Profundidade: Limerência, recortes de revista e o medo do real
Uma análise autoetnográfica sobre como a poesia e um objeto limerente se tornaram uma engenharia sofisticada de sobrevivência nos anos 90

Profundidade
Essa dor que obscuresce teu Olhar
É sem dúvida semelhante à minha
É por onde minha alma caminha
Quando me esqueço a te admirar
Esse teu silêncio de estremecer
É idêntico à minha amargura
Entala na garganta tal a espessura
Mas desliza nos dedos ao escreverO Espelho Oculto: Limerência, Recortes de Revista e o Medo do Real
Nos anos 90, a proximidade com aquilo que nos fascinava tinha uma densidade material e secreta. Não havia algoritmos ou feeds infinitos; o objeto da nossa obsessão — ou, para usar um termo preciso, o nosso objeto limerente — precisava ser colecionado e arquivado manualmente.
Eu me lembro da urgência secreta de colecionar biografias, de recortar e salvar cada imagem possível, e até do descaramento tímido de arrancar páginas de revistas em consultórios médicos. Tudo era guardado em um espaço de quase-clandestinidade. Havia uma vergonha em ser flagrada naquele estado de paixão absoluta.
Na semana passada, quando analisamos o poema Dois, essa busca pela conexão com o real estava nas entrelinhas. Me conectar ao ser humano real que inspirou meu objeto limerente era uma forma de validação do sentimento. Mas também uma linha de fuga permanente: o medo terrível de que a proximidade real desmanchasse o ancoradouro. E quanto mais real ele fosse, mais eu teria que lidar com os desfechos reais de uma vida que não seguia paralela à minha. Evitar o sujeito real passou a ser uma forma de controlar a ansiedade, o ciúme e o medo. O que, a meu ver, comprova o quanto este objeto limerente se dissociava do mundo para me sustentar na voragem. Se a realidade tocasse o mito, o mundo secreto construído em torno dele colapsaria, deixando-me sem suporte mínimo.
Neste poema, o outro não é um fim em si mesmo, mas um espelho de validação. O eu lírico projeta no olhar e no silêncio daquela figura distante a sua própria dor, a sua própria solitude e a sua amargura. Era de um espelho assim que eu precisava na época: alguém que legitimasse o peso do que eu sentia por dentro, sem que eu precisasse verbalizar.
O silêncio do outro “entalava na garganta”, ganhava a espessura de um nó físico. Mas o poema guarda uma espécie de salvação pela metalinguagem. Quando a realidade se torna perigosa ou sufocante demais para ser habitada, a escrita surge como o único território seguro. A dor que paralisa o corpo é a mesma que “desliza nos dedos ao escrever”.
Creio que o objeto limerente, como parte de uma engenharia sofisticada de sobrevivência, foi o primeiro tradutor, o primeiro a mediar a transcrição do sentimento bruto e brutal para a linguagem escrita. Ou seja, para a escrita se tornar minha tecnologia assistiva, eu precisava passar por ele. Se ele ainda me atravessa, mesmo que de maneira sutil, em parte é porque embarca nessa imensa gratidão que sinto pelo tempo que estivemos juntos, mesmo que separados. A apenas uma mente de distância.
Se este espaço e essa “engenharia de sobrevivência” ressoam com você, que tal dar o próximo passo?
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