O Poema "Cura": Limerência e Sobrevivência no Autismo Feminino
Uma análise profunda do poema "Cura" e do relato de 1994 sobre como a limerência serviu de regulação emocional para uma adolescente autista.

Cura
Quando a solidão ee tão evidente
Que o corpo é uma ferirda dolorosa
E a alama uma estrada perigosa
E a palavra fogo, lava ardente
Eu me revolvo em busca ardorosa
Por você, meu refúgio e libertação
Por este amor, a mais bela oração
Saída do mue coração, fervorosa
E me embebedo de paixã0 e ternura
E essa verdade na alama se enraíza
Para a saudade que me aterroriza
É você a única esperança de cura
A Limerência como Âncora: Um Relato de 1994
Em 1994, já havia um ano que eu tinha fugido de casa; um ano em que eu sobrevivi sozinha, me sustentando pelo meu próprio trabalho como empregada doméstica. Isso era algo bem comum há cerca de 30 anos: meninas do interior serem transformadas em domésticas — uma versão moderna da escravidão em ambientes familiares da cidade grande, entre famílias mais abastadas. No meu caso, eu diria mais que fui socorrida. Eu estava em uma situação de extrema vulnerabilidade quando essa família me acolheu, como uma babá, na verdade, mas acabei assumindo a casa toda e me inserindo ali na rotina familiar como a empregada da casa.
Talvez, se eu tivesse capacidade de socialização, poderia ter aproveitado melhor e me tornado uma parte mais ativa e afetiva daquela família, mas acabei me renegando ao papel de doméstica de uma forma muito fechada e distante. Enfim, eram minhas defesas, e o que importa neste momento é que este arranjo com essa família me trouxe uma certa estabilidade em termos de moradia, alimentação, trabalho e, talvez, até de renda. Porém, essa estabilidade trouxe um vazio muito grande, pois, uma vez obtida a tão sonhada estabilidade, eu precisava de outro propósito que não fosse apenas sobreviver.
O Propósito Através da Fantasia
Estudar sempre esteve entre os meus objetivos e isso é algo que comecei a fazer com total apoio dessa família, por sinal. A minha saída da primeira família em que trabalhei em Curitiba foi justamente porque eu queria estudar e eles queriam uma empregada que trabalhasse das seis da manhã às 11h30 da noite. Não dava certo; meu turno não fechava se eu tivesse que ir para a escola às 18h30.
Mas estudar era parte e não o propósito todo. Eu precisava saber onde chegaria com o estudo. E talvez, em uma situação de segurança e conforto, eu agora pudesse sentir minhas dores e encarar os traumas. Não precisava procurá-los, eles vinham até mim, o que era desesperador. E foi nesse momento de desespero que encontrei um propósito em um amor — em uma limerência, na verdade. Hoje entendo que o que eu vivia era exatamente o que Dorothy Tennov (1979) definiu como um estado involuntário de adoração obsessiva, onde a mente foca inteiramente em um “objeto de afeição” para lidar com a angústia. É uma história em que eu não gostaria de entrar em detalhes agora, mas já há algum tempo que percebi o propósito de amar esta criatura como minha salvação.
Relendo o poema “Cura”, compreendo que falo exatamente isso: que essa afeição trazia uma forma de regulação emocional. Como sugere Suz Vera Burroughs (2025), para uma pessoa neurodivergente, a limerência pode “bater de forma diferente”, funcionando quase como um sistema operacional de reserva. E esse amor fazia com que minha ética pessoal se alinhasse e, ao mesmo tempo, estabilizava minhas emoções nesses momentos em que “o corpo é uma ferida dolorosa e a alma é uma estrada perigosa”.
A Ruminância e a Âncora Emocional
Minha capacidade de ruminância, de análise, de mergulhar em pensamentos sombrios e diversas possibilidades de realização ou não pode ser torturante. Naquela época, era muito mais. Quanto mais instável era a minha situação, mais complexo era lidar com esse pensamento arborescente. Mas esse objeto de afeto trouxe alguns momentos de ternura; ele foi uma âncora em minha deriva pelos reveses da adolescência e vulnerabilidade social.
