TEA Menina: O Feiticeiro Mestiço que retornou do inferno
O Capítulo 16 de TEA Menina, para você leitor que acompanha essa jornada sobre o neurodivergência e a violência estrutural que atravessa vida mulher autista.

16. O curandeiro mestiço
É evidente que há alguns padrões nos arranca-rabos e plot twists dessa história, ainda que o mosaico da memória não permita uma fluência linear. E isso não está especificamente na característica predatória dos homens que aqui se insinuam e se esgueiram pelo desamparo das meninas. O padrão mais estarrecedor é o de que há meninas de uma mesma família expostas a esses predadores e até mesmo entregues de bom grado a eles. O outro, que a mim já não consterna, mas que algumas mentes arraigadas a certos princípios custarão a ver — e quando essa possibilidade lhes for apontada dirão: “Tem algo errado aqui. Maria não abandona seus filhos” —, deixando escapar à percepção o fato de que se trata de filhas. Essa Maria nunca abandonou seu filho. Mas as regras que ela aprendeu e reproduziu sobre as filhas são outras. E são rígidas como ela própria.
Essa Maria não é uma Maria como outra qualquer. Em vez do filho, ela é a mártir a carregar uma cruz sempre renovada pelas pessoas que não seguem à risca sua concepção austera de funcionamento do mundo. Ela padece as dores do casamento e da maternidade, e sofre sempre mais do que qualquer um que tenha ofendido ou abandonado durante seu calvário. E é assim, nesse papel, que ela vira o jogo quando confrontada ou ameaçada.
Maria pouco fala da sua própria mãe, e a história sempre repetida é que Dona Generosa — Osa, como era chamada — morreu aos 44 anos no meio da noite, após um grito agoniado. Quando Izaltino, o marido, achou o isqueiro para acender a lamparina, já não havia nada a fazer. Descrita por Maria como uma mulher muito calma, silenciosa e dedicada aos afazeres domésticos, a falta de entusiasmo na voz faz parecer que sua morte foi o momento mais marcante de sua vida. “Em comparação ao pai”, diz Maria, “ela não deixou nada. Ele sim, sentava-se com os filhos, ensinava, educava.” E é na relação com essa figura paterna, visivelmente admirada, que Maria se revela.
Izaltino é um típico brasileiro do início do século XX, filho de um homem moreno de olhos verdes de procedência uruguaia — que alguns familiares insistem ser de origem italiana — e de uma indígena que dizem ter sido “caçada no mato”: Gerônimo e Ana. A genealogia controversa evoca, além da ancestralidade indígena, raízes africanas e talvez ciganas, não só pela cor, mas pelas práticas religiosas e pela cartomancia, um “dom” de todos os membros masculinos da família de Gerônimo. E ainda há uma aura mística em Izaltino, cujos dons de cura foram atribuídos ao fato de ele ter estado “morto” por 14 dias, período no qual disse ter ido ao inferno, onde aprendeu muitas coisas, inclusive a arte da cura. Antes de morrer, ou entrar em um estado de coma ou catalepsia, ele esteve doente por cerca de 40 dias, justamente os primeiros 40 dias de vida de Maria. Quando, no décimo quarto dia de sua “morte”, decidiram banhá-lo e preparar o corpo para o enterro, ele acordou com um grito, similar ao de Osa na hora da sua morte, anos mais tarde.
Ter adoecido logo que Maria nasceu e retornado à vida no fim do puerpério de Osa é mais um dado alçado à sobrenaturalidade do acontecido, depois do qual ele se tornou um conhecido curandeiro a dedicar seu tempo e bens para atender e alimentar pessoas que vinham de muito longe para receber a sua dádiva na forma de benzimentos e remédios naturais que não se sabe onde aprendeu a fazer. Maria tinha sete anos quando ele parou de realizar essas curas, pois o numeroso público exigia todo o seu tempo e dinheiro, e ele disse estar em posição de escolher entre atender essas pessoas e deixar seus filhos passarem fome, ou encerrar tudo e cuidar de sua família.
