Um Manifesto de Alquimia Prática.
Recalibrar o corpo neurodivergente é um ato de resistência. Especialmente com novo projeto criativo paralelo à Newsletter, que agora ganha uma nova dinâmica de postagem. Vem ver.
A Cozinha Como Coração Alquímico
A confeitaria tem essa precisão de modo que uma confeiteira afoita não produz o mesmo resultado das mãos dedicadas e do fazer com presença. E depois de dias de muito trabalho físico, mental e emocional para cumprir propósitos criativos, a precisão de um bolo foi a forma de gradualmente trazer meu corpo de volta para uma zona de conforto bioquímico. Um ritual que, depois de quase dois meses sem sair de casa, só foi possîvel quando me arrisquei a comprar laranjas online.
A receita do meu bolo de chocolate foi desenvolvida ao longo de anos até alcançar aquele sabor particular e confortante. As tentativas de reproduzi-lo sem as raspas de laranja resultaram em um bolo palatável, mas que não alimentava a alma. Por isso adiei o preparo até ter todos os ingredientes e a necessidade de recalibração interna maior do que o cansaço.
E enquanto massageava as raspas de laranja no açúcar para absorver os óleos essenciais, senti meu corpo relaxar completamente, imerso nesse gesto simples. E reverentemente misturei a manteiga em ponto de pomada, e algumas colheres de azeite de oliva, para incorporar de vez o perfume à receita. Minha mente relaxada, como de costume, arborecia. Desta vez sobre a importância do processo enquanto as mãos lentamente homogeneizavam a massa, dourada pela adição de ovos. Foi um processo lindo de composição cuidadosa, alternando os ingredientes secos e o café recém coado aos poucos, para o calor aprofundar a cor do chocolate e não desestruturar a massa.
O Território de Luta: Hardware vs. Software
Por um momento, na imersão deste processo, a exaustão do meu corpo pareceu ceder completamente. E enquanto o bolo assava, limpei a geladeira e me mantive na cozinha, vigilante. Infelizmente, depois desse pensamento arborescente balançar suavemente à brisa da ritualistica culinária por cerca de uma hora, o bem-estar momentâneo deu lugar à certeza do limite atingido: a enxaqueca.
Esta é a rotina de uma pessoa que não parece autista. O corpo é um território de luta. O corpo é um hardware obsoleto tentando rodar um software de alta tecnologia. Essa tecnologia, esse software, se atualiza constantemente, mas o hardware continua o mesmo, com o agravante do desgaste natural do tempo. A exaustão que não me deixa, no momento que refino este texto — um dia depois de tê-lo gravado em áudio e transcrito enquanto a medicação da enxaqueca fazia efeito, para não esquecer — está se tornando uma nova enxaqueca. O dia será truncado pelos limites físicos; a fatura dos limites que extrapolei. (E tenho este texto e dois roteiros para finalizar hoje, além de uma faxina para concluir).
O Hiperfoco e o Paradoxo da Dignidade
E apesar de ter extrapolado os limites durante a semana, não dei conta dos dois projetos criativos que assumi: o novo e esta já infante newsletter. Mesmo com os textos organizados, não consegui finalizar a análise do segundo poema da semana e escrever a crônica que amarrava os dois — Negação e Veredicto— lindamente. A crônica requeria, além do tempo para a escrita escrita, a releitura de três capítulos de dois livros diferentes. Não foi possível. Lidei com a culpa como pude, provavelmente como um peso extra na sobrecarga de ser presa de um hiperfoco. Criativo, mas ainda assim um hiperfoco, uma consumição.
Meu novo projeto criativo começou há duas semanas. De forma muito intuitiva. E tem fluído naturalmente, como tudo o que se relaciona com escrita e criatividade para mim. Pois é, você está lendo um texto de uma pessoa autista e medicada, não espere falsa modéstia e meias palavras. Mas, embora algumas características da neurodivergência sejam tratadas como superpoder, nossa biologia não foi planejada nos quadrinhos. E eu preciso falar do desespero de ser fisgada por um processo criativo: eu fui arrebatada pela beleza das imagens que criei acidentalmente para o projeto e me embrenhei na empreitada de fazer um vídeo animado, minimamente coerente, usando IA, de 22 minutos, em apenas dois ou três dias. E claro, houve todo um fluxo de trabalho ainda em fase de ajustes, que foi comprometido por outras decisões que tomei. Sem poder retroceder, lidei com a lerdeza de um software sobrecarregado como eu e a minha própria pressa, pautada pelos prazos. Abri mão de cumprir alguns, não como escolha, mas como imposição de uma coerção neurológica que me prende no objetivo.
A luta que travo hoje com este corpo combalido se estendeu pela semana, entre enxaquecas incpacitantes e expedientes noite afora. O balanço final escancarou um paradoxo: existe uma disparidade muito grande entre a minha capacidade intelectual e a minha capacidade financeira; entre a minha condição de sobrevivência e a minha capacidade de produzir conhecimento — ou entretenimento, alimento para a alma. A poesia, que traz o simbólico e a autocriação, não tem resultado em uma vida digna. Deixarei de fazer isso? Óbvio que não. Como eu existiria sem ser Oryanna Borges, a poeta? Mas sinto que preciso abrir mais esse fosso entre a pessoa que eu aparento e a pessoa que vivencio aqui dentro, para você leitor.
