
Eu ex-machina
Te rendeste e choras criança
e palavras medidas desfio
Tua dor tanto me alcança
que me inunda como um rio
Quisera fossem elas o manto
a dissipar de tua alma ou frio
Fossem olhar cheio de encanto
cobrindo te amplo e macio.
O Silêncio Forçado das Vértebras
Escrever sempre foi, para mim, uma tecnologia de regulação. Mas o que acontece quando o suporte físico — esse arco que sustenta a cabeça e as ideias — decide cobrar um pedágio impagável?
Estou atravessando uma fase de dor aguda, uma dor torácica que não aceita negociações, posições de conforto ou paliativos. É uma sensação invasiva, que parece transbordar da coluna para os órgãos internos, transformando o ato de sentar-se diante do computador em um exercício de resistência que, no momento, não posso (e não quero) performar.
Para além do físico, há um cansaço mental que pede o avesso da exposição. O corpo, em sua sabedoria bruta, exige recolhimento. Reclama pelo isolamento, pelo escuro e pelo silêncio — luxos raros em dias de casa cheia e feriados compulsórios.
Este é um aviso breve aos navegantes : as postagens e as interações desta semana serão diferenciadas. Preciso de uma trégua das demandas externas, inclusive das acadêmicas que já não ressoam mais em mim, para focar no que é essencial: recuperar a integridade do meu corpo e o silêncio da minha mente.
Aos que acompanham meus processos e minhas buscas entre a poesia e o abismo, agradeço a paciência. Por ora, minha escrita se volta para dentro. Preciso ser, antes de tudo, meu próprio território de cura.
O poema que compartilho foi feito na adolescência, e chamava-se piedade. Decidi renomeá-lo para Abyssália, pois ele prova que eu produzia meu próprio acolhimento, como o faço agora.
Com afeto (e em busca de silêncio)
Oryanna Borges


