Urgência e a Alquimia da Presença: Limerência como Tecnologia de Processamento Neurodivergente
Como a poesia e a filosofia de Spinoza e Schopenhauer transformam a limerência em ferramenta de regulação sensorial no autismo.

Urgência
Senti-o suave a me tocar,
senti sua respiração ofegante
e em seu apaixonante olhar
mergulhei por longo instante.
Senti próximo o hálito quente
da sua boca delicada e forte,
deixei-me aproximar da Morte
e senti desejo de viver urgente.
Quando senti pulsar seu coração.
Agora busco vida e tenho pressa
de não mais abraçar essa ilusão;
ah, preciso incorporá-lo à realidade.
A Alquimia da Presença: O Objeto Limerente como Bio-Regulador e o Poema como Logos
Hoje não é um bom dia para longas filosofanças acerca de escritos de outrora. Mina, minha gatazana, está com uma crise alérgica e ainda não descobri o alérgeno alojado em nossa própria casa. Estamos no segundo dia de faxina e medicação, sem sinal ainda do causador do desconforto dela. A prioridade hoje é ela. O que não me impediu de articular, enquanto beberico um café para acordar, alguns conceitos que não serão devidamente aprofundados, mas que revelam a complexidade do pensamento neurodivergente e de sua busca por coerência e integridade.
O poema Urgência ainda navega na fricção aflitiva entre a percepção da realidade e a ilusão criada para não naufragar em um mundo repleto de ruído. Para uma mente que habita a intensidade abissal da neurodivergência, o fenômeno da limerência não é mera distração romântica; ele se configura como uma tecnologia orgânica de processamento. Quando o mundo externo se torna ensurdecedor, o sistema nervoso cria um ponto fixo de navegação interoceptiva e proprioceptiva.
Urgência traz esse momento em que a imaginação vívida confunde a percepção por alguns momentos e o outro — avatar que é repositório de dados sensoriais — parece prestes a se materializar. Mas desmancha-se antes de ser tangível. Contudo, ao focar no pulsar do coração alheio ou na respiração ofegante, a mente realiza uma tradução: ela usa a clareza do objeto para entender a confusão do próprio corpo. Isso nos traz o paralelismo mente-corpo de Spinoza em sua forma mais prática: a mente, sendo a “ideia do corpo”, busca no objeto limerente uma imagem de potência que o próprio corpo, desgastado pela escassez e pela fricção aflitiva, ainda não consegue sustentar sozinho.
Outro conceito emprestado de Spinoza para estas divagações é o conatus, o esforço incessante de perseverar no próprio ser. Spinoza delineia o hiperfoco na definição definitiva do conatus. E é através desse hiperfoco que a “fricção aflitiva” entre a razão (que aponta a distância) e a emoção (que exige a fusão) é canalizada. No entanto, essa voltagem é alta demais para ser mantida apenas internamente; ela exige o escoamento regulador da experiência estética. E isso nos traz Schopenhauer e O Mundo como Vontade e Representação ( Schopenhauer, 2005). Na contemplação do objeto limerente, a alma tenta escapar da “Vontade” escravizante — aquele desejo cego que consome e dói — para tornar-se um “sujeito puro do conhecer”.
O poema, então, surge como o instrumento dessa transmutação. Escrever não é apenas registrar; é realizar a Alquimia. A escrita de versos como os do poema Urgência ou Alquimia funciona como uma materialização e consolidação da regulação. Pelo paralelismo espinosista, no momento em que a palavra (a ideia) organiza o caos em métrica e ritmo, o corpo (a extensão) recebe o comando de software correspondente. A fricção aflitiva é amainada porque o poema transforma o desejo bruto em Representação Estética.
Ao final do processo, a criadora de mundos não está mais à mercê da falta; ela está sentada diante do seu Ouroboros, tendo transformado a obsessão em soberania e o susto da vida em um desejo de viver urgente. Voltaremos a esses conceitos. Agora a prioridade é Mina.
Você pode saber mais sobre esses conceitos aqui:
SPINOZA, Benedictus de. Ethics: proved in geometrical order. Edited and translated by Matthew J. Kisner. Cambridge: Cambridge University Press, 2018.
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação: tomo I. Tradução de Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005.