Maria era a quinta de 13 filhos e claramente desenvolveu um vínculo especial com o pai, o qual muitas vezes acompanhava quando visita os doentes. E, mesmo assim, ela se descreve como uma criança nervosa, brava e tímida, que se escondia não só dos doentes como dos parentes, quando estes chegavam. No entanto, quando sua irmã adotiva Maria da Luz se casou, xingava o homem que levou “Dalóiz” embora, e ele achava graça em provocá-la. Seu temperamento era creditado ao leite de Osa, uma mãe com nervos em flor pela condição do marido doente. Maria também era muito inteligente e decidida, e certamente observadora. E, especialmente, tinha uma firmeza de caráter que a tornava temida pelos irmãos e respeitada pelo pai. Seu senso de certo e errado recebia crédito do pai, especialmente quando, com o casamento de Trindade, a irmã mais velha, ela se tornou o braço direito da mãe. Quando Osa esteve acamada por um longo período após o nascimento do caçula Roque, ela tornou-se uma figura de autoridade dentro de casa.
Maria era uma mulher brilhante e certamente teve mais respeito do que a maioria das moças em sua época. Por isso, quando o pai quis que se casasse com um homem cuja pele era mais escura do que a sua, ela recusou-se. Aos 18 anos, Maria já estava a ponto de ficar para “titia” de acordo com os padrões da época e tratou de achar para si um par mais adequado. E, apesar de permitir o namoro com o escolhido, o pai foi contra o casamento e se recusou a vestir a noiva e preparar a festa. Maria orgulha-se de ter dito ao pai:
— Pois se o senhor acha que eu vou fugir, está muito enganado. Se o senhor não quiser me aprontar para o casamento, me dê um pedaço de terra que eu mesma planto o feijão, colho e vendo para comprar o tecido para o vestido.
Nesse conto que envolve feijões, Maria casou-se com João, tocador de gaita nos bailes da região, que trocou seu acordeão pela terra da qual alimentaria sua família. A versão do feijão nunca mudou, mas a versão do homem de pele mais escura que a dela, que antecedeu seu João no rol de seus amores, inverteu-se nos últimos tempos: ela passou a gostar dele e foi proibida pelo pai. A firmeza de caráter que ela revela na história do casamento nunca impediu que ela alterasse as narrativas quando fosse conveniente, o que torna impossível saber qual versão é verdadeira. E, apesar de ser uma mulher de pele escura, ela sempre se considerou branca, e mesmo sua cor ela credita à hepatite B que teve aos 23 anos. Teria o médico, depois de uma convalescença prolongada, informado à família que ela estava bem, mas a cor da pele nunca mais seria a mesma. Não encontrei nada na história da medicina que creditasse à hepatite esse poder de mudar o tom de pele em definitivo, e especialmente para o preto. Talvez uma explicação temporária para uma cor mais escura e algum Melasma tenha se tornado uma expressão da verdade permanente para ela.
Seu preconceito em relação à cor e sua crença na própria brancura é tal que seu primeiro neto foi rejeitado, assim como o seu primeiro genro Miro, ambos sempre relacionados à sujidade, ao lado de Lena, a filha que teve essa ousadia de se juntar a um preto e parir outro. Óbvio que nada foi dito com essa violência. Curiosamente, Rafael, o neto, ostenta a cor da pele do pai e os cabelos lisos da avó, ainda que ambos seus pais tenham cabelos crespos em diferentes curvaturas. A crença de dona Maria em ser branca é tão certa e reiterada que me surpreendi ao constatar em fotos antigas que seu irmão, guarda-noturno que dormia o dia todo e só saía à rua de chapéu, sentado lado a lado com Miro, tinha exatamente a mesma cor.
