O Príncipe que Era Eu: Limerência, Autismo e a Busca pela Inteireza
Como o poema "Naufrágio" revelou as traquitanas de sobrevivência e a individuação de uma mente em busca de si mesma.

Naufrágio
Quero-te por perto,
Teus olhos iluminando-me nas trevas.
Tua presença é espólio de minhas guerras
sem ter-te
meu tormento é largo e certo.
Sinto-te tão longe.
É tua ausência a companheira mais severa,
pois meu corpo te deseja
E a alma te venera.
Procuro, então, saber por que te escondes.
E vagando na alma,
percebo-te a meu lado.
Eu, de olhos abertos, e a mente divaga
navega sorrateira e em teus olhos naufraga
Estás amor, universalmente a mim.
A Sinapse no Caos: O Reencontro com Naufrágio
Apesar de profundamente cansada devido às grandes mudanças das últimas semanas, eu acordei acreditando que eu iria fazer mais uma vez esse trabalho de postagem como uma obrigação, um compromisso assumido que eu preciso cumprir. Este mesmo cansaço — que me fez esquecer ou não dar conta física e intelectualmente de alguns posts da newsletter — parecia estar levando a melhor novamente. Contudo, ao folhear o meu caderno da adolescência e reler o poema “Naufrágio”, e decidir intempestivamente pela postagem dele (apesar de ter em mente um poema que entrou em Abyssalia chamado “Teu olhar”), uma onda de energia, como uma inesperada sinapse, se fez sentir.
O Objeto Limerente como Tecnologia de Sobrevivência
E se essa leitura de hoje me pareceu, assim, ainda mais uma evidência de que o amor limerente — o objeto limerente que permeou a minha adolescência — era um recurso de sobrevivência sofisticadíssimo que me manteve íntegra, focada, e me deu abrigo e suporte emocional, criando condições de autorregulação quando tudo à minha volta conspirava contra isso, tal ideia se consolidou rapidamente. Uma ideia clara e completa em um mar de exaustão funciona como uma boia salva-vidas.
“Naufrágio” mostra isso e está dito intuitivamente de forma poética. Creio que, com a chave poética, eu conseguia adentrar esse estado alterado de consciência, me ver de fora e perceber que esse amor, esse sentimento, era uma forma de proteção, uma invenção. Uma traquitana criada para me sustentar no mundo enquanto eu não tinha condições de fazê-lo sozinha. Especialmente quando eu digo da saudade, da falta, da ausência: “Quero-te por perto... teus olhos iluminando-me nas trevas”. A busca pela clareza está evidente, e esses olhos são o facho do farol conduzindo a travessia de uma tempestade.
Arqueologia da Ausência: Entre o Colapso e a Criação
O verso mais contundente para a nova percepção que se assenta é: “Tua presença é espólio de minhas guerras”. Esta presença é o que pode ser criado dos escombros dessas guerras intermináveis que atravessaram a minha existência desde que eu me conheço por gente. E “Sem ter-te meu tormento é largo e certo” é o verso que reconhece a importância da criação ao constatar o completo colapso sem essa estrutura, sem esse calço colocado para evitar a irreversível ruína. Em termos psíquicos, falamos aqui da ruptura para além do trauma: a psicose.
O poema se ergue, assim como o objeto limerente, da ausência. A falta permeia o poema desde o querer que o principia em “Quero-te por perto, teus olhos iluminando nas trevas” até o exercício de sentir que busca acuracidade em “sinto-te tão longe, a tua ausência companheira mais severa”. Isso é mais do que a ausência de alguém quando se trata de uma ficção de amor — um objeto limerente criado a partir da imagem de alguém a cuja imagem é atribuída uma personalidade, uma persona que, de fato, não é a alma que habita aquela imagem.
O Ardil da Mente: Racionalização frente ao Shutdown
E, então, essa falta, essa saudade, ergue-se como mais um indício do colapso iminente e, ao mesmo tempo, do farol que indica o caminho. Se o mundo está desmoronando, precisa haver um retorno, um recolhimento. E, dentre as ambiguidades de uma mente autista de inteligência preservada, o que é prenúncio de um shutdown desencadeia um surto de racionalização. Ou seja, há uma busca aí por compreensão do fenômeno enquanto ele é vivenciado: “Então... procuro saber por que te escondes” sacramenta isso.