Greybor Manifesto: Da Imaginação à Materialidade
Cansei de tentar caber no mundo. Se ele não foi feito para mim, vou criar um que seja — na materialidade, não apenas nos recônditos da imaginação. Meu corpo precisa de abrigo, conforto, medicação, solitude e as condições de pagar o preço alto dos deliverys de hortifruti, quando eu precisar ficar dois meses em casa, reservando energia para o meu laboratório criativo. Tudo o que me importa está aqui: dar sentido, significado, vida e materialidade às minhas histórias.
Por isso, iníciei o projeto Greybor Manifesta. A principio como um projeto “dark”, anônimo na escuridão da Web, mas intentando ser um farol para aqueles que como estão à deriva. Antes de ser Greybor Manifesta, era apenas um exercício privado de reprogramação metal. Mas eu gosto dos processos e compartilhar minha jornada pareceu uma caminho natural.Tanto que até a animação desta semana, tudo fluia tranquilamente. E mesmo a animação trouxe aprendizados enão arrependimentos.
Greybor manifesta é um canal do Youtube sobre visualização Criativa. Ok, me julguem…se vocês pagam as minhas contas. Se não, me sigam lá no youtube e se permitam surpreender por um lado meu que ainda não manifestou o ouro nos quilates que o mundo valoriza, mas que com certeza materializou o ouro da consciência. E é este ouro, que ofereço, moldado e lapidado pela imaginação e pela minha crença absoluta na autocriação. Na minha percepção o verbo se faz carne, o verbo se faz realidade. E eu me autocriei, de um rascunho mal suprido neurologicamente, para um software sofisticado . Agora é aprimorar o método para a vida fisica ser tão fantastica quanto a i vivida nas dimensões mágicas que a imaginação cria.
Este não é um projeto sobre como ser ‘produtivo’ em um sistema que nos quer descartáveis; é um laboratório de alquimia prática.
Durante anos, caminhei sem um nome que me ancorasse. Hoje, eu sou Oryanna Borges — um nome que oficializei para consolidar a literatura como minha forma primária de existência e resistência. E é nessa assunção que surge Ana Greybor. Se Fernando Pessoa podia reclamar para si um universo de heterônimos, eu reivindico a minha estratégia de sobrevivência. Ana Greybor é a minha racionalidade alquímica, o meu lado que suspeita da sincronia e investiga os deuses. A persona que manifestei quando percebi que a ‘salada mista’ que é o meu cérebro — essa rede caótica e fascinante de conexões entre literatura, religião, neurociência e simbolismo — não precisava ser apenas um refúgio secreto, mas um sistema de aplicação prática. Ana Greybor é a engenheira que traduz a minha intuição poética em métodos de auto-criação. O Greybor Manifesta é a minha recusa final em ser uma fraude ou uma faquir; é o espaço onde a imaginação deixa de ser refúgio para se tornar estratégia de sobrevivência. Não se preocupe, não vou vender curso. Só espero que o adsense do youtube remunere melhor minha escrita do que você, leitor. Não se ofenda. Mas não espere desculpas. Acredite, eu valorizo você aqui. Mas seria mais fácil se você entendesse que esse não é meu trabalho, meu sustento de corpo e alma. Eu deixo você navegar na nave assombrosa do templo que é meu corpo, e nem cobro o dìzimo. Mas deveria. Pois nem as igrejas funcionam sem as oferendas.
Sou grata por sua vinda e se atenção. Mas eu preciso pagar a conta de luz do templo. Então para vabilizar seu livre trânsito e a colaboração voluntária deste templo Greybor Manifesta vai evocar uma egrégora ao canalizar meus saberes e uma reticente espiritualidade driblada com criatividade.
Comunicado sobre o novo fluxo de postagens
A partir de agora, para organizar melhor o meu processo criativo e garantir que a leitura de vocês seja uma experiência imersiva e coerente, estamos mudando o calendário do Mistifório:
Terças e Quintas (07:00 da manhã): Publicação dos poemas da semana.
Domingos (20:00): Publicação da crônica/artigo analítico.
Por que essa mudança? Criativamente, a crônica funciona como o ponto de amarração que dá sentido aos poemas publicados durante a semana. Agendar a crônica para o domingo à noite permite que vocês encerrem o ciclo semanal com um texto denso e reflexivo, preparando-se com calma para o que vem pela frente. Para organizar essa transição, nesta semana, farei o seguinte: republicarei o poema “Engano” (que saiu com erro na semana passada) na segunda-feira, postarei “Veredito” na quinta-feira e, no domingo, entregarei a crônica que amarra ambos. Assim, alinhamos o fluxo de trabalho com a profundidade que o projeto exige.


