Voracidade: Entre o Objeto Limerente e o Shutdown
O fim da limerência como refúgio e o advento do shutdown . Uma meditação sobre a exaustão de ser 'guerreira' e o silêncio da 'concha vazia."
Voracidade
Quero tocar sua alma com minhas palavras
para que sinta minha alma como eu sinto
e não desista esse amor que não resisto
quero morrer e renascer incontáveis vezes
na íntima escuridão do seu olhar faminto
na insensatez das sensações mais vorazes.
Atingi um limite.
Voracidade é tudo o que não tenho no momento. Os últimos dias foram de luta e estou cansada de ser guerreira. E em momentos como esse, até cerca de três anos atrás, meu refúgio final era o objeto limerente. Ele me traria primeiro o conforto, depois a fricção aflitiva e por fim a superação estética por meio da escrita. Contudo, o esforço racional para estar presente — no tempo presente, no espaço circundante e não nos espaços imensuráveis da imaginação — eu o dissequei ao longo de livros como Perséfone em Hades, e análises metódicas nesta newsletter.
Mesmo sem um objeto limerente para ocupar esse lugar vazio que não espera nem acredita mais em amor diferente do sentido por Mina, minha gatinha (a gatinha à qual sirvo), a minha ecolalia musical da última semana foi Woman in Love de Barbra Streisand, mas em uma versão blues, a voz profunda reverberando alma adentro até o choro. Como disse no poema Couraça de Perséfone em Hades:
“Serás, no entanto,
casca vazia, concha
sem memória do mar
tão logo eu recobre
o senso. Tua sina, títere.
Tua imagem, falsa.
Tua alma, éter.”
E meu objeto limerente é isso: oco, vazio, mas ainda presente como um vulto que o olho capta de esguelha e se convence de ter sido só ilusão de ótica. Eu não consigo concatenar as ideias para avaliar o poema de uma perspectiva culta, articulando Espinosa e Damásio. Meu cérebro está desligando antes de um curto-circuito. Mas eu posso sentir ainda os fantasmas das pessoas que fui me espreitando e fugindo rapidamente pelo canto do meu olho, que parece recoberto de areia, ou sal de lágrimas nunca choradas. Eu não ouço a concha, vazia, sem memória do mar. Resta cerrar o horizonte desta vista arenosa e dormir. Voltaremos com Espinosa e outras digressões.



