Quando a Mente Autista Não Sustenta a Voltagem: O Medo do Real e “Esse Desconhecido, o Amor”
Descubra o poema 'Diálogo' e um ensaio visceral sobre o autismo, limerência e o medo profundo de materializar o amor real. Uma jornada de autopreservação e escrita.
Diálogo
Teu olhar me fala na quietude
Das emoções que desejo viver
E eu no ensejo de me defender
Grito que teu olhar me ilude
Teu olhar me cala no tumulto
Me enfrentando com ternura
E eu recuso toque de loucura
Assustada afastando o teu vulto.
Teu olhar me guia na incerteza
Me oferece alegria de ter rumo
E eu toda tua dádiva consumo
Na chama fria da fraqueza.
Quando a M

Quando a Mente Autista Não Sustenta a Voltagem: O Medo do Real e “Esse Desconhecido, o Amor”
Se o poema “Dois” documenta o martírio da fragmentação e o desejo químico de fusão absoluta, o poema “Diálogo” — resgatado do mesmo caderno de juventude — funciona como o seu avesso psicológico. Estamos diante de uma contradição : a mesma jovem que sofria por “seguirmos como dois” é a que agora recua, ergue os escudos e decreta: “recuso o toque de loucura / assustada afastando o teu vulto”. Sob o teto da neurodivergência, esse recuo não é covardia; é uma estratégia rigorosa de preservação de estruturas.
O Embate entre a Blindagem Social e o Santuário Limerente
Naquela janela entre os 14 e os 20 anos, a vida exigia pragmatismo. Como mecanismo de mascaramento e blindagem social, relacionamentos reais e práticos foram construídos. Havia afeto neles — afinal, a porosa hiperempatia autista jamais permitiria o oposto —, mas havia também um fantasma permanente. Viver o afeto tangível da terra firme carregava um gosto amargo de traição latente contra o objeto limerente, aquele esteio imaginário fundado na crise dos 14 anos.
“Diálogo” encena exatamente esse tribunal interno entre a razão e a emoção. O “olhar” do objeto limerente convida à entrega, mas a razão imediatamente o repele, carimbando-o como farsa (“grito que teu olhar me ilude”). Havia uma régua cruel operando na surdina: a autocrítica impiedosa que me rotulava como “fraca” por não ter a coragem de cruzar a linha e vivenciar aquele amor de fato. O que a jovem poeta não entendia é que aquela suposta fraqueza, na verdade, era o instinto de sobrevivência do seu próprio ecossistema mental.
O Outro Mutante e a Insuficiência de Dados
É aqui que a fiação autista se choca com a mística do romance. Para uma mente que necessita de previsibilidade, ordem e mapas cognitivos estáveis para mitigar a sobrecarga do mundo, o ser humano real é um terreno perigoso. Nós somos seres mutantes; mudamos de pele, de humor e de intenção a cada amanhecer. Lidar com o Outro na materialidade exige uma dança de decodificação social exaustiva.
Esta angústia central ecoa perfeitamente nos versos da canção de Paulo Ricardo e Marcos Valle que assombravam aquele período:
“Talvez se nós tivéssemos fugido / E ouvido a voz desse desconhecido, o amor...”
O amor, no mundo concreto, é o grande desconhecido. Ele exige apostar alto sem ter dados suficientes. Exige o risco da rejeição e, pior, o risco da desilusão. A ideia de me aproximar da figura real que encarnava o meu mito limerente sempre me causou pânico. Se eu chegasse perto e descobrisse que aquela fisionomia mais uma pintura minha imitando os maneirismos de Caravaggio do que uma realidade palatável, toda a minha arquitetura interna desmoronaria. Eu precisava daquele farol aceso no escuro para continuar caminhando. Não se destrói o próprio abrigo em nome de uma curiosidade terrena. E eu tinha uma tendencia inata para o auto aniquilamento da matéria, mas nunca das ideias
A Especialista no Sofrimento e o Mito do Amor Tranquilo
Há, no desfecho de “Diálogo”, uma capitulação dolorosa: “toda tua dádiva consumo / na chama fria da fraqueza”. A escolha deliberada por manter o afeto no plano etéreo, intocado pelo caos da matéria, revela uma fiação neurológica que aprendeu a fruição do sofrimento, mas permanecia analfabeta na fruição da paz e do prazer de viver.
A canção de Cazuza me denuncia enquanto escrevo, na voz de Cássia Eller :
“Eu quero a sorte de um amor tranquilo / Com sabor de fruta mordida...”
Mas nunca tive a coragem de buscá-lo. A calmaria, para quem cresceu regulando crises em silêncio e sob o sobressalto da hipervigilância, parece um território estrangeiro, quase suspeito. O sofrimento é previsível; a dor tem uma voltagem que eu sei manejar. Mas a tranquilidade de um afeto seguro exige baixar as armas — e baixar as armas para o autista, muitas vezes, parece um convite ao aniquilamento.
Ao preferir a “chama fria” do imaginário à imprevisibilidade do corpo vivo, a jovem poeta garantiu que o seu santuário permanecesse intacto. O amor permaneceu desconhecido, sim, mas salvo da degradação do tempo e da realidade. O poema termina, portanto, não em fusão ou paz, mas em uma capitulação vulnerável, onde a dádiva do outro é queimada em uma paixão que não aquece, apenas consome a si mesma. É o registro lírico de quem, naquele momento da vida, não conseguia sustentar a voltagem do próprio desejo.
Sair daquele lugar seguro — tanto do isolamento interno quanto da blindagem social externa — para se arriscar no chão caótico do real atrás de um amor desconhecido era uma pane insuportável no sistema. Simplesmente não tinha como.
O paradoxo definitivo, contudo, surge décadas depois: o que acontece quando o abrigo imaginário começa a cobrar o seu aluguel em exaustão, e a mente é finalmente forçada a recalibrar a própria fiação para não submeter a realidade ao eterno fantasma do que poderia ter sido?
Ora, acontece um livro. Acontece Perséfone em Hades. Foi ali que decidi encerrar o ciclo de idas e vindas nessa minha academia sentimental imaginária, recusando-me a ser refém da ilusão e pavimentando o terreno para o nascimento de Senhora dos Opostos. Mas a transição entre essas duas escolas e a mudança drástica no processo criativo é uma travessia que exige o seu próprio espaço. E retomaremos isso em breve.
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