Teu Olhar: Da Desregulação à Limerência
Na arquitetura do restauro o facho de luz do naufrágio se transforma no abraço silencioso que organiza o caos interno.

Teu olhar ...é a noite. Imersa na escuridão fecunda marchetada por tímidos raios cor de prata. A escuridão de teus olhos em mim afunda e a luz argêntea, nos meus olhos refrata. É magia essa filigrana sobrenatural reescrevendo o amor no coração poente. E o verso que é interdito é o único portal para ser sem que a vida me desoriente. Quando prende o meu, teu olhar oferta o cioso abraço de uma escuridão amiga, e percebo estar rendida e descoberta pelo mesmo negro manto que me abriga. Embora o susto e a perplexidade, não nego que o quanto te conheço, tanto mais avanço. E só encontro conforto, paz e aconchego quando absorta no teu olhar manso.
Do Farol ao Abrigo: Uma Reflexão sobre o Restauro
Este poema, pensado para postagem esta semana e intuitivamente substituído por Naufrágio, não poderia deixar de estar aqui, logo a seguir. Há um encadeamento lógico que a intuição abarcou antes que eu percebesse: enquanto o que lemos hoje fala de um acolhimento manso e de uma “escuridão amiga”, o poema Naufrágio, trazia uma energia de sobrevivência.
O olhar que era o facho do farol na tempestade, torna-se abrigo e restauro. Teu olhar é meditativo e evoca o êxtase religioso — numa entrega que remete à transcendência barroca — mais do que a conexão erótica. A conexão entre esses dois poemas reitera a proposição de um objeto limerente como instrumento de autorregulação. Assim, a “traquitana de sobrevivência” que Naufrágio desenha é uma ficção de amor cuja função regulatória se consolida em Teu Olhar.
A Gênese: Versão Original (Caderno de Adolescência)
É importante ressaltar que este poema está na sua segunda vida. Ele foi retrabalhado para entrar em Abyssalia (que está sendo impresso por estes dias). A versão original, vinda diretamente dos cadernos da minha adolescência, preserva o frescor do primeiro encontro com essa escuridão que inunda:
Teu Olhar
é como a noite imersa na escuridão profunda
banhada por tímidos raios cor de prata
uma escuridão tão densa que me inunda
e salienta a luz que dos mesmos olhos brota.
Encanta essa luz tão própria, natural
como o esplendor e o mistério de um sol poente
essa luz que anuncia um místico portal
para a singela voluptuosidade do oriente.
Quando prende meu olhar, teu olhar me oferta
o silencioso abraço de uma escuridão amiga
e eu sinto minha alma rendida e descoberta
pelo mesmo negro manto que me abriga.
Embora ainda assustada, a mim não nego
que o quanto te conheço tanto não avanço,
e só encontro, conforto, proteção e aconchego
quando estou absurda no teu olhar manso.

