Oryanna Borges

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Crônicas

Charlotte Brontë e a Neurodivergência: O Experimento de Gênero em "O Professor"

'O Professor' como um experimento de gênero analítico. Saiba como Charlotte Brontë utilizou a voz masculina como um laboratório neurodivergente para mapear o patriarcado antes da gênese de Jane Eyre.

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Oryanna Borges
mai 05, 2026
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Incêndios

O Protagonista Masculino como Experimento de Gênero

Primeiramente, é importante destacar que a leitura que se segue da obra O Professor, de Charlotte Brontë, toma como pressuposto a neurodivergência da autora, proposta a partir da análise de seus textos por estudiosos como Julia Miele Rodas. Contudo, não será a análise de sua neurodivergência que tomará lugar aqui, senão uma especulação — suscitada pela identificação — dos motivos que possivelmente a levaram a escrever um protagonista masculino em seu primeiro romance.

Identificação esta que me assomou durante a leitura do texto de Gubar e Gilbert no capítulo dedicado a Charlotte Brontë e que me levou a contestar alguns pontos de vista das autoras do aclamado The Madwoman in the Attic na medida em que o lia. A compreensão intuitiva que aqui se articula pode estar contaminada pela minha experiência com meus próprios textos, ou pode ter sido revelada por causa dela. Mas acho importante dizer que compreendi, desde os excertos da obra por elas destacados, como o personagem servira a Charlotte na composição de sua obra mais famosa e escandalosa para a época: Jane Eyre.

E ao ler o romance The Professor minha intuição pareceu se confirmar. O texto que se segue é resultado desse embate entre o sentimento portentoso que me assomou durante a leitura do trabalho das pesquisadoras e da percepção, cada mais evidente,para mim, da neurodivergência nas escolhas criativas e vocabulares de Charlotte Brontē.

Identificação e Espelho: De Jane Eyre ao Espectro

É óbvio que não pude ignorar minha ciência de que cientistas do comportamento e da linguística haviam apontado as irmãs Brontë no espectro do autismo, com diferentes graus de necessidade de suporte e igual inclinação para a escrita como reguladora e treinamento social. Preciso, no entanto, salientar que minha identificação com a escrita de Charlotte Brontë precede as listas de célebres possivelmente no espectro que rolam pela web; antes de conhecer a mulher autista em mim, eu reconheci a criança em Jane Eyre.

Como mencionei no post do cotejo entre os poemas Rejeição e Despertar, conheci a obra de Charlotte Brontë por intermédio de um professor que, ao ouvir minhas queixas sobre a violência acadêmica sofrida na graduação, me indicou Jane Eyre. A pequena Jane de dez anos me resumia e, decerto, sintetizava milhares de memórias apagadas pelos surtos silenciosos de raiva e ansiedade. Eu fui a criança “indócil” que Jane era, e cujos olhos delatores provocavam reações violentas em um algoz similar a John Reed.

Obviamente, minha identificação com a ética inabalável de Jane adulta seria inevitável e ainda mais profunda quando ciente de minha neurodiversidade. Contudo, o cotejo entre os poemas que me levou de volta a esta obra visava apenas compreender o contrato social do casamento pelo viés de uma heroína que soube escolher a si mesma.

Ser arrebatada pela perspectiva de gênero presente na escrita de Brontē não estava previsto.

A Crítica a Gilbert e Gubar: O Mascaramento Literário

Para Sandra Gilbert e Susan Gubar, em sua obra seminal The Madwoman in the Attic, a escrita de O Professor é uma tentativa de autodisciplina e repressão que adota um protagonista masculino para mascarar sua própria urgência emocional e “feminina”. Isso faz com que o termo “andrógino” pulule pelo texto como uma característica negativa, de algo que habita um limiar sem nada ser. O veredito é que a obra falha artisticamente por ser excessivamente rígida e didática, justamente por causa do esforço de Brontë em “mascarar” seu fogo interno sob uma superfície de realismo austero e por tentar dar voz a um personagem masculino com o intuito de alcançar autoridade e respeito em um meio literário dominado pelos homens.

A progressão destas ideias me mostrava, contudo, um exercício: uma experiência de gênero de uma perspectiva neurodivergente. De fato, Gilbert e Gubar apontam a obra como um rascunho para a autonomia, onde o protagonista usa o trabalho e a observação clínica como uma forma de controle sobre um mundo hostil. Mas acrescento a perspectiva do experimento de gênero por uma mente neurodivergente, para quem o gênero é um dado social muitas vezes lido com dificuldade, porque exige a leitura dos contextos, quando o autista, muitas vezes, coleta dados esparsos que farão sentido apenas a posteriori.

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