O Monstro em Mim: O Fosso entre o Fato e a Sensação na Comunicação Autista
Aos 47 anos, descobri que o "monstro" da grosseria era apenas um descompasso técnico. Uma análise sobre o tone policing, o machismo estrutural e como uso a IA para hackear a comunicação neurotípica.

Expressão versus Comunicação
Quantas vezes você já se questionou se a pessoa que se identifica como autista à sua frente é, de fato, autista? Afinal, ela fala tão bem, se expressa normalmente! Mas, caro leitor, expressão e comunicação são duas coisas distintas.
Arte, por exemplo, é uma expressão que independe do entendimento do outro para existir. Já na comunicação, a expressão precisa ser essa via de mão dupla que comunica e se abre para a recepção da expressão do outro. Interagir dentro de parâmetros de normalidade ou discursar com evidente riqueza vocabular não configuram comunicação. Vide o jovem que fez sua redação em vernáculo arcaico e foi reprovado com um portentoso zero por não comunicar.
A Mulher Autista e o Ego da Sociedade Patriacal
A grande dificuldade do autista verbal e de inteligência preservada — e enfatizo ainda mais a mulher autista de inteligência preservada — é comunicar-se em um mundo no qual a sua forma de expressar-se pauta-se em fatos concretos, e o mundo se organiza por meio de regras nunca redigidas de socialização que visam preservar o ego da humanidade.
Não se iluda, autistas têm ego. E é um ego profundamente ferido. Especialmente no caso das mulheres, das quais se espera empatia, afabilidade e humildade patente. Uma mulher autista, contudo, é uma mulher fora dos moldes, cuja profunda empatia não opera na superficialidade do trato social, onde o mascaramento e o automonitoramento consciente constante não cedem espaço.
Uma mulher autista é direta e questionadora demais para ser afável, e racional e prática demais para ser humilde. Esta é, para os parâmetros sociais, uma mulher soberba, grosseira, ácida, fria — e por aí seguem os adjetivos.
Só hoje, aos 47 anos, posso afirmar que compreendo de onde minha impressão de não ser ouvida se origina. Estive segurando um grito que apontava para fatos enquanto olhava o mundo responder com o que compreendia como distorções absurdas e proposital desligamento do dado absoluto da realidade. Estas, na verdade, eram percepções subjetivas, filtradas pelo sentir e por uma percepção intuitiva do contexto social. E se ao longo de minha vida as acusações formais de grosseria e insensibilidade, ou de "tirar o pior das pessoas", me machucaram ao me colocar em um vácuo de injustiça e incompreensão, foram as conversas hackeadas que introjetaram essa noção de monstruosidade que apelidei de "o monstro em mim".
Mas precisei que uma IA apontasse esse detalhe crucial e libertador da comunicação autista, este meu objeto de estudo recente.
O Veredito dos Dados e o Tone Policing
Na verdade, recordo de nutrir um certo orgulho, expresso em TEA Menina, de me ater aos fatos. Mas nunca me ocorreu que esse traço fosse justamente o deflagrador do conflito comunicacional. Ao analisar um conjunto de conversas sobre as quais me debrucei por alguns dias, a IA que me auxilia há seis meses — inclusive como assistente de ruminação (o que ajuda a controlar a ansiedade) — apontou exatamente a seca afinidade com os fatos nos diálogos cotidianos. E o que para mim é natural e lógico, para o neurotípico na outra ponta da conversa é ácido ou impositivo demais. Enquanto estou tentando exercer uma liderança executiva (cobrando tarefas, estabelecendo prazos e apontando falhas logísticas), a entrada de um terceiro para acalmar os ânimos tem um efeito colateral de invalidação da minha fala e de acolhimento do desconforto do outro.
Não é, portanto, no confronto direto que nasceu o monstro em mim, mas na sutil insinuação no decorrer de uma conversa. Um diálogo, seja ele rotulado ou simplesmente assomado por uma política externa de boas maneiras, deslinda no que chamamos de policiamento do tom (tone policing). Creio que mesmo neurotípicos entendem meu tom direto e firme como grito, mesmo que a voz não tenha sido elevada. O corpo de uma mulher ergue a voz simplesmente por projetá-la com clareza e confiança.
E o meu sentimento de ser silenciada é algo refletido em todo o meu corpo, que ainda se encolhe em situações de conflito, espelhando um medo antigo — talvez mais antigo que eu mesma.

O Desamparo e a Armadilha da "Loucura"
O tone policing aplicado a uma mulher autista que não apreende as nuances sociais como um neurotípico resulta em um desempoderamento tácito, sentido profundamente em cada átomo do corpo. Não compreender plenamente o que se passa é confrontar um sentimento de desamparo que não encontra arrimo a não ser nos fatos. E a fixação nos fatos denuncia uma rigidez que não é lida como déficit neurológico, mas como defeito. Irascível, difícil, histérica são os adjetivos elegantes para este desfecho.
Se o desamparo deslinda em um meltdown, o choro — ou mesmo o grito de fato — termina de destroçar a imagem desta mulher para o mundo. E "louca" é o adjetivo cabível, que de algum modo sempre soube ser uma armadilha oriunda da minha falta de controle. Hoje, associaria à f incapacidade de leitura do mundo e do outro.
Basicamente, meus nêmesis em termos de comunicação não são muito diferentes dos das outras mulheres. Traços narcisistas e machismos estruturais facilmente vêm à tona diante da comunicação da mulher autista, porque ela é "fora de lugar". Aquele corpo feminino não deveria nunca erguer a voz como arauta da razão e guardiã dos fatos. Como ousa, desde este corpo ainda visto como propriedade por alguns e repositório de expectativas várias, julgar-se assim superior? Sim, esta acusação de me sentir superior a todo mundo já me atormentou profundamente. A ideia da soberba atravessa meus relacionamentos familiares mais estragados e me torna responsável pela sua deterioração.
O Monstro Domesticado: Incorporando a Sombra
Infelizmente, eu não tenho como mudar a minha forma de perceber o mundo: como um dado. Ou uma porção de dados. O veredito é: eu me atenho aos fatos e as pessoas se atêm à sensação. As pessoas recebem o discurso como um propulsor de emoções e percepções subjetivas, e eu me ancoro no dado para tentar me comunicar com elas. E assim a comunicação nunca se efetiva realmente. Resta em mim um profundo desconforto, ruminado ferozmente.
Na conversa que me trouxe esse insight poderoso, eu reverti a situação usando o dado. Minha posição hierárquica me proporcionou esta regalia, mais talvez do que o dado. Porém, trouxe a certeza de que preciso aprender a me comunicar com neurotípicos de modo a neutralizar atitudes narcisistas que usam os outros como escada na primeira oportunidade, e machismos estruturais para os quais o gaslighting é a forma mais eficaz de introjeção do “monstro em mim”.
Aprender a me comunicar desta forma defensiva é perfeitamente possível para mim, que estudo a natureza humana desde sempre. Contudo, essa reeducação implica em incorporar a sombra. Aquela instância psíquica que projetei em personagens como Scarlet Moon. Isso porque, ao hackear a comunicação entre típicos e atípicos, eu me tornarei uma hábil manipuladora das situações. E sempre temi fazer isso. Escolhi conscientemente não fazê-lo com medo de o monstro se tornar real. Mas, seja o monstro em mim uma projeção alheia incutida por meio de conversas triviais que denunciam que não caibo e nunca coube na norma, seja ele domesticado pela minha vontade e saber, creio que não posso mais fugir. O Monstro em mim existe. E é hora de abraça-lo.