Esse preconceito arrefeceu lentamente com o passar dos anos. E Lena contribuiu parindo uma neta 16 anos depois do primeiro filho, quando dona Maria encarava o ninho vazio. Ela acolheu a neta com mais afeto e louvor aos seus cabelos lisos, pois de sua ascendência indígena existe certo orgulho. Maria de fato não balança os estandartes de uma branquitude eugenista. Parece mais uma criatura burilada em um tempo no qual ser preto era ainda mais difícil do que hoje em dia, e repete sistematicamente as crenças que lhe foram incutidas. As raízes místicas da religiosidade de meu avô, praticada de forma velada ou sincretizada, evidenciam que a necessidade de se imiscuir aos costumes brancos, parecer branco e embranquecer os filhos era um dado veladamente cultivado na família. E
Não é possível afirmar com certeza que o racismo de seu tempo foi o que deu início à necessidade de Maria recriar verdades para esconder uma profunda vergonha ou uma verdade desagradável. Demorei muito a perceber essa autopercepção dela em relação à própria cor. Seu João sempre fez piadas racistas nas quais dona Maria era objeto da troça. Certa ocasião, por exemplo, fiz um café, e ela, que não tomava por ordens médicas desde que eu era criança, pediu uma xícara. E de café puro. Ele riu e advertiu que, se ela tomasse o café puro, ficaria preta. Antes que eu assimilasse esse espanto, Jo, com todo o charme escorrendo da voz, disse:
— Mas então vai ficar negona, porque preta ela já é.
Todos riram, menos Maria, que lembrou com voz magoada de um acontecimento vexatório no qual o pastor a usou como exemplo de peles escuras mais resistentes ao câncer.
— Um absurdo! A mulher dele é muito mais escura do que eu. Por que não usou ela de exemplo?
A brincadeira certamente mexeu em uma dor. E esse ocorrido me levou a outro no qual eu fui a piada em um momento aleatório em que falávamos sobre as muitas facetas de nossa mãe. Jo, no meio do assunto, falou:
— Você lembra quando a gente era criança e a mãe decidia sair para resolver algo “na cidade” e, se visse um preto na esquina, ela entendia como sinal de azar e voltava para casa?
Em minha cabeça só havia um preto vinculado à ideia de azar e questionei:
— Sério, um gato?!
A surpresa em minha voz devia-se ao fato de não ver dona Maria como uma mulher supersticiosa. Jo riu e respondeu:
— Não. Um preto.
E eu, ainda mais surpresa com o riso e a ênfase, me repeti, arrancando dela gargalhadas. Nunca me ocorreu que minha mãe pudesse ser racista, quando era de meu pai que ouvia as piadas. Não que eu seja de todo inocente. Como uma pessoa de aparência branca, provavelmente incorro em erros grosseiros de conduta racial. Porém, nunca tive, por exemplo, a marca que a diferença de cor deixa em pessoas como Jo, a filha morena de cabelos cacheados e olhos castanhos em uma prole branca de olhos claros e cabelos loiros, pelo menos em alguma parte da vida.
No caso de Maria, pude ver seus breves relatos do passado com outros olhos, como um fato protagonizado por Seu João, quando Ika, a única da família com olhos azuis — os demais têm olhos verdes — foi carregada por ele em uma viagem de visita aos seus pais. Mesmo nunca tendo sido afeito aos cuidados com os filhos, segundo dona Maria, carregou e cuidou dela visando ostentar a bebê de olhos azuis e penugem loira na cabeça para seu pai de ascendência alemã, como quem ostenta um troféu. Maria não incute um tom que me permita deduzir seu real sentimento a respeito, apenas repete a história como se fosse uma constatação do orgulho paterno.
