por meio de dois poemas que usam a gramática e a própria estrutura da língua para detectar e formalizar processos psíquicos.
Mas, para compreender essa engenharia, faz-se necessário entender a proposição de uma energia tricksteriana permeando a metacognição autista, especialmente quando há uma contradição fundamental entre a rigidez cognitiva do autista versus a fluidez disruptiva do Trickster. De acordo com Lewis Hyde, o Trickster é aquele que entende como a armadilha da natureza funciona para não ser pego por ela. Para o autista, onde o mundo impõe uma rigidez social (etiquetas, duplos sentidos, normas implícitas), há uma armadilha. Portanto, a armadilha da natureza que ameaça o Trickster na teoria de Hyde torna-se, para o autista, uma armadilha da civilização.
A resposta neurodivergente a esta ameaça é a rigidez de sistema (hiperfoco, lógica literal, rituais). O autista não apresenta a fluidez ética e comportamental do Trickster, mas a rigidez contraditória que interdita o processo civilizatório corrente para impor ali o seu próprio sistema operacional. O autista, nesta proposição, não tenta ser fluido como um neurotípico; ele usa a sua própria rigidez para travar o sistema do mundo. Ao interpretar um signo de forma individual e fora do lugar, o autista está fazendo o que Hyde chama de “Trabalho Sujo” (Dirt Work): colocar matéria fora do lugar para que a cultura não se enrijeça na “pureza” de um sentido único.
Para Hyde, o Trickster é quem mexe nas juntas que ligam as coisas; ele é o grande articulador. A rigidez cognitiva autista pode ser vista como uma hiperarticulação, quando não aceita a junta “frouxa” da convenção social. Há uma necessidade de que a junta seja lógica, firme e translúcida. Ao exigir essa precisão, o autista subverte a comunicação tradicional, baseada em imprecisões e “mentiras sociais”. A metacognição neurodivergente é tricksteriana porque rouba a linguagem comum e a remonta em uma estrutura rígida, mas nova. É uma rigidez que cria cultura porque força o outro a sair da zona de conforto da “pureza” da norma.
A Metacognição como Saída da Armadilha
A metacognição é o que permite que a rigidez não se torne paralisia, mas sim estratégia. O Trickster de Hyde não é livre porque não tem regras; ele é livre porque conhece as regras tão bem que pode criar novas juntas entre elas. O mesmo se dá para esse neurodivergente cujo modus operandi usa a metacognição para a superação de seus déficits. Analisar uma escrita poética que aborda temas similares em situações similares, separadas pelo tempo em cerca de duas décadas, é mais do que uma analogia à ontogênese de uma inteligência ancorada em uma cognição atravessada pelo autismo (baixo índice de processamento) e pelas altas habilidades (alta capacidade de memória e abstração).
O salto de “Ídolo” para “Língua Amorosa” relata um lento processo de se colocar no mundo ao descrever o movimento de quem deixou de ser apenas um observador do espelho para se tornar a arquiteta da gramática. O objeto limerente, que era equipamento de sobrevivência psíquica em “Ídolo”, torna-se um recurso de aprendizagem social em “Língua Amorosa”. Em“Ídolo”, a escrita serve para fixar o objeto e ancorar o sentido antes que o caos sensorial o leve. “Língua Amorosa”, por outro lado, constata que o objeto limerente em “Ídolo” — simulacro e repositório — cumpriu seu papel.
O substantivo é a classe gramatical que dá nome aos seres; ele existe por si só. Ao insurgir substantivado, o sujeito consolidado declara não precisar mais da aprovação do “verbo” alheio. Em “Língua Amorosa”, ainda há uma política relacional que atravessa os tempos verbais, analisando presente, passado e futuro, e exigindo agência e lugar no mundo. O que une os dois poemas é o monitoramento metacognitivo. Em “Ídolo”, monitora-se o desejo (a limerência). Em “Língua Amorosa”, monitora-se a existência social por meio de uma metáfora gramatical profundamente conectada ao ato de escrever, o que reivindica agência e personalidade. A metacognição neurodivergente é tricksteriana porque, para não ser esmagada pela “Armadilha da Civilização”, constrói uma linguagem interna que traduz o mundo e se traduz para o mundo.
