Poema Deitado: O paradoxo do canalha e a previsibilidade no autismo
Como a previsibilidade bruta de um "canalha assumido" serviu de âncora para uma mente neurodivergente, enquanto o "bom moço" tentava controlar até os títulos de poemas. Amor e Neurodivergência.

Poema Deitado
Minha pele anseia sua pele.
A solidão interiorizada
é lâmina afiada, cravada.
Minha mente expele mágoas,
doida e doída, blasfema.
Este desejo é um edema,
proveniente da necessidade
de estar mais perto, bem perto,
colada ao seu corpo esguio, moreno.
Mas só seu vulto eu arranho,
neste leito frio e pequeno.
Anatomia de uma paixonite
Este poema, que na minha memória — em alguma encarnação, possivelmente no Orkut ou em alguma reescritura em caderno — já se chamou Poema Deitado, faz parte daquela seara de textos que eu intitulava “Poema X”, “Poema Y”. Isso durou até que uma voz masculina chegou aos meus ouvidos e sentenciou: “Para com esse negócio de Poema X, Poema Y”. E eu parei. Mas ele é mais um dos anexos de um dos volumes de Retrato das Sombras. Como mostra a foto, é da mesma época e tem a mesma caligrafia do Poema Dissimulado. Saiu do mesmo caderno, foi escrito mais ou menos na mesma idade.
Eu lembro dessa idade e lembro da poeta que eu fui. Lembro do sofrimento para criar as minhas identidades, de forjar máscaras sobre a pessoa frágil que eu era e, ao mesmo tempo, das paixonites agudas que eu sofria no mundo real. Eram amores inventados que me massacravam porque todos requeriam uma máscara nova, uma exigência que eu não conseguia sustentar, por mais que tentasse.
O Poema Deitado refere-se especificamente a uma dessas paixonites. Era um colega de trabalho e um dos poucos homens decentes com quem cruzei. Decente porque ele era, basicamente, um canalha assumido. Um dia, esse rapaz me deu carona após um evento da empresa, me colocou no carro e foi direto: “Eu sei o que se passa entre nós. Eu sei dessa atração. Mas é só isso que eu tenho para te oferecer. Eu sou esse canalha, e é isso que eu vou ser para você. É isso que você quer?”. Ele era um beberrão, um mulherengo, um safado, mas sabia o peso que aquilo teria para mim. Por incrível que pareça, foi um dos tratamentos mais dignos que já recebi de um homem. Eu respeito muito aquele beberrão safado. Desci do carro e fui para o meu apartamento.
Algum tempo depois, comecei a namorar o homem que parecia correto, sério, a figura perfeita. Um homem 14 anos mais velho, muito mais complexo e difícil. Ele era o tipo que sussurra no seu ouvido o que você deve ser. O tipo que, na primeira oportunidade, se julga na autoridade de mandar uma escritora parar de nomear seus textos como “Poema X”, sentindo-se dono até da poética do momento. Obviamente, não deu certo. Durou pouco.
Sinto que esse poema é mais do mesmo em termos de falar sobre o autismo. Ele trata de uma profunda solidão, uma solidão que se aprofunda quando você encontra um objeto limerente no qual projetar o seu afeto. Trata de um momento de completa desregulação física e emocional. Hoje, na maturidade, digo com toda a clareza que detesto me apaixonar, porque a paixão desregula qualquer um. Para um autista, essa desregulação é fisicamente perigosa, desesperadora.
O poema era a minha única ferramenta de regulação. Colocar isso em palavras, nomear cada sentimento, mapear aquilo fisiologicamente era a única forma de trazer de volta algum controle. E aquele momento dentro do carro, quando o alvo da minha paixonite nomeou os termos exatos de como se daria a concretização daquilo, foi o instante em que reassumi o controle e a limerência acabou. É uma história muito relevante para mostrar como a limerência funciona para o autista na necessidade de racionalização e regulação desses sentimentos.
Isso me faz pensar nas armadilhas da comunicação e das expectativas sociais. Deixo aqui essa reflexão para vocês: como enxergam esse paradoxo? O ‘canalha assumido’ que, pela clareza bruta, oferece a previsibilidade que acalma e regula o sistema nervoso de uma mente neurodivergente, em contraste com o ‘bom moço’ que usa o verniz das boas maneiras para microgerenciar e podar a verve criativa de uma escritora. Para quem também navega pela neurodivergência ou já teve sua autonomia testada: vocês já perceberam como a clareza das regras — mesmo no pior cenário — é infinitamente mais segura do que o controle disfarçado de virtude? Adoraria conversar sobre isso com vocês nos comentários.
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