Rejeição e Despertar: O Cotejo Poético
Analisamos o "lado obscuro" da limerência na mente neurodivergente através do cotejo dos poemas Rejeição e Despertar. Uma jornada de Jane Eyre ao cinema das sessões da tarde.

Rejeição Não sinto amor nesses beijos sufocantes. Que desprezo mais relutante permito. Como castigo que não mereço nem evito Eu ofereço meus lábios suplicantes E os recebo como estalo dos açoites Me ausentaria por instantes dos sentidos Se meus instintos não fossem reprimidos Pela própria concessão tão revoltante. Despertar Tirastes de meus olhos a luz e o desejo de viver além de onde tua alma está pois a luz mais fulgurante que no mundo há na tua plácida escuridão é faísca, lampejo Meus olhos extasiados rejeitam a claridade e buscam em teus olhos sossego da noite pois a frivolidade despertada pela luz é açoite a flagelar minha principiante espiritualidade.
O Estalo do Açoite: A Dialética entre Beijos e Luz
Diferente de outras análises acerca do amor limerente por um viés neurodivergente, decidi promover uma analogia entre dois aspectos registrados nos poemas: a completa devoção a este objeto limerente alçado à categoria de divindade particular, e a rejeição da vida real, orquestrada para suplantar minha condição de adolescente sem suporte parental. Este cotejo proveio de uma necessidade de explicitar o lado obscuro da limerência para mentes neurodivergentes, e quiçá para neurotípicas.
Como aqui parto de minha própria experiência e dos registros objetivos e subjetivos propiciados pela escrita, vamos supor que esta é uma experiência neurodivergente e assumir que o que diferencia os sentires e o manejo dos recursos psíquicos é a intensidade. Assim, uma pessoa neurodiversa, especialmente uma autista com altas habilidades, pode, sim, se deparar com o sofrimento incomensurável que a limerência proporciona, negando a vida ou vivendo a vida como uma obrigação ou suplício.
A escolha dos poemas pautou-se no uso de uma palavra específica: açoite. Enquanto em “Rejeição” o beijo e o contato são descritos como um “açoite” que fere a dignidade, em “Despertar” o “açoite” vem da luz externa e do mundo, transformando a escuridão do objeto limerente em um refúgio espiritual. Cabe aqui, mais uma vez, reforçar essa percepção de que o amor limerente era uma forma de autorregulação. Pelo menos quando vivenciado até certa medida.
O Contrato de Sobrevivência: Casamento como Estratégia de Masking
Ao fechar este post para os apoiadores, honro o tempo e o silêncio necessários para produzir um trabalho com esta densidade. Convido você a cruzar este limiar comigo e acessar a anatomia completa dessa jornada entre o açoite e a soberania,