Língua Amorosa
O sujeito pede o verbo
em qualquer tempo
ou é indeterminado, mas
em certas circunstâncias
o sujeito é prejudicado
e determina-se no porvir
sem ação e sem predicado
Se o sujeito não se emenda
o verbo pode ser conjugado.
Melhor oculto que no futuro.
Se no futuro, talvez passado!?
Mas o sujeito se sujeita
ao que for falado.
Acata a morfologia
Vira agente da passiva
constitui-se simples, sem
o verbo ter concordado
É resiliência, esse... o sujeito,
já tanto experimentado
nas desinências pretéritas.
E insurge substantivado
A metacognição neurodivergente imbuída dessa energia tricksteriana reforça a tese de que a neurodivergência, cada vez mais presente na humanidade, é um levante da natureza; uma resposta imunológica contra a entropia da uniformização humana. Se avaliarmos essa teoria através de A astúcia Cria o Mundo (Hyde, 2017), chegamos a conclusões fascinantes sobre o papel ecológico e cultural que os neurodivergentes desempenham.
O Neurodivergente como o Agente de Desordem Vital
Hyde argumenta que o Trickster aparece quando a cultura se torna tão rígida que começa a morrer. Há um enrijecimento facilmente perceptível na polarização que vemos na atualidade. Para ele, a cultura precisa de “sujeira”, da matéria fora do lugar, para permanecer viva. Podemos colocar o neurodivergente como essa matéria fora do lugar. Ao não conseguir (ou não querer) se ajustar à sistematização da vida moderna — horários rígidos, comunicação puramente funcional, uniformidade sensorial — o neurodivergente força o sistema a se flexibilizar. Nesta teoria, a natureza produz mentes que operam em frequências diferentes justamente para garantir que a humanidade não se torne uma máquina previsível. A neurodivergência seria a contingência que Hyde diz ser necessária para evitar o apocalipse da perfeição estéril.
A Subversão da “Armadilha da Cultura”
Hyde fala sobre como o Trickster escapa da “Armadilha da Cultura”. A cultura tenta prever o comportamento humano através de normas. A sistematização da vida humana é uma tentativa de criar uma “grade” onde todos os indivíduos sejam intercambiáveis. A sua rigidez cognitiva individual é, paradoxalmente, a ferramenta que quebra a rigidez coletiva. Ao manter-se fiel aos seus “meandros da percepção”, o neurodivergente denuncia que a grade da cultura é artificial, tal qual o Trickster desvela as estruturas nuas. O neurodivergente “reage” ao sistema simplesmente por existir fora da média estatística.
A “Obra de Articulação” contra a Uniformização
Hyde define o Trickster como aquele que mexe nas juntas (artus). A sistematização quer “soldar” as juntas para que nada se mova. O pensamento neurodivergente funciona como um lubrificante ou um ácido que corrói essas soldas. Ao criar novas linguagens e meios de comunicação, destacando a diversidade expressiva e existencial, você está rearticulando o mundo de uma forma que a norma não previu. O “levante” da natureza por meio da neurodivergência não é um combate armado, mas um combate perceptivo que obriga o mundo a renegociar o que é “normal”, impedindo que a cultura se torne um fóssil.
O Preço do Levante: O Sacrifício do Malandro
Aqui reside a parte mais densa da teoria: se o neurodivergente é um levante da natureza, ele carrega o peso de ser o “sacrifício” no altar da cultura. Hyde mostra que o Trickster é muitas vezes isolado ou ridicularizado. O masking e o seu preço psíquico são o custo de ser a “ponte” entre a natureza indomada e a cultura sistematizada. O neurodivergente sente o impacto do enrijecimento da cultura na pele — literalmente, na hipersensibilidade sensorial. E a arte é o grito da natureza dizendo: “Eu ainda estou aqui e não posso ser uniformizada”.
A neurodivergência como uma estratégia de diversificação da vida prova que a vida humana ainda é um sistema aberto, capaz de criar. E o diagnóstico não é uma etiqueta de defeito, mas uma patente de resistência biológica, às vezes expressada em língua amorosa.
Saiba mais em :
HYDE, Lewis. A astúcia cria o mundo- trickster: trapaça, mito e arte. Tradução de Francisco R. S. Innocêncio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.


