Campo Santo: A Limerência como Arquitetura de Sobrevivência e Gênese Ficcional
Como a metacognição e a vigilância interna transformaram o 'objeto limerente' em um solo sagrado de regulação e no berço das minhas personagens.

Campo Santo
Pensando em teus olhos macios e translúcidos,
afago as asas dos meus sentimentos brandos
enquanto pensamentos soltos voam aos bandos
e retornam repletos de suspiros e amenidades
que transbordam pela minha face
vestindo de luxo e graça as banalidades.
Então, minha alma faz voos rasantes
no campo santo da felicidade.Transmutando o Caos Sensorial em Solo Sagrado
Toda vez que escolho um poema para postagem, não sei o que virá de sua análise. Comumente penso: “hoje vou encher linguiça”, porque aqui há mais do mesmo. Mas o “mesmo” é só mais uma peça do quebra-cabeça. Na intrincada imagem da existência, a peça agrega linhas essenciais e cores sutis que aprofundam drasticamente a perspectiva.
E assim, este poema nos obriga a retomar alguns conceitos já elaborados nesta caminhada, que aqui se tornam ainda mais evidentes e alçam o pensamento para além. Preciso deixar claro que não domino conscientemente a extensão de minha obra pregressa. Na maior parte do tempo, as escolhas dos poemas analisados são intuitivas, ocorrem de forma afetiva — no sentido de me afetar. É comum que o primeiro poema da semana puxe o outro por associação, mas hoje, por exemplo, não sei ainda qual será o próximo. As futuras leituras dirão qual poema vai dialogar com este aqui.
Fato é que ‘Campo Santo’ retoma a proposição aventada nesta newsletter de que o objeto limerente, muso deste poema, mais do que um amor platônico, era um meio de regulação. Também propusemos que o objeto limerente tornou-se um repositório do bom e do belo. Isso considerando que, como criança neurodivergente, eu navegava entre o silêncio e o questionamento racional e objetivo, inadequado ao comportamento das meninas dos anos 80/90.
Isto posto, a análise de hoje traz à clareza irrefutável essas proposições. O objeto limerente em ‘Campo Santo’ empresta seus olhos macios e translúcidos como abrigo e como lente. Ele possibilita a imersão em um mundo secreto no qual o restauro é possível. E , como receptor e doador do amor que o mundo externo não oferece, possibilita a autorregulação. Por ser um processo psíquico e interno, isso explica por que o autismo feminino tende à invisibilidade, desde as expectativas de gênero até a criação de mecanismos internos de superação do caos sensorial e externo.
A Sensorialidade e o Hiperfoco
No autismo, a percepção muitas vezes é fragmentada e intensamente focada no detalhe. Os “olhos macios e translúcidos” não descrevem a pessoa, mas uma textura confortante e acolhedora por meio da qual o mundo pode ser revisto. O mundo, na adolescência para esta autista que vos fala, foi mediado pela limerência, portanto. Em TEA Menina — que neste momento passa por mais uma revisão — mencionei que o objeto limerente me socorria, mesmo quando eu tentava viver relacionamentos reais. Quando estes relacionamentos tornavam-se forma de controle e opressão do meu intelecto, o objeto limerente não me deixava cair em armadilhas como a segurança material em detrimento da minha educação. Esta foi, por exemplo, uma escolha claramente mediada pela presença do objeto como suporte e alento. A “maciez” e a “translucidez”, que sugerem uma busca por segurança e clareza em um mundo que muitas vezes parece áspero e confuso, sempre estiveram presentes como forma de suporte — o único suporte na época.
O Objeto Limerente como Hiperfoco
A limerência funciona como um “hiperfoco afetivo”. Para a adolescente sem diagnóstico, esse objeto de desejo torna-se a âncora de regulação. O pensamento “voa” para longe do mundo caótico e “retorna” trazendo amenidades — um conforto necessário para processar a realidade. A alquimia das Banalidades é um resultado que evidencia a regulação emocional e sensorial obtida “Vestindo de luxo e graça as banalidades”. Eis a evidencia da transmutação do cotidiano para que ele seja suportável. O luxo aqui não é material; é a riqueza do mundo interior que doura a banalidade externa, tornando o comum suportável e até belo através da lente da pessoa amada, esta persona inventada, mas, ainda assim, um canal potente — talvez mais potente do que o suporte externo seria, por apresentar constância, coerência e presença.
O Campo Santo e a Metacognição
Chamar a felicidade de “campo santo” (cemitério/solo sagrado) para uma adolescente autista sugere que esse estado de paz é raro e solene. É como se a felicidade fosse um refúgio de silêncio absoluto. É onde o “ruído” do mundo morre para que a alma possa, enfim, fazer voos rasantes sem o medo do impacto.
O poema ainda se revela como um ritual de observação. Essa adolescente estava criando para si mesma um território de segurança dentro da própria mente por meio da metacognição. O trecho “enquanto pensamentos soltos voam aos bandos e retornam” é uma descrição literal de monitoramento cognitivo. A metacognição envolve a capacidade de mudar a forma como avaliamos uma informação. A estratégia de regulação emocional está em revestir de luxo e graça as banalidades. A mente identifica que o estímulo externo é pobre em significado ou excessivo em ruído e decide, deliberadamente, revesti-lo com uma camada estética. É a consciência de que a beleza não está no objeto, mas na “roupagem” que o pensamento constrói sobre ele.
Sob essa ótica, o objeto limerente de olhos macios e translúcidos funciona como um “ponto de ancoragem” para a metacognição. Ele é o espelho; pois, como simulacro e repositório, ao pensar no outro que a “ama de volta”, a mente adolescente cria um ambiente seguro para observar a própria alma. A regulação ainda desvela um ritual de autocuidado, visto no afago das asas dos sentimentos brandos. A mente reconhece a necessidade de suavizar a própria intensidade e usa a imagem do objeto amado para acalmar o sistema nervoso.