Mas talvez não seja uma questão de cor o que fez Maria se livrar das filhas sempre tão jovens. Ela parece muito vaidosa de seu caráter e de sua autoridade. Talvez o afeto do pai tenha lhe dado uma impressão de autonomia que a vida lhe negou, justamente pelo fato de ela também ser mulher. O casamento com um homem da sua idade a colocou em uma posição de obediência ao marido. Contudo, esse marido nunca se equiparou a seu pai em autoridade. O temperamento dele se assemelha mais ao de sua mãe, Osa. Seu João é um homem calmo, inteligente, mas de raciocínio e ação lentas. O oposto de Maria, que na posição de mulher se deparou com mais desafios do que supunha em um casamento. Entre eles, a pobreza e a subserviência de sua mente sagaz a um homem, para seus padrões, lerdo. Ou melhor, a um casamento. Seu compromisso era com o casamento e tudo o que ele sancionava socialmente.
Meu pai não parece ter sido muito bom nos negócios boa parte da vida. Ou talvez ele tenha sido vítima da ideia de progresso que a cidade grande representava na década de 70. Os primeiros anos de casamento no interior do Paraná revelam muita escassez e sofrimento na zona rural, quando a saúde dos filhos requisitava recursos não só médicos como financeiros. Se a vida no campo lhes dava autonomia alimentar, ela não necessariamente significava dinheiro. Em algum ponto, a terra à qual se dava pouco valor, a ponto de se poder comprá-la a preço de um acordeão usado, perdeu-se. E, em 1970, Lena, a segunda filha do casal, ainda bebê, adoeceu. Sempre com uma saúde muito frágil, a menina esteve à beira da morte mais de uma vez. E foi em um de seus internamentos que seu João resgata uma história que bem ilustra a precariedade de sua situação. Sem dinheiro para pagar o hospital em uma época sem SUS ele precisava pagar o sindicato dos trabalhadores rurais para que este arcasse com metade das despesas. Mas só tinha uma parte do valor da taxa quando chegou ao sindicato.
A vida, às vezes, não é sutil em apresentar oportunidades de resolução, e desta vez a oportunidade se chamava Antônio Sutil, um conhecido que encontrou na cidade e que, ao ver um fazendeiro da região entrar em um restaurante, sugeriu que fossem cumprimentá-lo na expectativa de que o velho lhes pagasse o almoço. O fazendeiro era parente de sua mulher, de modo que essa gentileza de fato era possível. Isto feito E assim, ambos entraram no restaurante onde o fazendeiro mandou servirem aos dois o mesmo que ele consumiria: um “sortido” e um copo de vinho. Alimentado, Antônio Sutil saiu apressado e deu a seu João a oportunidade de pedir ao fazendeiro um empréstimo. Compadecido da situação do rapaz de pouco mais de vinte anos, ele deu uma quantia maior do que a solicitada e o eximiu da dívida. Com o valor que sobrou da taxa sindical, seu João pôde colocar comida na mesa, o que também já não havia mais.
A saúde de Lena foi tão precária durante seus primeiros anos de vida que até mesmo poliomielite ela contraiu, apesar de não apresentar graves sequelas, tendo ficado apenas com um andar suavemente arrastado em uma das pernas. Os cuidados com sua saúde fariam o papel de um contraceptivo natural em uma cultura na qual os sintéticos não estavam disponíveis. O longo período sem mais rebentos seria findado sete anos depois do nascimento de Lena, quando Maria deu à luz Ika, a branquela de olhos azuis que nunca perdeu o loiro acinzentado de seus cabelos. Ika trouxe orgulho, saúde e certamente algumas alegrias, que três anos depois eu não traria. Pouco se fala do nascimento de Ika, sendo a única história aquela de sua viagem ainda bebê, nos braços do pai orgulhoso. Já a história do meu nascimento sempre foi bem conhecida.
