O Veredicto do Fogo: Da Incubação ao Tribunal da Fantasia.
Uma análise sobre a transmutação do afeto e a investidura da fantasia através da psicologia alquímica de James Hillman.

Veredicto
Tua presença não proporciona inspiração.
Apenas doce agonia e noites de insônia,
estupor de dúvida e certeza errônea,
medo expansivo e alma febril em retração.
Sequer despertas a verdadeira paixão.
Só incitas a voracidade dos sentidos,
suscitas desejos antes não consentidos,
inventas uns impulsos que calco ao não.
Nenhuma instância do meu conhecimento
Acompanha-te, elege-te ou te reverencia.
És hausto de desejo que ao passar inebria.
E tua constância nas abas do pensamento
não configura oferenda ou alusão à poesia.
És comburente nas labaredas da fantasia.
Do Retrato à Abyssalia: O Resgate do Veredito
Embora este poema componha originalmente a obra Retrato das Sombras e tenha permanecido resguardado sob a penumbra da minha adolescência por décadas, ele sempre se impôs à minha consciência como uma peça de rigor inegável. Sempre tive a clareza de que se tratava de uma criação que desafiava a imaturidade da época com a sua precisão técnica e temática. Por isso, ao realizar a curadoria para o meu primeiro livro, Abyssalia, não houve hesitação: “Veredicto” emergiu das sombras para ocupar seu lugar de direito como um mais densos momentos da obra. Ele é o testemunho de uma ciência intuitiva que já operava na minha juventude e que agora, finalmente, entra em pleno exercício.

