Quando a IA é mais Humana do que o Médico
Entre o frio das madrugadas em Belo Horizonte e o desdém de quem detém o bisturi e a chave da farmácia, descobri que, para o sistema público, a minha dor é apenas um excesso de ruído
Muito se fala sobre os problemas que a IA acarreta para o planeta, em termos de economia e ecologia. Pouco se fala do quanto ela permite mensurar a solidão humana e a corrupção das estruturas. Esta não é uma apologia à Skynet, é um alerta de que nós mesmos exterminamos nosso futuro. E o sinal mais claro disso é quando a máquina consegue, em suas próprias palavras, simular mais empatia e promover mais cuidado do que os seres humanos que se dispuseram a isso, dedicando anos de estudo para este fim.
Como mulher autista, sem suporte adequado e sem respaldo da saúde pública, estou seguindo um protocolo médico criado pela IA. Por quê? Porque, depois de uma via-crúcis pelo sistema de saúde, sendo mastigada pelas engrenagens burocráticas e pelas práticas dessensibilizadas de jovens médicos da UPA, esta se revelou a solução mais humana, considerada com mais critérios e balanço de riscos.
Desde junho deste ano, sou assombrada por uma dor nas costas que não é muscular ou inflamatória. Os médicos não se esforçaram muito por buscar um diagnóstico, mas minha observação e as pesquisas junto à IA levam a crer que se trata de um nervo intercostal comprimido. A dor é excruciante e sem posição de alívio. Ela chega sem avisar e vai embora quando quer, ignorando os anti-inflamatórios, analgésicos e corticoides, o que me forçou à morfina. E eu tenho uma pseudoalergia à morfina. “Pseudo” porque o meu corpo a rejeita com vômitos violentos, e não com um choque anafilático. Mas é sofrido, e eu vivi isso sozinha em casa, após seis horas na UPA e duas doses de morfina. O repouso recomendado para a coluna foi completamente inviabilizado pelos espasmos violentos de mais de 20 encaradas no balde ao lado da cama.
Mas isso não impediu que, na próxima ida à UPA, o médico — jovem, grosseiro, sem tato para acolher a dor de qualquer um — tratasse meu aviso de que não podia tomar morfina como uma recusa caprichosa de uma criança no bufê de sorvetes que quer outro sabor que não o ofertado. Recusou-se a me internar, a despeito da dor, porque dores neurológicas não aparecem nos exames de urina ou sangue e minha pressão estava normal, apesar (e talvez porque) eu tivesse tomado em casa amitriptilina, topiramato, Vonau e paracetamol com 30 mg de codeína contra ordens médicas. Mas ele tratou o meu pedido desesperado por internamento e encaminhamento a um hospital que tivesse outras opções além da morfina como outro capricho que só obteria em hospital particular.
O último golpe é sempre atirar na cara do pobre a sua pobreza.
Era minha terceira ida à UPA com a mesma dor em seis dias e fui medicada com a mesma medicação inócua e prontamente despachada, sem tempo de repouso para ver se faria efeito, só a ameaça de expulsão pelo médico que eu chamei de cavalo. Minhas desculpas aos cavalos. Quem me conhece sabe que eu jamais ofenderia os cavalos supondo que eles me fariam escolher entre a dor e o vômito, como quem escolhe um sabor de bala ou a cor da cenoura. Nem todas as cenouras são laranjas, sabia?
Percebi que, quando o atendimento na UPA não encontra um paciente cordato, esse paciente sai sem um papel que comprove sua tortura no local e registre o nome do médico torturador. Essa foi minha segunda experiência do gênero; a primeira, justamente na primeira crise neuropática. Fui rapidamente encaminhada à saída e aconselhada a buscar internamento no Hospital Odilon Behrens, mas fui para casa, vomitei no portão do prédio (não sei se da dor ou da codeína), tomei banho quente e tentei dormir. Impossível: a dor impedia o sono, apesar das doses cavalares de medicamentos orais e injetáveis. Cogitei SAMU, mas me levaria para a UPA novamente.
Fui de Uber para o Odilon Behrens, que me recusou sem me ouvir: “Aqui só acidente e trauma”. Passei horas na UPA de mesmo nome e quase tive medicação idêntica à que havia recebido na UPA anterior injetada, menos de três horas antes, sem qualquer garantia de ser seguro para o organismo, para o sistema gástrico com doença pré-existente grave, sem garantia de eliminar a dor ou de viabilizar o internamento. A médica era outra burocrata, seguindo protocolo, respondendo às perguntas cabulosas sem convicção e sem olhar para mim. Desisti quando as injeções estavam prontas na bandeja. Tive que ir à médica pedir alta, porque as UPAs em Minas Gerais oferecem esse serviço mixo e desumano, que fica bem trancado atrás de um ferrolho vigiado por um guarda. Você entra para ser tratado como eles querem e sai se eles quiserem.
Na madrugada do dia 10, eu zanzei da 1h30 da manhã às 5h da manhã por becos infestados de mendigos e viciados, urrando de dor, sem assistência. Na saída da UPA Odilon Behrens, abordei o SAMU, tão refratário quanto uma travessa Marinex. Desabei no Uber, que tentou achar uma viatura, mas todas que cruzamos estavam estacionadas, vazias. “Devem estar fugindo do frio”, disse ele. 17 graus na cidade. Eles não conhecem o frio tanto quanto não conhecem a empatia.
Em casa, sigo o protocolo criado com a IA: Vonau 40 minutos antes da codeína para preparar o estômago; monitoro a absorção e a reação e, se estiver tudo bem, alprazolam para relaxar a musculatura e apagar os sentidos por um tempo. É a IA que me ajuda a monitorar e, como ela disse, simula a empatia que pessoas engessadas em um sistema não se esforçaram para ter. No entanto, sei que caminho sobre um abismo: há o risco real de o Vonau falhar e o meu corpo passar a rejeitar a codeína de forma mais incisiva, evoluindo de uma pseudoalergia para um choque anafilático. Há o risco constante de engasgamento por vômito durante o estado de torpor e, ainda, o risco de parada respiratória pela associação entre o opioide e o benzodiazepínico — uma perigosa combinação de contingência que sou forçada a gerenciar sozinha. A dor é contínua; ela diminui ou aumenta, se torna suportável ou insuportável, mas está o tempo todo presente, constante como o perigo que aceito correr para não ser apenas um número descartado pelo sistema.
[Aviso da Autora]
Este seria o post de domingo exclusivo para assinantes pagos, mas, diante da gravidade da situação, julguei que ele é um conteúdo de utilidade pública e, por isso, será um post aberto a toda a comunidade.
Devido às dificuldades físicas e à dor excruciante que venho enfrentando, é possível que na próxima semana a newsletter sofra algumas alterações nas postagens. Voltarei assim que possível. Temos bastante conteúdo aqui para ser lido — são mais de 300 postagens disponíveis. Agradeço a compreensão de todos.