Em 1978, seu João foi para Foz do Iguaçu trabalhar com seu irmão José na construção das vilas que abrigariam os funcionários da Itaipu Binacional durante a construção da hidrelétrica. Isso deixaria dona Maria sozinha por quatro meses na cidade de Três Barras, com três filhos pequenos, sofrendo a humilhação de ter até o leite negado para seus filhos, pois a dona das vacas não via motivo para vender fiado quando podia vender à vista para outros fregueses. Ela se tornou lavadeira para sobreviver e se preparou para se tornar uma mulher abandonada. Como se não bastasse o tormento de ver suas expectativas de vida frustradas e ainda enfrentar o destino que seu pai prognosticara para ela quando decidiu se casar com esse homem em particular, Maria descobriu-se grávida. Na recontação dessa fase de sua vida, ela sempre repetia:
— A gente era tão boba que estava grávida e nem sabia.
Ao infortúnio de uma mulher abandonada com três filhos, ela previa agregar o falatório a respeito de sua barriga crescendo sem um marido por perto. E mais: temia que, se ele voltasse, não acreditasse que o filho era seu. Em uma época sem meios de comunicação eficientes e sem o hábito de escrever cartas, ela se preparava para o pior em qualquer circunstância. Como uma mulher apegada às aparências e preocupada com o que os outros iriam pensar, sua vida nos primeiros dias de minha existência pode ser apropriadamente nominada de inferno. Eu só compreenderia o peso dessa história por volta dos 17 anos, quando pedisse para ela ler meus poemas e um em particular lhe chamasse a atenção:
Senhora
Teu ventre me acolheu e me nutriu
De emoções e forças antagônicas
E no teu ventre se formou o estranho elo
Que me ensinou a amar
Amar sem ser amada
Amar e perder
Amor como anestésico
E tomar do remédio errado
Este mesmo elo me ensinou a cair
(Andar eu aprenderia de qualquer jeito)
Cair sob o peso da decepção
Cair sob o peso das palavras
Cair sob o peso do teu olhar
Cair na incerteza dos passos
Cair para sempre me levantar sozinha
Através deste elo também
Aprendi sobre justiça
Sem código de honra
Por isso, cega
E então aprendi a lutar
Porque morrer na batalha dignifica
E nossos demônios
Precisam de propósito
E nosso anjo precisa de trabalho
E só lutando se aprende
Sobre volume e espessura
A espessura da lâmina que nos fere
E o volume correspondente
A cada mágoa que carregamos
E veja, aprendi até sobre filosofia
Pois Deus faz poesia por linhas tortas
Com invejável perfeição
Talvez para meu aprendizado deste-me a dor
E semeaste em meu espírito sabedoria
Ateando fogo na tocha do conhecimento
Para em minha alma criar
O dom divino do perdão
E a maldição humana da saudade.
A oitiva da história de meu nascimento, com o retorno de meu pai e a mudança da família para Foz, onde eu nasceria alguns meses depois, estava presente na ossatura desses versos. Porém, jamais me ocorreu insinuar o que ela compreendeu ao ler. Dona Maria irrompeu do quarto com meu caderno na mão e o olhar de águia prestes a arrebatar uma presa desavisada:
— Eu nunca tentei te abortar! — esbravejou.
A violência do surgimento e de suas feições deformadas por uma revolta íntima que não deveria ter sido desvelada me deixaram sem ação. Não neguei ter cogitado isso, até porque acabara de cogitar, e meu pensamento se digladiava em diversas direções, em uma velocidade que eu era incapaz de expressar, como nos sonhos nos quais a comunicação se dá por ideias complexas e imagens. Era extremamente verossímil que a mulher que já tinha três filhos e se acreditava abandonada cogitasse o aborto em nome da sobrevivência dos três já existentes, caso o abandono se concretizasse. E, para endossar minhas suspeitas, ela sempre foi uma grande conhecedora de ervas e poções naturais; afinal, era filha de um curandeiro mestiço e neta de uma indígena “caçada no mato”.
