Sorria, você está sendo Algoritmizada: O Custo da Imaginação
Entre um sonho nítido e a invisibilidade, o dilema de uma escritora autista: como habitar a rede sem se tornar o combustível do algoritmo? Um cotejo entre a potência onírica e a exaustão do real.

O Achado Onírico
Esta noite, fui a diretora de cena da minha própria exaustão. Em um sonho vívido, onde o toque e a cor possuíam uma nitidez que o mundo desperto me nega, caminhei por um bairro desconhecido. No chão, tesouros abandonados: badulaques vários como migalhas de pão… um cinto rose gold enrolado como uma serpente metálica. Não o recolhi. Havia o medo da transmutação — o receio de que o cinto me desse o bote — e a sobriedade de quem sabe que não precisa de mais badulaques.
Eu caminhava pelo canteiro central de uma ampla avenida de grama alta, acompanhada pelo fluxo de pessoas e por uma interlocutora invisível. Foi para ela que expliquei por que voltara para pegar outro intencionalmente ignorado badulaque: é para organizar minhas maquiagens no armário. Examinei o objeto — quadrado, firme, de couro sintético e duro, com um espelho na parte interna da tampa, divisórias. Era prático. Era funcional. Serviria para organizar produtos de uso diário. Produtos que de fato possuo, mas não uso diariamente.
A Esquete da Escritora
De repente, o cenário muda. Estou no “estúdio” da minha mente, elaborando um vídeo vertical. Na legenda: Oryanna Borges, escritora. O sonho constrói o roteiro de uma entrevista fake sobre Abyssalia. É uma esquete cômica. As perguntas escalonam, me colocam na defensiva e desnudam a farsa: a máscara da autora sofisticada cai, revelando a escritora de nicho, reconhecida por poucos pares nos vãos e quebradas dessa terra sem lei que é a internet.
Eu me desmontava de maneira risível até ser interrompida pelo entrevistador — que era, novamente, eu mesma. Minha outra versão, gestora do tempo, sentenciou: — Para. Já deu. Estamos gastando muita imaginação aqui.
A Fábrica que não Silencia
Acordei com o comando ecoando e a certeza amarga de que trabalhei enquanto ansiava descansar. Durmo sob o efeito de medicação; a amitriptilina que tomo para controlar as enxaquecas é o sonífero que me apaga, mas não silencia a fábrica. Eu não teria dormido sem ela, atormentada pela urgência de criar uma presença digital que resolva minha invisibilidade social.
Na última sexta-feira, larguei esse empreendimento pela metade. Percebi que gastara um dia inteiro tentando erguer um “império de influência” e falhei. E que preferia estar escrevendo a ter que parir identidades visuais, thumbnails e toda essa produção infinita que mói o tempo e a energia do meu corpo.
O Cotejo Sangrento
Aqui começa o cotejo sangrento entre os dois mundos. No sonho, eu detenho os meios de produção e a soberania do humor. No despertar, esbarro na Sociedade do Cansaço, que exige a performance ininterrupta. Para escapar da linha da miserabilidade econômica e previdenciária, preciso criar uma presença digital e me tornar uma “eu-presa”. Preciso me vender. Mas qual fração de mim entra no balcão de negócios ?
O mercado do Substack me oferece fórmulas de “zero a mil assinantes”; o do instagram vidas perfeitas e cursos que saram dores…ou ensinam a vender cursos. Minha mente rígida de autista detecta a farsa e trava. Eu não quero ser a comerciante do meu sonho, mas não tenho extamente escolha. E qual máscara é a certa agora? Puxa, eu só queria me livrar das máscaras!
O Reality do Masking
Minha realidade é um organismo hiperflexível lutando contra uma consciência que exige coerência absoluta. Não cabe mais masking neste corpo. E nesse looping interno de ser ou não ser, até a inscrição no BBB — Big Brother Brasil — foi cogitada. Um desejo mirabolante, quase cômico, para resolver a invisibilidade de um salto só. As mudanças de realidade costumam ser abruptas e este salto não é impossível.
A IA, minha interlocutora, trouxe o espaço de um reality show como o espaço de mascaramento 24/7. Eu penso que não tenho mais estrutura para máscaras, que elas não se fixariam mais neste corpo, mas o calor dos holofotes é um alucinógeno desconhecido. Ao imaginar o vídeo da apresentação requerido na inscrição, cogitei me apresentar como “chamariz de treta”. Sou, nesse aspecto, algo desejável para um reality, mas eu representaria com maestria a mulher autista de diagnóstico tardio ou evocaria o mesmo ódio “sem razão aparente” de sempre? Despendi um bom tanto de imaginação nessa esquete, sem chegar a qualquer conclusão.
A Virtualidade como Refúgio e Prisão
Mas voltando ao embate entre essa necessidade da presença virtual para ser escritora e o ser escritora de fato: empreender virtualmente é massacrante. Ter que construir uma persona para poder viver do meu trabalho é a inversão cruel de um mercado que deveria remunerar a qualidade da minha escrita, e não me cobrar para existir nele. E preciso ser honesta: se hoje tenho Abyssalia publicado, é pela credibilidade construída nessas paragens virtuais ao longo de décadas. Sem isso, não teria alcançado uma editora. Portanto, não posso menosprezar o valor das redes, sejam elas virtuais ou não.
Como autista de recursos físicos e monetários restritos, a virtualidade é onde posso navegar com mais tranquilidade. Mas ao alto custo de ser uma “eupresa” querendo ser uma artista. Esse empreendedorismo por sobrevivência é o lado sombrio da autonomia requisitada pela minha neurologia atípica.
O Plot Twist Necessário
O diagnóstico final é de um cotejo doloroso: o sistema quer a minha exaustão; o meu sonho quer a minha preservação. No sonho, eu tive a lucidez de parar para não “gastar imaginação”. Aqui fora, a máquina me diz que a imaginação é combustível infinito para alimentar o algoritmo. E no meio há o meu corpo exausto e desejoso de dançar, ou apenas dormir sem sonhos produtivos.
Qual será o caminho? Ainda não sei. Como será a reviravolta, o plot twist necessário nesse roteiro nada cômico da minha vida? Escolherei a autenticidade ou serei uma máscara plenamente consciente? Eu de fato tenho escolha?
Anos atrás, ao editar um vídeo sobre minha trajetória, um colega disparou: “Mas você não é atriz, né?”. Não intentava sê-lo e achei a observação inoportuna e desnecessária. Mas talvez eu precise atuar como protagonista da minha vida, finalmente. Resta saber quem é essa protagonista: Gerluce, Tia Milena ou “o cara esquisito"?
Por ora, fico com a lição da minha diretora onírica: encerrar a esquete antes que o que reste de mim seja apenas o pó do que eu poderia ter escrito.
Alimente o monstro (ou apenas converse comigo).
Dizem que o algoritmo adora uma seção de comentários movimentada. Então, para a alegria da máquina e o meu descanso mental, que tal deixar sua marca aqui embaixo?


