Um Soneto Interrompido aos 20 Anos
Nos anexos de Retrato das Sombras, a arqueologia de um fragmento salvo sobre o masking e o burnout autista na terceira década de vida.

Soneto Interrompido
Então resolvi desafiar convicções
E ensaiei um festivo traje novo
Para disfarçar velhas aflições
E revoltosos valores que louvo
Pintei o que eu sabia ser saudade
De uma beleza eficaz mas fictícia
E insinuei por simples vaidade
Uma dose inexistente de malícia
E lamentei minha própria condição
Perspectiva Neurodivergente: A Arquitetura Rígida do Masking e o Burnout
Tenho a impressão de que este poema interrompido deveria ser um soneto. E talvez uma tentativa de sacramentar uma nova postura perante a existência. Nos meus vinte anos eu sentia essa cobrança externa de parecer mais articulada e sedutora. Recordo que, por volta dos 23 anos, um namorado relatou, em uma das minhas poucas saídas à noite com seu grupo de amigos, que fora aconselhado a me deixar de lado pois eu era “muito parada”. É difícil explicar hoje em dia, para quem me escuta tão verbal e articulada, esse embate que eu julgava ser com a timidez, há mais de 20 anos.
Mas eu lembro claramente deste evento específico, que não tem relação nenhuma com a escrita do poema e sim com a aparente necessidade de escrevê-lo. Lembro da dificuldade de administrar pessoas estranhas em um lugar muito cheio de gente — um bar — e ainda um relacionamento nascendo, tudo ao mesmo tempo. Muita novidade e muita cobrança concomitante. E o comentário vinha como confirmação de minha inadequação e reiterada exigência de mudança. Não à toa, neurodivergentes, em especial autistas sem diagnóstico, vivem em estado de hipervigilância.
Para mim, a tentativa de emular a forma clássica do soneto funciona como um correlato estético perfeito para o masking — a camuflagem social consciente utilizada por indivíduos neurodivergentes para performar uma neurotipicidade esperada. O vocabulário é explicitamente cênico: “ensaiei ”, “disfarçar”, “pintei”, “insinuei”. O eu lírico está consciente da inadequação de suas reações naturais e, por isso, projeta uma persona artificial, dotada de uma “malícia” e de uma vivacidade que não possui organicamente.
Eu era um tristíssimo palhaço nessa época.
A escolha das duas quadras com rimas cruzadas (convicções/aflições, saudade/vaidade) pode facilmente ser lida como uma tentativa da mente de se ancorar em regras rígidas e estruturas lógicas para conter sua inadequação. No entanto, o processo de masking é metabolicamente exaustivo. O surgimento do nono verso isolado, “E lamentei minha própria condição”, marca o colapso abrupto desse esforço. E isso me comove profundamente, pois embora eu não lembre particularmente da escrita deste poema, eu sinto a sua dor como se meu corpo a tivesse guardado. A energia dedicada à sustentação da simetria e da performance social simplesmente se esgota. A mente desiste de buscar a rima e a métrica dos tercetos; a crueza da exaustão dissolve a estrutura reguladora.
O Traje do Masking e o Esgotamento Recíproco
Ou talvez a tentativa de me encaixar tenha falhado em alguma esquete mental e o poema registre essa contrariedade interna que conheço bem, na qual uma irritação profunda assume meu humor diante do fazimento de algo que não quero absolutamente fazer. Esse "festivo traje novo” é a persona neurotípica manufaturada para o ambiente social — uma indumentária comportamental brilhante, desenhada especificamente para “disfarçar velhas aflições”. Estas mesmas que me acometiam em um lugar novo, barulhento e cheio de gente me medindo da cabeça aos pés.
O conflito mais doloroso da neurodivergência surge no fechamento da primeira quadra: “E revoltosos valores que louvo”. Há uma dissonância cognitiva excruciante aqui. O eu lírico possui uma lógica interna estruturada em valores intensos, profundos e “revoltosos”. Eu lembro da revolta de ter um código interno que parecia me impedir e me misturar. E o poema reconhece que o mundo exige o sepultamento dessa identidade sob o manto da convenção social. Eu queria ser mais leve, e este poema prova isso. Mas eu nunca consegui parar de auscultar o abismo e transcrevê-lo em versos.
A segunda quadra descreve a sofisticação dessa camuflagem: a pintura de sentimentos artificiais (”beleza eficaz mas fictícia”) e a clara tentativa de performar uma malícia inexistente, simulando uma leveza flertante para se misturar ao ambiente. No entanto, tecer e sustentar essa armadura social drena a energia psíquica, mesmo em uma esquete mental. O nono verso, isolado e destituído da métrica par dos tercetos, surge como o colapso inevitável. É o registro estético do burnout de camuflagem: quando o peso do traje se torna insuportável, a costura formal do soneto se rompe e a mente desaba na exaustão da própria “condição”. O poema termina abruptamente — fosse pelo esgotamento da autora ou do assunto, fato é que ele se esgota. E finda dignamente.
Fingir nunca foi parte integrante dos revoltosos valores que louvo. E admiro aquela menina que sustentou a performance verdadeira e ainda registrou sua escolha.
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