Prece ao Doce Abandono: Limerência, Neurodivergência e o Silêncio Necessário
Uma prece sobre o limite entre o refúgio e a carga emocional. Conheça o diálogo entre a mente neurodivergente e o objeto limerente em busca de autorregulação.

Prece
À noite, levo todo o meu coração numa prece,
Para que aquele anjo que perturba meu sono,
Benevolente, me entregue ao doce abandono
Que revigora o espírito se o desfalece
E se fechem as feridas e se apaguem as marcas;
Que a memória se perca nas brumas do tempo.
Que o silêncio seja cura e necessário alento
Para este coração que de emoção se encharca
Suntuosa Autoficção: O Grito pelo Doce Abandono
A prece é o outro lado da moeda de autorregulação. Para quem vive com uma mente que não para — essa mente neurodivergente que processa, analisa e rumina em tempo integral — o objeto limerente surge primeiro como um anjo. Ele é o ponto de regulação, o lugar onde o mundo finalmente faz sentido e o caos externo silencia. Mas existe uma linha invisível onde o conforto vira carga.
Esse “Anjo que perturba meu sono” é a imagem dele exigindo de mim um processamento que eu já não tenho mais como entregar. É quando a presença se torna essa fricção aflitiva: um estado onde não existe a paz do relaxamento nem o prazer da satisfação; apenas o motor da mente girando no vazio, esquentando, desgastando a alma.
Minha prece é um pedido de trégua. Eu imploro para que esse anjo seja benevolente e me deixe ir. Que ele me entregue ao “doce abandono”, porque, para uma mente como a minha, o sono é o único momento em que eu posso, finalmente, desfalecer para não quebrar. Supostamente, pois às vezes o subconsciente me assalta em sonhos.
Para que as feridas se fechem e as marcas se apaguem, é necessário o silêncio. E o esquecimento projetado abertamente em Perséfone em Hades, escrito mais de 20 anos depois, é requisitado já nos primeiros escritos de Retrato das Sombras. A limerência me faz sentir tudo com uma nitidez que fere. Eu peço que a memória dele perca o contorno, que o hiperfoco se dissolva na névoa e que, por algumas horas, eu não precise ser o receptáculo de tanta intensidade. E sei que, em muitos momentos da vida, esse desejo de silêncio e cura me obrigou a refutar completamente esse reino de fantasia e adentrar o real por meio de relacionamentos que julgava reais, até eles se revelarem tão ficcionais quanto o próprio objeto limerente, me inserindo, assim, em um ciclo que Perséfone em Hades visa desmantelar. Metacognição aplicada à imaginação em suntuosa autoficção.
Agora há silêncio. E aprecio.