O possível desfecho violento parece uma dramatização exagerada de uma mente perturbada pelo sofrimento, mas, na verdade, essa possibilidade apoiava-se em parte no comportamento de meu pai, bem como de sua família. O motivo de seu Izaltino ter sido contra o casamento deles devia-se ao fato de meu pai proceder de uma família desestruturada. Embora meus avós paternos fossem casados e assim tenham permanecido até o fim da vida, os filhos não recebiam educação, proteção e respeito. Meu pai, aos dez anos, vivia pelos alojamentos das fazendas e sítios da região, trabalhando muitas vezes por comida. Sua mãe, Ermelinda, era mais submissa e silenciosa do que Osa. Maria conta que, em uma temporada passada com os sogros, questionou dona Ermelinda sobre o motivo de ela e do marido não se falarem, pois ela não podia conceber um casamento sem diálogo. Dona Ermelinda argumentou que toda vez que falou levou patada e recebeu ordem para calar, então decidiu não dizer mais nada.
É impossível saber se a voz silenciada foi predecessora ou decorrente da completa inação de dona Ermelinda, que não conseguia estabelecer uma ordem ou rotina para sua família. Era comum seus numerosos filhos dormirem sujos e com fome. As crianças famintas, se chegassem em uma casa que tivesse comida sendo preparada, só iam embora depois de alimentadas, como bons pedintes. Os meninos, especialmente, desapareciam sem hora para voltar, e quem chegasse primeiro comia a refeição pobre até se fartar, sem se preocupar com os demais ou mesmo com a mãe. Um hábito herdado do próprio pai que, eventualmente, esperava os filhos dormirem, alimentados com polenta e leite se tivessem sorte, para matar uma galinha e comer sozinho. O patriarca também costumava receber o salário dos filhos que, ainda pequenos, se desgastavam nas terras vizinhas enquanto ele esperava em casa, tranquilo. Esse era um cenário de horror para Maria, uma mulher apegada à rotina, à limpeza e à ordem. E mais do que isso, uma mulher acostumada a ser ouvida e respeitada pela maior autoridade da casa, seu pai.
Embora meu pai fosse acostumado ao trabalho árduo, ser o provedor aos 18 anos é uma responsabilidade muito grande para um rapaz que só conheceu a escassez e a brutalidade. E assim, entre os fragmentos de memória de Maria, está sua ação contumaz para moderar a brutalidade do marido, de cujas “botas” disse ter recolhido algumas vezes seu primogênito.
Segundo ela, os dois filhos mais velhos, Borges e Lena, sofreram muito nos primeiros anos de vida. Daí que sua dedicação em silenciar os filhos quando o marido chegava do trabalho poderia ter um senso de proteção somado à sua própria necessidade de ordem e silêncio. Além da brutalidade, ela alega que ele não demonstrava afeto pelos filhos e só teria dado colo e carinho à caçula, nascida quando ele tinha 34 anos. A viagem com Ika, ainda bebê, contradiz a questão do colo, mas não necessariamente do afeto e carinho. De algum modo, sempre acreditei que meu desconforto com manifestações de afeto e toques físicos, ou até mesmo proximidade física, se devia a essas características paternas sempre ressaltadas por dona Maria. Embora o amor dela me faltasse a vida toda, eu acreditava em suas palavras e media minha capacidade de contato humano pela que entendia como a dele. E sua ascendência alemã ratificava isso, em histórias a respeito da frieza e distanciamento emocional dos alemães.
De qualquer modo, não houve violência. Seu João trouxe dinheiro e compreensão consigo e levou a família para Foz do Iguaçu, onde eu nasceria alguns meses depois. Ainda em uma casa alugada e precária, mas com a família reunida. Nos anos seguintes, ele construiria uma casa confortável com sala, cozinha, três quartos, banheiro e varanda, onde minhas primeiras lembranças foram criadas. E sim, sua figura era bastante ausente. Só fixei seu cenho franzido que, emoldurado pela ordem de fazer silêncio quando ele chegasse, interpretei como a de um homem bravo e de pavio curto. O barulho das crianças realmente o incomodava, e o tom raivoso exigindo silêncio seria reconhecido quando a algazarra dos netos perturbasse sua sesta décadas mais tarde.
