Poema Inpiração e a Limerência como Academia de Sobrevivência
A neurodivergência feminina e o esforço de perseverar no "conatus" de Spinoza através do avatar de luz

Inspiração
A ti, doce Razão da minha força
as minhas maiores alegrias
a melhor concepção da fantasia
e sempre a minha lembrança.
Pois me orienta tua simplicidade,
(abre meu coração para a sabedoria)
me encanto mais contigo a cada dia
através de teus olhos, vejo felicidade.
A tua existência é que me motiva
por ti a própria evolução me dedico
por ti de sonhar, jamais abdico
és a Sublime razão, para que eu viva
é mérito teu se faço da vida arte.
Vem de ti todo saber e inspiração
Por ti busco conhecer com exatidão
toda emoção que minha alma verte.
E é por ti esse delicioso tormento
de não me fartar de sentir amor
e não desistir de transmitir o ardor
que a mim transmite esse sentimento.
A Academia de Socialização e o Avatar de Luz
Em ambientes hostis, onde a neurodivergência é lida como falha e a sensibilidade feminina como ruído, a alma opera uma manobra de guerra: ela retira sua “faísca de amor” de circulação e a deposita em um Objeto Limerente. Esta é a teoria em que venho trabalhando recentemente. Nela, a menina neurodivergente aprende primeiro, no mundo, o seu desvalor. Ao não caber na forma designada pela noção socialmente construída de gênero, ela não senta direito, não fala direito, não existe direito. Ou, no outro extremo, pergunta demais e tem “olhos compridos” e observadores que lambem a cena — parecem despir os atores de seus vernizes e adereços. Essas meninas são expropriadas de si próprias gradativamente. De onde tiro esses dados? Da minha própria experiência, somada à da minha mãe e à de minha irmã, mulheres autistas, meninas vilipendiadas.
Nessa inculcação da desvalia, a mente neurodivergente busca se preservar. Para Baruch Spinoza, este é o conatus: o esforço incessante para perseverar em sua própria existência. Conceito este que Antonio Damásio traduz para a biologia moderna. A homeostase é o mecanismo automatizado do corpo para manter a vida em equilíbrio desde a sua unidade fundamental: a célula. Essa é a base da biologia do sentimento em Damásio para quem a vida não é um estado de repouso, mas uma resistência ativa. O conflito é inerente porque o meio ambiente é, por natureza, indiferente ou hostil à manutenção da vida. O meio externo tende à entropia; o organismo tende à homeostase.
Nesse embate entre caos e ordem, a necessidade de coerência de uma mente autista pende para a ordem. Enquanto a informação e a norma chegam “aos cacos” para a percepção, esta cria mundos e mimetiza recursos naturais do mundo real nesse mundo secreto. É assim que surge um objeto limerente: “emprestado” dos sonhos de amor inculcados na mente feminina desde o berço, mas imbricado nas necessidades mais vitais de sobrevivencia. Por isso, nesse mundo secreto, ele ganha diversas funções: preserva um germe de amor-próprio antes que o condicionamento social de gênero o destrua; preserva a espontaneidade e a curiosidade silenciadas; preserva o bem enquanto a ideia da perfídia é progressivamente instilada na alma suscetível. Como repositório, o objeto limerente se institui interlocutor e doador do amor negado à menina “sem modos”, que não senta direito e faz perguntas inconvenientes. Como símile ao amor platônico, o amor limerente se torna também o protótipo da Academia Imaginária de Socialização que a ficção instaurará para aquela menina autista quando ela atravessar o limiar do registro das emoções pré-conscientes — como eu fiz, caminhando da poesia para a narrativa ficcional.
Esta teoria que venho montando como um quebra-cabeças encontrou no poema Inspiração sua confirmação. E, sim, a palavra é: encontro. Analiso meus poemas da juventude com a mesma surpresa que você, caro leitor. Tenho o olhar estrangeiro da mulher autista recém-diagnosticada que observa, pela primeira vez, a menina autista sem diagnóstico se esbatendo para sobreviver.
Este poema não é uma entrega ao outro, mas a fundação de uma “Academia Imaginária de Socialização”. Ao projetar no objeto limerente os atributos de agência, autonomia e assertividade que o mundo nega, essa menina criou um avatar pedagógico. Adorar esse ídolo é, na verdade, um treinamento rigoroso para reaver a própria luz. A gramática aqui é precisa: o “mérito teu” é o espelhamento que permite o “faço da vida arte”. A limerência deixa de ser um transtorno para se tornar uma tecnologia de preservação. Através desse “delicioso tormento”, ela manteve a chama acesa até que eu pudesse, finalmente, habitar a minha própria força sem precisar de intermediários.
Neste raciocínio, o amor limerente para a mulher autista é só mais um recurso usado em sua máxima potência para viabilizar o masking de alto funcionamento. O “delicioso tormento” de Tennov torna-se a nossa academia de sobrevivência.