Ele era o que Tennov descreve como a busca por reciprocidade que organiza o caos interno. Quando eu me sentia prestes a me perder completamente nessa vastidão sem fim que é o mundo, ele me ancorava de novo no propósito de amar alguém, de buscar alguém muito específico e distante; de melhorar para encontrar essa pessoa, de me refinar física, emocional e academicamente.
Ao mesmo tempo, meu senso crítico desabrochou de uma forma única porque, sendo uma pessoa racional, eu me recusava a viver uma paixão aguda por uma criatura completamente fora da minha órbita — algo irrealizável. Eu assistia a programas de auditório nos quais as pessoas escreviam cartas de amor gigantescas em rolos quilométricos, e se debulhavam em lágrimas diante do ídolo, e sentia a famosa “vergonha alheia”. Por isso o poema fala: “quando a solidão é tão evidente”. Ou seja, quando você está no limite, quando a vida está insuportável, você se agarra naquilo que traz esperança. E assim vivi momentos de fuga desta ilusão e momentos de entrega absoluta, nos quais ele me trazia a cura. Embora eu use a palavra “cura”, eu diria que era mais um placebo ou um tratamento paliativo. Burroughs esclarece que esse “tratamento” é, na verdade, uma ferramenta de sobrevivência sensorial: o cérebro autista usa a imagem da pessoa amada para produzir a dopamina que o ambiente hostil nos nega. E funcionava por um tempo.
A Completude no Autismo Feminino
Embora eu passasse finais de semana deitada no escuro criando outras realidades nas quais essa pessoa fazia parte da minha vida, eu escondia completamente esse material. Percebo que autistas masculinos geralmente têm uma devoção por pessoas como um espelho, e tenho a impressão de que a mulher autista embarca na fantasia romântica em busca de uma completude. A solidão é tão devastadora que a ideia de se conectar de forma intensa e verdadeira com alguém é sedutora; é uma ideia que nos leva para onde a imaginação for capaz de criar.
Eu me cobrava muito por viver tanto tempo nesse refúgio em minha própria imaginação. Mas hoje a literatura científica começa a identificar como um refúgio cognitivo necessário contra o trauma da desconexão social. Muitas vezes, quando eu cansava de esperar esse amor impossível, eu “inventava” um amor dentro da minha realidade. Mas quando a realidade começava a desandar irreparavelmente, eu me sentia gradativamente me agarrando de novo à fantasia. Porque quando a solidão é evidente e o corpo é uma ferida dolorosa, a fantasia era tudo o que eu tinha; era o que podia me estabilizar de novo.
O Despertar de Perséfone
Esses ciclos de idas e vindas para os braços desta limerência — desse objeto de afeto único e inalienável — tornaram-se bastante sofridos para mim. Eu chegava a questionar minha própria sanidade, tentando entender por que precisava disso e por que, sempre que meus relacionamentos reais desandavam, eu iniciava imediatamente esse movimento de retorno para dentro do refúgio imaginário.
Em 2017, decidi não cair mais nessa armadilha. Esse despertar deu origem a um livro: Perséfone em Hades. Foi um processo denso, escrito em um ritmo febril de sete meses. É um livro difícil, pesado, mas bonito, que aborda questões profundas sobre o amor e a ideia do amor em si; sobre o ato de amar e não necessariamente sobre um “Amado”.
Enfim, voltamos àquele ponto crucial da neurodivergência: quando o autista ama, ele não convida para jantar; ele escreve um livro para o ser amado. Eu decidi não mais viver esse ciclo interminável.



Olá Oryanna. Seu post caiu do céu pra mim, hoje... eu preciso conversar com alguém sobre esse assunto. Estou em outro país (frança), conheci uma moça autista e estava afixionado por ela, com sintomas fortes de limerência. Mas lendo o seu texto vi a perspectiva dela. Eu preciso muito respeitar isso, porque o relacionamento com a moça é impossível no momento. Eu li seu texto e associo com muitas coisas que ela me disse sobre si mesma. Eu estou sofrendo por precisar me afastar dela, mas acho que será o melhor para nós dois. Obrigado pela partilha.
Obrigada por esse texto! me sinto um pouco mais "normal" (dentro do autismo).