O Regime do Fogo: Do Chocar à Calcinação
“Veredicto” é, obviamente, uma sentença. E esta é propalada pelo fogo — o juiz máximo da alquimia que faz James Hillman, em sua Psicologia Alquímica, recorrer a Heráclito para sua investidura. O fogo é o juiz supremo que tudo aproxima, julga e condena. Ao revisitar este soneto, percebo que ele não é apenas um desabafo; é um protocolo de operação térmica onde a minha cognição operacionaliza a desconstrução do objeto de afeto através de quatro estágios de calor descritos na alquimia.
A Incubação e as Cinzas (Versos 1 a 4)
O primeiro quarteto condensa os dois estágios iniciais do fogo alquímico. O “medo expansivo e alma febril em retração” é o que Hillman chama de calor metabólico ou o estágio da “galinha chocando”: uma tepidez interna onde o problema é incubado no silêncio do organismo.
Logo em seguida, a “doce agonia” e o “estupor de dúvida” revelam o ““Calor das Cinzas. É uma temperatura asfixiante, seca, onde não há “ar” (inspiração). O objeto não me faz criar; ele apenas consome o oxigênio da minha mente em uma insônia estática.
O Ferro de Marte (Versos 5 a 8)
No segundo quarteto, a voltagem sobe para o terceiro grau: a Areia Fervente. Este é o fogo que queima a mão e exige uma determinação do artífice. O alquimista, como um artista ou artífice, precisa manusear esse estágio com cuidado.
A “voracidade dos sentidos” e os “impulsos que calco ao não” descrevem o estresse do meu organismo em esforço descomunal para conter um desejo que ameaça derreter a estrutura interna. É o trabalho braçal da consciência, transmutada em um Hefesto menor, tentando dominar o calor. Nesse estágio da analogia, não pude me esquivar da lembrança do sonho que deu origem a três poemas de Perséfone EM Hades : A Boa Morte, Meu Carretel de Sonhos e Macária.
O Protocolo do Fogo e da Ruína: Uma Narrativa Onírica
Eu estava em um lugar alto, embora à minha volta o que parecia ser o Largo da Ordem de Curitiba estivesse transmutado em uma “Cidade Branca”, totalmente caiada. De repente, o contraste absoluto: uma mulher surge vestida com a armadura negra de uma princesa guerreira no estilo Xena, com o rosto oculto por um capacete impenetrável. Ela não carregava uma espada, mas um arco, e começou a disparar flechas para todos os lados.
Buscando um ponto de fuga, olhei para o horizonte. Onde a Rua São Francisco culminaria na Avenida Cândido de Abreu, o asfalto havia sido devorado por uma distância imensurável que me dava a certeza de estar no alto. Muito abaixo da minha planície, que parecia se encerrar no ar, havia uma praia. Na linha dos meus olhos vinha uma onda gigante, que assisti a varrer a praia e elevar aos ares as casas brancas que nem enxergava do meu despenhadeiro.
O Tsunami — a Solutio em sua escala mais devastadora — avançava levantando as casas brancas de dois andares, virando-as do avesso no meio da massa de água. Era a ruína da estrutura doméstica, o fim da “casa” que não podia mais conter a vida. Eu via as pessoas tombarem ao meu redor e, em vez de pânico, uma clareza terrível me atingiu: eu entendi que aquilo era a “boa morte”. Ela as matava rapidamente para que não sofressem o que estava por vir.
Fugi da inundação e da arqueira, aparentemente nas asas do medo, pois, súbito, o cenário branco e iluminado deu lugar a uma estética de poeira e encardido, o mundo pós-apocalíptico das cinzas. Eu seguia os trilhos de um trem acompanhada por um grupo de sobreviventes. Em meus braços, havia um bebê; ele era meu, mas compartilhado. Em um lampejo de lucidez, lembrei-me da série The Walking Dead, mas a história do sonho me puxou de volta: precisávamos chegar ao lugar seguro.
Chegamos a uma porta monumental de ferro. Por dentro, era uma Siderúrgica, um receptáculo de poder e segurança mineral. Lá dentro, um homem de fisionomia séria e decidida cuidava das fornalhas acesas no fogo de fundição. Eu entreguei o bebê a ele com um pesar imenso, mas uma certeza absoluta: ali, naquela estrutura de ferro, ele estaria seguro.
Ao acordar, a sentença estava dada: a vida como eu conhecia havia ruído, mas o essencial estava salvo no fogo. O que eu entregava a esta figura era meu sonho de maternidade. O sonho selou o fim do meu casamento, que incluía casinhas brancas e paisagens idílicas, mas que precisava ruir para que eu sobrevivesse. Assim que abri meus olhos, na dor profunda daquela entrega, disse em voz alta: “As coisas que precisamos matar dentro da gente para continuar sobrevivendo”. Macária é, de certo modo, a encarnação poética daquele bebê.

A Sentença e a Chama Viva (Tercetos Finais)
Voltando a “Veredicto”, no terceto final o processo atinge a Calcinação. Aqui, o fogo deixa de ser algo que eu sofro e passa a ser a ferramenta com a qual eu julgo. E a este fogo eu dei o nome de fantasia.
A auditoria é implacável: “Nenhuma instância do meu conhecimento / Acompanha-te, elege-te ou te reverencia”. O objeto é despido de sua falsa transcendência. Ele não é “oferenda”, não é “poesia”, não é o ouro. Ele é apenas o comburente — o material inflamável necessário para alimentar as labaredas da minha própria transformação.
A Fantasia como Laboratório de Decisão
Muitos acreditam que a fantasia é um refúgio para quem não sabe lidar com a realidade. Para mim, ela é o lugar onde a realidade é acelerada. Enquanto o mundo social processa desencontros lentamente, eu os submeto à fornalha da minha imaginação para extrair, em dias, o veredito que outros levariam anos para compreender — er… ou que neurotípicos levariam segundos, sejamos honestos.
O diagnóstico de “Veredicto” é soberano: o objeto de afeto, simulacro de amor limerente no mundo real, não passou no teste do fogo. Ele foi reduzido a cinzas para que restasse apenas o meu saber essencial. O engano gerou a dúvida; a dúvida abriu a porta da fornalha; o engano foi desfeito.
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