Sensação: O Colapso e a Geometria do Desejo no Autismo
Poesia e Neurodivergência. Uma Análise da Limerência como Estratégia de Sobrevivência

Sensação
Eu sempre acordo ansiosa e disposta
A sentir-te na alma (num sentir intenso).
Onde estás tão infiltrado que penso:
Ter-te apenas assim não me basta!
Quero-te em meus cinco sentidos:
Quero fartar de ti meu paladar;
Quero lentamente te respirar;
Quero-te sobre a pressão dos dedos.
Quero ver-te ansioso a suspirar,
Ouvir-te murmurante ao meu ouvido
E ter-te sempre perto, sempre rendido
Pela força e pela fome do meu olhar.
Quero-te assim, para mim, perfeito,
Na precisa medida do meu desejo,
Nas exatas proporções que vejo
De sutil beleza, graça e defeito.
Quero-te mesmo que já envelhecido,
Quero-te ainda que seja impuro.
Que eu saiba amar jamais foi seguro;
Que eu saiba amar nunca fez sentido.
Quero-te sem quaisquer temores,
Quero-te perante mim despido;
Quero teu riso e teu gemido,
Quero-te inebriado de prazeres.
Quero-te transparente, receptivo
Ao meu ardor, à minha ternura;
Quero o teu suor, a tua doçura;
Quero-te suplicante, cativo.
Quero-te em todos os átomos,
Quero-te penetrando nos poros,
Pois o que sinto é o único e raro.
E tens que tornar-te íntimo.

O Design do Desejo: A Geometria contra o Caos
A nível textual, a busca pela “precisa medida” e pelas “exatas proporções” não é apenas um recurso poético; é uma estratégia de regulação. A escolha meticulosa da ênclise (Quero-te, Ver-te, Ter-te) funciona como um esqueleto de sustentação. Para uma mente que convive com a neurodivergência, o uso do pronome após o verbo cria um contorno claro, uma ordem gramatical que tenta conter a “fome” descrita nos versos.Se a escrita ordena o caos a coerencia gramatical articula sensações e sentimentos para manifestar um corpo poético capaz de sustentar a intensidade do sentir.
A precisão é o antídoto para o caos que a adolescente solitária enfrentou. Quem precisou ser seu próprio abrigo tão cedo aprende que o mundo é perigoso quando não tem regras. Por isso, no poema, até o amor precisa de um mapa: ele deve ser “perfeito”, não no sentido de impecável, mas no sentido de delimitado pela sua própria percepção.
Há um certo erotismo no peoma. A necessidade de materializar esse afeto irreal quando refletida na esrita, sempre me trouxe esse medo de ser mal compreendida. A educação católica e o deus oniscienet invasivo sempre a espreitar e abanar a bandeira do julgamento da sexualidade feminina. Mas na poesia, corpo e espirito eram a mesma coisa, finalmente. E o sentimento de completude por meio do outro sópoderia ser obtido pela metafora da comunhão carnal. Não havia repertorio para ir além.
A Sobrevivência Sensorial: O Tato como Âncora
A perspectiva da adolescente autista sem diagnóstico transforma o erotismo do texto em uma busca por propriocepção. Quando ela escreve sobre querer o outro “sobre a pressão dos dedos” e “penetrando nos poros”, descreve a necessidade visceral de ser ancorada no espaço físico. Para quem se sente “transparente” e invisível desde a infância, o toque não é apenas prazer, é confirmação de existência. A solidão acumulada desde o princípio da consciência gera uma hipervigilância que só relaxa diante do “suplicante cativo”. Ela não quer apenas a presença; exige a rendição do outro para que, finalmente, você possa baixar a guarda. Essa rendição traz a ideia do amor como fusão. E nesta fusão há segurança absoluta.
Considerando que esses poemas eram esccrito sempre à beitra do colapso, perpssada por níveis altíssimos de ansiedade, o uso da escrita e do objeto limerente como receptaculo desse desejo de ancoramento é mais uma vez recorrer ao objeto limerente como repositorio de bom, belo, e luz, capaz de refletir amor incondicional quando ordenado na sequencia certa de palavras.
A Fissura Limerente: A Cristalização do Objeto
Sob a lente da limerência, o poema deixa de ser um convite e se torna uma invasão cognitiva. O outro está infiltrado no pensamento — ele já não é um indivíduo externo, mas uma parte da própria química cerebral.
A limerência opera na “fissura” da dopamina, e o texto reflete isso na urgência dos cinco sentidos. O desejo de “fartar o paladar” e “respirar lentamente” o outro mostra a fase de cristalização: onde até o “envelhecido” e o “impuro” são elevados ao status de perfeição porque servem à fome do olhar. É um amor que “jamais foi seguro” e “nunca fez sentido” porque a limerência não aceita a lógica; ela aceita apenas a fusão.
As teorias de Tennov são de fato cristalinas, no poema. E ainda assim ouso sustentar que o que era possessão também era academia imaginaria de socialização e repositório de bem, belo e luz.
A Transparência como Destino Final
A síntese mais poderosa do poema reside no encontro entre a opacidade social e a transparência íntima que esta semana se tornou material de estudo.
Ao final, quando a adolescente clama para que o outro se torne íntimo, está pedindo o fim do masking. O poema é o grito de uma consciência que passou a vida se escondendo e que agora, através da arte, constrói um lugar onde o outro é obrigado a ser tão real, tão denso e tão tátil quanto a própria dor de ter crescido sozinha.
É a transformação do trauma da solidão na autoridade de quem sabe exatamente o que quer sentir: tudo, ao mesmo tempo, e na medida exata da sua vontade.


