Versos Bárbaros: A Limerência e a Cisão Neurodivergente no poema "Dois"
Este ensaio autoetnográfico disseca o poema "Dois", escrito na juventude, sob as lentes da limerência e da neurodivergência. Dualidade, Mascaramento, busca por refúgio, trasnformados em identidade.

Dois
Quando ouço o murmúrio da tua solidão
me toma uma angustiada e louca à vontade
de ultrapassar as barreiras da sanidade
e gritar com todo o clamor dessa emoção.
Estou aqui, meu perfeito e doce amor.
Estou te procurando na mesma agonia
envolta nessa mesma solidão sombria
sabendo que és a cura para minha dor.
E também resisto com todas as forças,
faço tudo visando encurtar as distâncias
que a vida impiedosamente nos impôs
E não sei se dói mais minha dor ou a tua.
Fervorosamente rezo a Deus, ao sol, à lua,
pois é penoso demais seguirmos como dois.
Reler um texto antigo é reler a si mesmo de uma outra perspectiva. É o “olhar estrangeiro” promulgado por Claude Lévi-Strauss como pré-requisito para o estudo antropológico — e o qual me custou a vaga no doutorado na UFMG. Sim, eu fui reprovada na entrevista por causa de uma nota mínima advinda de um dos membros da banca, do qual eu ri quando ele apresentou esse aparato teórico para questionar meu projeto de pesquisa autoetnográfico. O riso, decorrente de saber que o olhar autista é sempre um olhar estrangeiro, não caiu bem nos ouvidos do burrocrata da educação. (Caso esteja vendo erro na grafia de alguma palavra desta frase, peço a gentileza de ignorar. E se você não entendeu por que não viu erro, bem-vindo ao senso de humor autista que me custou, talvez, o título de doutora em neurociências).
Arqueologia Poética e o Manancial Criativo
Mas fato é, caros leitores, que quando revisitamos escritos e versos guardados há décadas — versos especialmente, por sua carga imagética e propriedades de síntese — frequentemente encontramos neles o fio de Ariadne que inevitavelmente nos conduziria a quem somos hoje. É como se a intuição artística operasse fora do tempo cronológico. O poema “dois” é um documento zero dessa natureza.
Embora a memória o ancore afetivamente no ano de 1997 — utilizando a canção homônima de Paulo Ricardo e Marcos Valle como um carbono-14 biográfico —, a sensação persistente de que os versos foram escritos antes da melodia revela um fenômeno fascinante de sincronicidade. Trata-se do acesso direto àquela “nuvem criativa” onde ideias e arquétipos flutuam no éter antes de se materializarem no mundo real.
Para a jovem que aos 19 anos havia enterrado o sonho do desenho de moda diante de realidades financeiras inconciliáveis, lidar com a frustração de ver alguém aplicando ideias que considerava minhas, antes que eu pudesse materializá-las no universo fashion, me obrigou a fixar a relação entre poema e canção. Quando a música “Dois” surgiu, me senti roubada. Não pelos compositores, mas por um mundo que deu a eles acesso ao mesmo manancial criativo e melhores condições de exercer essa criatividade. Antes que a “nuvem” fosse um conceito de armazenamento virtual de dados, eu já me digladiava com ela como manancial de ideias.
A Gênese do Abrigo: O Tranco Neuroquímico aos 14 Anos
Apesar de escrito em 1997, a gênese desse processo recua ainda mais no tempo, fixando-se aos 14 anos de idade, no epicentro de uma crise autista camuflada. O nascimento do vínculo com o objeto limerente que este poema aborda ocorre no exato instante subsequente a um choro que hoje sei ser terapêutico e regulador: o choro sem som, que distensiona e desperta músculos do rosto ainda desconhecidos pela ciência em uma carranca de desespero. O colapso físico no qual o grito fica preso na garganta é também um gargalo de autorregulação, e isso me fascina. Pois o poema também dispõe dessa ambiguidade, própria da limerência, na qual o objeto limerente é a cura para a dor, mas também a sua causa. Para mim, considero o saldo positivo, pois, no fim das contas, o objeto limerente foi — como já dito tantas vezes nesta newsletter — minha âncora, meu esteio, meu farol, minha academia sentimental imaginária.
Mas, no dia desta carranca, o encontro com uma imagem fotográfica em um chiaroscuro que faria inveja a Caravaggio resultou em um tranco neuroquímico de alto impacto. Diante de uma fisionomia artisticamente irreconhecível na revista, os olhos funcionaram como um portal, e eu estive em outras dimensões, atravessei almas desavisadas e voltei para meu corpo como um fantasma de mim mesma, atormentada de susto e êxtase. Naquele momento, o cérebro neurodivergente não encontrou apenas um afeto romântico platônico, mas edificou um abrigo seguro. O objeto limerente nasceu como um esteio imaginário necessário para organizar o caos de um mundo que se apresentava hostil e incompreensível.