E, se a racionalização parece um esforço dispensável nesse momento, é ela que incita o movimento para dentro, o retorno para si. Um vagar na própria alma parece uma flutuação, uma entrega do corpo exausto na boia salva-vidas que é o objeto limerente. Até então ausente, ele finalmente é encontrado porque é uma criação, uma ficção que habita esse mundo secreto criado para a restauração desta mente em sobrecarga. De repente, o que era naufrágio se torna navegação. O que era o colapso iminente se revela um ardil, porque esta mente navega sorrateira por esse caos e naufraga nesses olhos.
A Revelação: O Outro como Espelho de Si Mesma
Quando li num primeiro momento o poema, vi mais um pouco do mesmo: a reiteração de que o objeto limerente era um recurso sofisticado de sobrevivência, uma necessidade absoluta em uma adolescência sem suporte, amparo ou acolhimento. Contudo, antes de essa conclusão se consolidar, me acometeu a lembrança de uma fala de uma terapeuta minha com a qual fiz terapia por um período mais longo. E essa psicóloga me disse que quem eu procurava era a mim mesma.
Sim, a imagem do objeto limerente era ancorada em um ser que existe, em uma pessoa vivente e, obviamente, tudo que lhe era atribuído era mais meu do que dele mesmo. É uma projeção. E tudo o que projetei ali era algo que eu gostaria de ter, que eu gostaria de receber: como o acolhimento, o olhar que não julga, o olhar que não destrói você quando já está à beira do colapso, e que te recebe, te protege. Proteção é algo que eu nunca tive na minha família, por exemplo. E então era algo realmente muito meu; era a mim mesma que eu buscava e era uma forma de colocar em algo fora de mim e, assim, poder me ofertar isso.
Individuação e o Animus Suprimido
Talvez eu não esteja usando o jargão apropriado; suponho que na psicologia haja nome para isso. Mas o fato é que a lembrança dessa frase da terapeuta me trouxe esse insight muito poderoso sobre o quanto esse objeto limerente era parte de mim e o quanto ele realmente serviu para me desenvolver. Isso o torna o recipiente no qual eu guardava meus recursos para o que tenho chamado de saltos cognitivos. Eu que, de uma menina silenciosa, de repente dei um grande salto comunicativo por volta dos vinte anos e, depois, aos 32 novamente.
Sim, mundos secretos e objetos limerentes me levam inevitavelmente à minha pesquisa de mestrado em Cinema. A individuação é o cerne da estrutura narrativa de A Promessa da Virgem. E individuação é integridade no sentido de inteireza. Se, em uma leitura superficial, A Promessa da Virgem fala do aspecto feminino da alma, é muito importante ressaltar que o aspecto masculino, o animus, também pode ser suprimido. Em uma menina neurodivergente criada para se calar, o aspecto masculino da psique também é varrido da existência consciente.
De onde Scarlet Moon, minha menina dos sonhos, reflete bem esse processo enquanto encarna o animus, apesar da forma feminina. Daí que eu sempre desconfio das aparências: sim, caro leitor, por que o animus não pode ser uma menina peralta e sobrenatural nascida no mundo onírico desta autora, que lhe queima a língua para silenciá-la?
Inteireza: Um Homem para Chamar de Seu
Então, nesta manhã, abri essa hipótese de que talvez eu tenha desenvolvido esse aspecto masculino suprimido por meio desta projeção neste objeto limerente. Se eu não agisse, ninguém agiria por mim. Eu não podia ser a menina quieta, retraída, passiva e silenciosa. Eu precisava desenvolver a minha comunicação, eu precisava sustentar o olhar das pessoas, eu precisava conseguir me expressar no mundo.
Hoje, relendo esse poema, me parece que desenvolvi esse aspecto meu por meio do objeto limerente no qual eu projetava essas características. Havia eu, essa criatura frágil à beira do colapso, que precisava se refugiar nesse mundo secreto e ser resgatada pela ideia do príncipe, mas esse príncipe era eu mesma. E aí a minha ecolalia musical surge na voz da Marina Lima: “Um homem pra chamar de seu, mesmo que esse homem seja eu”.
O que começou como uma mera obrigação se tornou um exercício intelectual interessantíssimo. E apesar do meu corpo macerado, sinto-feliz e agradecida por ter este espaço para compartilhar o meu pensamento e, sobretudo, para estimular a minha mente. E lá se vão mais de 3 horas de trabalho prazeroso.