Essa imagem do homem irascível que não suportava os próprios filhos e não manifestava afeto seria amainada quando ele revelasse que, para garantir o conforto da casa própria e os luxos — para a época — como geladeira e televisão, ele trabalhava cerca de 14 horas por dia como pedreiro. Muitas vezes com os pés inflamados e lacerados por frieiras, decorrentes da umidade das botas de borracha. Nos últimos meses trabalhando na construção da represa de Itaipu, pendurado a grandes alturas, enfrentava diariamente seu próprio pavor, que venceu quando um colega caiu e, como era inevitável, morreu.
Mas antes que esse dia chegasse, Maria teria um período de tranquilidade e fartura, refletido em uma gestação feliz que talvez só se equipare emocionalmente ao nascimento do seu primogênito. Jo é a quarta menina e a quinta de uma prole de seis. Ela sempre viu a história de seu nascimento em casa como uma “pressa de nascer”. Sua visão da espiritualidade a levou a conectar essa pressa uma vontade de vir ao mundo, e no meu demorado e agonizante parto, justamente o oposto. Quando juntas analisamos esses relatos, Jo, uma umbandista, concluiu que, além de eu parecer não querer vir ao mundo, minha mãe não queria que eu nascesse, pois, seu corpo não parecia preparado para o parto, o que lhe acarretou 30 horas de sofrimento. Quando dona Maria relatou que mulheres iam e vinham do quarto da maternidade e ela continuava lá, eu ri lembrando do parto de Rachel em Friends. Mas certamente não foi nada risonho esse embate entre nossos corpos e vontades. Talvez eu soubesse que no útero seria a última vez que me sentiria conectada a alguém. Supondo que absorvesse parte do turbilhão emocional dessa Maria, talvez ainda preferisse o inferno familiar.
O olhar de Maria para mim muitas vezes foi detido, porém distante. Talvez ela reconhecesse um pouco de si. O oposto do olhar para Jo, a quem sempre atribuía sorte e alegria. Mesmo quando as roupas doadas pelo japonês foram usadas como matéria-prima para o bullying de Borges, Maria viu isso como uma prova de que ela nasceu “com a bunda virada para a lua”. A abundância sempre foi parte da vida dela e a escassez da minha. E essa crença foi estabelecida pelas observações de Maria, que me levava ao médico e insistia que devia haver algo errado comigo, sempre apontando as olheiras profundas como dignas de investigação, enquanto Jo era uma expressão de saúde e vitalidade.
Eu não fazia essa comparação na infância. Simplesmente não tinha repertório para tal e me ocupava em processar o tumulto interno e a vontade de escapar do tumulto externo do qual Jo era uma das partes mais barulhentas. A imaginação me levava para longe, mundos similares à Terra do Nunca com navios e castelos repletos de riquezas esperando pela minha exploração. E, depois de ler “A Ilha Perdida” de Maria José Dupré, meu lugar era uma ilha deserta, sozinha, em silêncio.
Foi em algum momento da vida adulta, depois dos meus trinta anos, que comecei a assimilar lentamente a ideia de que a relação de minha mãe com as filhas poderia ter relação direta com a qualidade de suas gestações. Tive a certeza de que, quando ela olhava para mim e insistia que devia haver algo errado, poderia sim haver o medo de sequelas de alguma beberagem abortiva, ou poderia ser apenas uma manifestação inconsciente da rejeição justificada da gestação. E Jo era o oposto; logo, evocava o sentimento oposto. E essa discrepância entre os afetos de Maria se sustenta até hoje. Mesmo Jo tendo seguido caminhos desaprovados por ela em sua sexualidade e sua espiritualidade, ela é a filha admirada e em quem a maior confiança é depositada. Pelo menos essa era uma das possibilidades de interpretação. Há sempre uma margem para dúvida. Se o afeto existe e é verdadeiro, por que esse afeto não impediu que Jo fosse a segunda maior vítima da mãe? E por que ainda assim ela se tornou seu amparo na velhice?


