O Labirinto da Normalidade Violenta: Uma Sátira sobre a Indigência Médica
Entre laudos lidos ao avesso e 15 minutos de pressa: uma autópsia humorística e cortante da arrogância institucional

O Labirinto da Normalidade Violenta
Caríssimo doutor,
Há uma categoria específica de violência que não faz barulho. Ela, na verdade, silencia. Causa um apagamento de qualquer vontade de reação, seja verbal ou física. Há uma reação, sim, mas biológica — eu diria que frequencial. Porque o silêncio que se faz na gente é algo a nível atômico. É o anticlímax cognitivo absoluto.
Sempre tive medo desse momento em que tudo silencia. Não há energia para contendas, só um recolhimento, um sofrimento muito íntimo que começa ínfimo e se expande como um véu de tristeza. De repente, sou água parada! Mas, doutor, desconfio que o silêncio que se segue à sua fala é o luto pela própria inteligência humana diminuída.
Da última vez que me senti assim foi em um ambiente acadêmico. Fiquei água parada por horas a fio, como se algo se diluísse em mim lentamente até atingir o nível de escuridão e silêncio — a qualidade abissal deste sofrimento — causado pela violência que eu nem sequer compreendia.
Diferente daquela ocasião, desta vez o seu tom de voz foi manso e casual, como se cumprisse uma rotina, e nada mais do que isso. A violência normalizada como atitude e conduta profissional! Sem gritos, tons ríspidos ou gestos bruscos, só a farda da polidez e da eficiência institucional, que disfarçava perfeitamente que sua atuação é um testemunho vivo de como a inércia intelectual pode blindar um indivíduo contra os avanços da própria área. Gostaria de dizer, doutor, que optei por silenciar, pois responder seria conferir uma dignidade intelectual que o seu argumento não possuía, mas na verdade eu tenho um déficit cognitivo real. Um processo neuroquímico chamado alexitimia me faz demorar no processamento de minhas próprias emoções. Tem palavras e tons de voz que o meu corpo lembra antes do meu intelecto, no entanto. Talvez venha daí o silêncio, como se minhas moléculas parassem de vibrar diante da vacuidade da sua mente.