A Dualidade como Norma e o Pujante Monstro em Mim
Sob a lente da neurodivergência, o primeiro verso — “quando ouço o murmúrio da tua solidão” — deixa de ser um artifício lírico e passa a documentar uma profunda hiperempatia e contágio emocional. Minha mente porosa não apenas compreendia o sofrimento; ela o absorvia somaticamente. O “murmúrio” do objeto limerente gerava um eco físico imediato, e eu mimetizava a experiência real de corporificar dores alheias até o limite do travamento físico.
Essa intensidade gera uma inevitável cisão existencial. Mas é o diálogo com o poema “Dualismo”, de Olavo Bilac, que ecoa essa mesma percepção de descompasso de forma mais esclarecedora. A sensação de carregar no peito “um demônio que ruge e um Deus que chora” denunciava o desenvolvimento pujante do “monstro em mim”. Para a criança e a adolescente autista, na qual a dualidade era a norma seguida como mascaramento contumaz das próprias dificuldades, escapar dos rótulos que definiam o seu sentir profundo como mero “drama” ou “confusão” era o propósito maior para aprofundar a dualidade. Para essa jovem poeta, isso aprofundava a necessidade de um amor que representasse fusão absoluta, como contraponto.
Versos Bárbaros: A Geometria Orgânica do Transbordamento
O poema “Dois” traduz geometricamente a angústia do isolamento através de sua própria estrutura. Escrito intuitivamente com 14 versos — a anatomia exata de um soneto —, o texto dita seu ritmo através do peso das palavras. O ápice dessa tensão se manifesta no que a poética classifica como versos bárbaros: as linhas finais, que rompem a métrica tradicional e se expandem para 13 sílabas poéticas.
Esse transbordamento métrico ocorre precisamente quando a necessidade interna de extravasamento oblitera as regras. O verso se estica fisicamente no papel porque a dor não cabe mais na margem. Isso, de certo modo, sanou minha revolta a respeito da nuvem criativa, o manancial que Paulo Ricardo e Marcos Valle acessaram ao mesmo tempo que eu. Minhas condições talvez fossem desfavoráveis, mas o produto final é único. Cada um usa o que absorve da nuvem criativa cósmica à sua maneira.
Soberania da Intensidade e o Martírio de Ser Dois
O fecho do poema justifica o título escrito por extenso. Ser “Dois” é o martírio da fragmentação. Na perspectiva da limerência, busca-se a fusão absoluta para aplacar a abstinência química; na perspectiva neurodivergente, busca-se o colapso do espaço entre as individualidades para finalmente descansar do esforço monumental de existir e simular normalidade.
Hoje, mesmo que a figura real que deu origem a esse ser tenha sido desubstanciada e racionalmente afastada há décadas, o instinto de buscar esse esteio antigo ainda permanece na fiação neurológica como um mecanismo de fuga ativado em momentos de exaustão e violência psicológica externa. No entanto, o paradoxo atual é definitivo. E como percebi isso? Outra ecolalia musical e um poema cuspido na semana passada. Mas isso é assunto para outro dia. Aqui não cabem dois poemas.
Só o saber que a escrita, que outrora foi um frasco para conter a dor da separação, permanece agora como o testemunho soberano de uma intensidade que não precisa mais se desculpar por existir.
Viver plenamente exige aceitar a voltagem dos próprios versos bárbaros.
Para Sustentar a Voltagem
O paradoxo do “objeto limerente” na fiação neurológica ainda não foi totalmente esgotado. Há outra ecolalia musical ressoando e um novo “poema cuspido” aguardando o momento de transbordar a margem.
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Do Papel à Matéria
A auto-criação literária que você leu aqui foi apenas o início da travessia. Aceitar a voltagem exige transbordar da escrita para a manifestação da realidade.
Existe uma outra versão minha, não impressa em papel, operando em um manancial mais profundo
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O Gabarito do Abismo
Se este ensaio revelou os andaimes de uma juventude neurodivergente e limerente, Abyssalia é a arquitetura final da maturidade desse sentir. O livro guarda as respostas que a jovem de dezenove anos não tinha, mas traz consigo um mistério ainda maior: qual foi o preço real para dar forma ao abismo
Para apoiar diretamente a autonomia desta autora e ter acesso ao gabarito desta intensidade materializado em literatura, convido você a conhecer e adquirir a obra na Editora.
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