Poema Dissimulado: Sobre Máscaras, Caligrafia e a Performance da Normalidade
Entre o instinto e a civilidade, como construí minha identidade através da escrita e por que escolhi não compactuar com a normatividade

Poema Dissimulado
Devo preservar a doçura
sob esta crosta de modernidade
como se preserva o instinto
sob a crescente civilidade.
Devo resignar-me à cultura
de exalar fremente sensualidade
mesmo que meu olhar faminto
seja ávido de sentimentalidade.
Assim, parecerei semelhante
aonde mais me distingo
e serei mais convincente
quanto mais me vingo.
No arquivo das Sombras
Este poema, menosprezado o bastante para não ser divulgado nas redes, mas significativo o suficiente para ser grampeado em um dos impressos da adolescência intitulado Retrato das Sombras, guarda algumas peculiaridades. Uma delas é a letra cursiva perfeitamente alinhada, que revela todo um esforço de encaixe nas normas do que é esteticamente e formalmente viável; a outra, a dicotomia instinto-civilidade. Embora eu só tenha elaborado formalmente a expressão “talvez eu não tenha sido corretamente socializada na infância” aos 33 anos, eu percebia meus déficits e meus esforços desde antes. Talvez desde sempre, mas, com certeza, claramente nos meus 20 anos.
O “Poema Dissimulado” é uma declaração de masking e um testemunho do peso dessa máscara, distorcida em sua obrigatoriedade como um ato de vingança, como se a consciência plena de exercê-la me desse o poder de controlar o ambiente e as pessoas. E dava. Se eu soubesse colocar em prática o masking como um ato verdadeiro e não apenas literário de vingança, o mundo seria minha ostra, como dizem os americanos. Mas este era mais um dos espetáculos privados, encenado, certamente, para me reerguer do solo sopisado de algum sonho ou alguma simples interação desastrosa.
Nem o ato de vingança, nem o mascaramento cogitado foram efetivos, pois nunca me resignei à cultura ou ao que quer que violasse meu código de conduta ou meu tempo de agência. Na verdade, o processamento retardado tem dessas vantagens: a gente não reage de imediato e perde a deixa de exalar o bafio das máscaras mais venenosas. E parecemos anjos quando engolimos o veneno. Eu ainda parecia um tanto angelical e fui, dose a dose, tornando-me mais e mais visivelmente monstruosa.
A letra, fruto de um esforço consciente de sair do garrancho e adentrar um nível de aceitação estética, revela minhas capacidades adaptativas, no entanto. Se na infância eu admirava as letras redondas e nitidamente femininas, cuja simetria dos arcos nunca fui capaz de replicar, nos meus vinte anos eu assumira a letra do escritor. Eu imitava missivas antigas de célebres escritores, com sua inclinação à direita, um kerning mais estreito e uma estilização pontiaguda. Incisiva e intelectual, esta era a minha forma de parecer, por meio da escrita.
Eu diria que hoje a última estrofe atingiu, certamente, sua realização: tornei-me semelhante e convincente de minha “normalidade”, mas agora eu sei quem eu sou e me vingo escrevendo o que eu sou. Escolho, abertamente, não compactuar com a normatividade tirânica de um mundo que precisa mudar. E escolho, palavra a palavra.
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