Oryanna Borges

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Poesia para ler

Rejeição e Despertar: O Cotejo Poético

Analisamos o "lado obscuro" da limerência na mente neurodivergente através do cotejo dos poemas Rejeição e Despertar. Uma jornada de Jane Eyre ao cinema das sessões da tarde.

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Oryanna Borges
mai 02, 2026
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Representação visual do cotejo entre os poemas Rejeição e Despertar: uma mulher com coluna de vidro vitoriana e interior de samambaias e romãs.
Wardian Case
Rejeição

Não sinto amor nesses beijos sufocantes. 
Que desprezo mais relutante permito.
Como castigo que não mereço nem evito
Eu ofereço meus lábios suplicantes

E os recebo como estalo dos açoites
Me ausentaria por instantes dos sentidos 
Se meus instintos não fossem reprimidos 
Pela própria concessão tão revoltante. 



Despertar

Tirastes de meus olhos a luz e o desejo 
de viver além de onde tua alma está 
pois a luz mais fulgurante que no mundo há 
na tua plácida escuridão é faísca, lampejo

Meus olhos extasiados rejeitam a claridade 
e buscam em teus olhos  sossego da noite 
pois a frivolidade despertada pela luz é açoite 
a flagelar minha principiante espiritualidade.

O Estalo do Açoite: A Dialética entre Beijos e Luz

Diferente de outras análises acerca do amor limerente por um viés neurodivergente, decidi promover uma analogia entre dois aspectos registrados nos poemas: a completa devoção a este objeto limerente alçado à categoria de divindade particular, e a rejeição da vida real, orquestrada para suplantar minha condição de adolescente sem suporte parental. Este cotejo proveio de uma necessidade de explicitar o lado obscuro da limerência para mentes neurodivergentes, e quiçá para neurotípicas.

Como aqui parto de minha própria experiência e dos registros objetivos e subjetivos propiciados pela escrita, vamos supor que esta é uma experiência neurodivergente e assumir que o que diferencia os sentires e o manejo dos recursos psíquicos é a intensidade. Assim, uma pessoa neurodiversa, especialmente uma autista com altas habilidades, pode, sim, se deparar com o sofrimento incomensurável que a limerência proporciona, negando a vida ou vivendo a vida como uma obrigação ou suplício.

A escolha dos poemas pautou-se no uso de uma palavra específica: açoite. Enquanto em “Rejeição” o beijo e o contato são descritos como um “açoite” que fere a dignidade, em “Despertar” o “açoite” vem da luz externa e do mundo, transformando a escuridão do objeto limerente em um refúgio espiritual. Cabe aqui, mais uma vez, reforçar essa percepção de que o amor limerente era uma forma de autorregulação. Pelo menos quando vivenciado até certa medida.

O Contrato de Sobrevivência: Casamento como Estratégia de Masking

Na última terça-feira, compartilhei uma crônica aberta a todos. No entanto, o texto que você começa a ler agora — e que se aprofunda a partir deste ponto — é um presente exclusivo para os meus assinantes pagos. Este ensaio não nasceu de um ímpeto, mas de três dias de imersão profunda em leituras, cotejos poéticos e na dissecação de memórias que exigiram de mim o rigor da pesquisadora e a entrega da artista.

Ao fechar este post para os apoiadores, honro o tempo e o silêncio necessários para produzir um trabalho com esta densidade. Convido você a cruzar este limiar comigo e acessar a anatomia completa dessa jornada entre o açoite e a soberania,

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