Você já viu um livro ser escrito?
Perséfone em Hades | A Doutrina dos Contrários: Um convite para a segunda parte da jornada e o primeiro poema "A Melopeia Mancha"

A Melopeia Mancha
A melopeia mancha,
Desfigura a máscara
E susta num grito
Que te despoja
Do meu olhar;
Viola teu corpo santo
E o arremessa
Sobre o altar
Vandalizado
Meu lirismo, único manto,
a te ressignificar
em insidiosa carne
vai te quebrantar
HumanizadoBom dia, caro leitor.
Você já viu um livro ser escrito? É sempre um evento único. Mas e um livro de poesia que, mais do que um mote, tem propósito claro e arcabouço definido, pronto a receber o estofo literário? Parece loucura, eu sei, mas foi assim que nasceu Perséfone em Hades: Cora em Contrição.
Creio que já contei essa história, mas vou me repetir: a obra cuja postagem na íntegra você acaba de acompanhar nasceu de uma ecolalia musical. Em 2009, em um desses muitos embates com a minha maior oponente — a morte — a música Perfeição, da Legião Urbana, ecoava insistente enquanto eu lutava com ela: “Eros e Thanatos, Perséfone e Hades…”.
Eu venci esse embate. A prova está no poema Eros e Thanatos e no fato de que, mais de 15 anos depois, aqui estou planejando outro livro. Ou melhor, compreendendo a continuidade do que foi originalmente concebido como um único poema. Cessada a luta, o “espólio” de Eros e Thanatos me pareceu um convite para escrever sobre o inferno de amar a partir do mito de Perséfone.
O Caminho até o Epílogo
Tentei durante anos escrever algo similar, mas só cerca de oito anos depois compreendi que seria um livro. Foi pouco antes de um divórcio, momento em que precisamos definir quem somos e reconhecer as máscaras que usamos para dançar no “sacrossanto matrimônio”.
O primeiro poema escrito foi Heroísmo, o epílogo. Quando a “vida de comercial de margarina” se dissolve, o objeto limerente se torna o único conforto. Heroísmo foi o reconhecimento desse ciclo de refúgio no amor platônico.
Nota: Caso não saiba do que se trata a limerência, sugiro um mergulho na seção Poesia para Ler, onde exploro escritos de devoção e poemas da adolescência.
A Travessia e a Máscara
Perséfone em Hades narra a trajetória pelo inferno de amar: do arrebatamento ao mundo secreto até a consolidação da “armadura da consciência” no Campo de Asfódelos. Ali, a personagem se reconhece poeta e decide subir à superfície consciente de sua dualidade.
Mas não é fácil. Hoje, ciente de ser neurodivergente, entendo que as máscaras que revestem o feminino são ainda mais pesadas. O medo de Perséfone de ser “Cora novamente” — o palimpsesto que serve ao mundo sem frutificar para si — é uma metáfora para o masking (mascaramento) contumaz, cujo custo é altíssimo.
O Próximo Passo: Senhora dos Opostos
A continuidade sempre foi um fato. Minha curiosidade sempre foi saber como esta mulher se portaria na superfície.
A partir de agora, compartilharei nesta seção a segunda parte da obra: Senhora dos Opostos- A Doutrina dos Contrários. Na semana que vem, contarei mais sobre este título e como ele se relaciona com meus outros trabalhos.
Fica aqui o convite para me acompanhar nesta continuidade da jornada.
Agora, convido você a caminhar comigo nesta nova superfície de A Doutrina dos Contrários. Se você se identifica com a poesia que desfigura as máscaras e com os desafios de ocupar o mundo com autenticidade, considere assinar esta newsletter.
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