Perturbação: Poesia, Limerência e a Perspectiva Neurodivergente
Uma análise profunda sobre o olhar invasivo, a limerência como sobrevivência e a arquitetura da mente neurodivergente.

Perturbação
Como se eu pudesse me despir dos sentimentos
e passar incólume pelo olhar que me absorve,
metaboliza minha essência e me devolve
a uma teia de ilusões e pressentimentos;
quando eles cobrem um vazio que não tem termo
e dão uma certa vivacidade que, mesmo fugidia,
desperta-me ao encanto que a felicidade irradia
de além do horizonte trêmulo do mundo enfermo.
A Invasão Metabólica e o Medo de Ser Transparente
O verso que abre o poema abre minha consciência; é um desejo de pele nua, mas sem a vulnerabilidade da carne. Para quem sente o mundo com a intensidade da neurodivergência, o olhar do outro não é apenas um encontro: é uma invasão metabólica. Isso tem profunda relação com a capacidade de olhar nos olhos e sustentar esse olhar; durante anos, esse foi um exercício apavorante. Havia a certeza de que, através das pupilas, o outro não apenas me via, mas me “metabolizava” — triturava minha essência, descobria meus segredos e me devolvia ao mundo desfigurada, convertida em uma projeção que não me pertencia.
O desejo de “me despir dos sentimentos” é, na verdade, um desejo de esvaziamento dessa confusão de sentir essa metabolização que me quebra em incontáveis moléculas. É a busca por um estado incólume, onde o julgamento ou a percepção alheia não encontrem combustível para me incendiar. É o sonho de ser opaca quando me sinto transparente.
A Limerência como Arquitetura de Sobrevivência
Mas a proteção absoluta tem um preço: o abismo. Se o olhar do outro me devora, a ausência do objeto — desse “Norte” que hoje entendo como limerência — me entrega a um vazio sem fim. É aqui que a “teia de ilusões” se torna vital. É por isso que creio ter sido salva pelo objeto limerente.
Enquanto escrevia sobre a ecolalia poética na análise do poema, assaltava-me a ecolalia musical: “Someone must have sent you here to save my life”. Sei que Save My Life fará parte de minha rotina por dias. Pergunto-me de onde veio o som de sua voz e os versos diretos da canção, como que corroborando minha perspectiva de salvação pretérita. Sim, eu fui salva. E hoje tento me salvar sozinha, sem redes de proteção feitas de teias de ilusões.
O Sagrado Feminino e a Divindade Particular
Outras mulheres neurodivergentes vivem isso, talvez com a mesma complexidade de sentimentos que congregam necessidade de sobrevivência psíquica, culpa e medo do julgamento alheio. Pois, afinal, diferente do objeto limerente masculino que é um espelho (como Sheldon adorando Spock), o objeto limerente feminino parece ser um complemento de alma, gerado em uma fantasia imersiva da qual não queremos fugir. É diferente de colecionar imagens e bonecos de um personagem ficcional; o objeto limerente feminino é uma promessa de amor incondicional e absoluto.
Falamos de uma criação própria. Como divindade particular, é nossa imagem e semelhança. E, ainda assim, olhar para o objeto limerente é como tentar encarar o sol. A intensidade é tamanha que a retina da alma corre o risco de queimar. Por isso, a mente tece pressentimentos, ilusões, metáforas e distâncias poéticas — não por “falsidade”, mas por sobrevivência sensorial e psíquica.
A Retina da Alma
No fim, o poema não é apenas sobre o amor ou a obsessão; é sobre a arquitetura de uma mente que precisa criar beleza para não ser destruída pela própria profundidade.