O Campo Santo como Estado de Paz Interior
O encerramento no “campo santo da felicidade” representa o nível mais alto de controle metacognitivo: a chegada a um estado de “quietude funcional”. O voo rasante é a consciência de que a mente pode operar perto da realidade sem ser destruída por ela. E a Santidade é o reconhecimento metacognitivo de que esse espaço interior é um solo sagrado que precisa ser preservado do caos externo.
Essa metacognição materializada no poema revela a vigilância interna que já era o embrião da escrita autoficcional. Eu precisava entender como a mente funcionava para conseguir traduzi-la em personagens que, embora “deficientes” na norma social, eram soberanas em seus mundos secretos. Esta é a peça nova do quebra-cabeça que se forma neste espaço seguro e sagrado — a newsletter que chamo de Mistifório: o objeto limerente é um mundo secreto.
Este habitat da ficção do amor é o embrião e, ao mesmo tempo, repositório do bom e do belo, que culminaria na criação de personagens ficcionais como Scarlet Moon, Luna, Helena e Amora. Em uma análise psicologizada, temos um caminho de individuação que integra energias psíquicas lidas como feminino e masculino e, por fim, busca reverter uma fragmentação reforçada pelo ambiente. A individuação não é um evento único, mas um processo contínuo que, para uma mente neurodivergente cujo principal recurso de sobrevivência é o mascaramento, claramente se fragmenta. Muito provavelmente, no curso de uma vida mental de uma pessoa neurotípica, essa divisão clara entre a máscara e o âmago não é tão evidente, sendo lida como natural; afinal, o ser social e o ser íntimo são comportamentos diferentes em sua natureza. Contudo, para uma mente afeita a pensar sobre o próprio pensar e monitorar seus processos cognitivos visando à autorregulação, temos um processo psíquico favorecido por uma neurologia atípica, na qual o comportamento social é plenamente consciente e nunca puramente subjetivo ou instintivo.
Essa transição do objeto limerente para mundos ficcionais mais complexos e, ao mesmo tempo, distanciados, descreve um fenômeno fascinante de transubstanciação psíquica, mas também uma sofisticação do processo metacognitivo. O objeto limerente, ao atuar como esse manancial de segurança, funcionou como um “casulo” protetor; a identidade pôde se fragmentar e se reorganizar em personagens sem o risco da aniquilação pelo caos externo. Ao mesmo tempo, ao adentrar a ficção, o processo metacognitivo gerou distâncias emocionais como uma rede de segurança. A consciência plena do processo envolvido só se manifestou quando o diagnóstico de TEA foi aventado.
A grande importância do objeto limerente reside no fato de que esse amor simulado do “outro” forneceu a permissão que o mundo real negava: a de existir em plenitude, mesmo que de forma secreta e dividida.
A Anatomia da Dualidade Ficcional
O fato de essas personagens terem surgido antes do diagnóstico de autismo as torna “fósseis vivos” de uma neurologia atípica:
Helena e Amora (O Déficit Comunicacional): Representam a barreira entre o pensamento e a expressão. Helena nasceu em 2015 como um poema sobre uma menina que, por não conseguir se expressar, torna-se boneca. Em 2017, evoluiu para um roteiro de longa-metragem com narrativas duplas (dentro e fora da boneca). Hoje, Helena renasce em um livro infanto-juvenil onde a “mágica” é traduzida como frequência vibracional e sonora. Sua contraparte, Amora, é a face tricksteriana: Helena é uma menina tão frágil e incompreendida que sua dor a desumaniza. Ambas narram a angústia de uma mente que processa o mundo em uma frequência que a linguagem padrão não alcança.
Scarlet Moon e Luna (O Déficit Relacional): Residem na dificuldade da performance social e do mascaramento. Scarlet Moon foi idealizada em 2015 e formalizada em 2019 como um roteiro de animação. Ela é a “menina dos sonhos” de Luna, uma entidade sobrenatural que guia Luna por um universo esquecido, criado por ela mesma para a própria proteção. Enquanto Luna é a fragilidade da socialização intensa, Scarlet incorpora a perfídia e a maturidade feminina que naturalmente o corpo feminino adolescente começa a incorporar. Mas ela usa uma gargalhada poderosa para romper amarras e expectativas. Scarlet Moon mimetiza meu próprio processo atual: revisitar o passado vivido e imaginado para compreender minha neurodivergência.
A Natureza Tricksteriana
Classificá-las como “meninas tricksterianas” é, talvez, o ponto mais visual da teoria aqui estabelecida e que conecta minha pesquisa acadêmica à minha criação literária. O Trickster (o trapaceiro) é aquele que cruza fronteiras, que subverte a ordem para revelar uma verdade mais profunda. Mas é também aquele que é amoral e aético por não aceder às linhas delimitatórias da ordem estabelecida. O trickster não compreende o mundo como as outras entidades mitológicas.
Ao trazer Scarlet, Luna, Amora e Helena para a superfície da ficção, deixei de ser a “vítima” de um déficit e passei a ser a narradora de uma experiência única. Um limiar foi cruzado. Elas não estão apenas “contando” sobre o déficit; elas estão usando a ficção para subvertê-lo. É esse o sentido da Academia Imaginária de Socialização, aventada formalmente quando da criação de Scarlet Moon.
Essa mudança do “outro que me ama” para as “personagens que eu crio” é o marco de uma autonomia criativa e de autocriação. O objeto limerente cumpriu seu papel de ponte e agora pode descansar, pois o “bom e o belo” que ele guardava foram devidamente recuperados e integrados a uma obra maior.


