O Iceberg da Misoginia: Gaslighting e Controle em Coliving
Um relato sobre os mecanismos invisíveis de controle do feminino e de silenciamento das mulheres.
O Iceberg da Misoginia: Entre o Discurso Paterno e o Sitiamento Doméstico
Notícias de mulheres sendo arrastadas sob as rodas de um carro pelas rodovias de uma metrópole ou atingidas por sessenta socos na cara dentro de um elevador, sem a menor chance de defesa, nos fazem crer que a misoginia é uma violência visível. Ou risível, quando invade as redes sociais por meio de coaches que desafiam a lógica e a história para pregar sobre comportamento masculino e “mulheres de valor”. Isso nos faz enxergar a ponta do iceberg e nunca atentar para o tamanho do obstáculo prestes a nos destroçar a qualquer momento.
O tipo de ódio às mulheres que culmina em atos violentos e discursos misóginos começa de forma muito sutil, entranhado na linguagem cotidiana. E a pior parte é que é realmente ensinado por autoridades na vida dos filhos: os pais. Ambos, no caso. Seja por ação direta ou omissão, a responsabilidade parental é compartilhada.
O silenciamento e a desumanização das mulheres começam quando sua autoridade ou suas reivindicações são minadas por meio de apontamentos que nada têm a ver com a questão em si. Estes apontamentos desviam do assunto atentando para a hora imprópria para discuti-lo (etiqueta), e o tempo usado para fazê-lo (Sem áudios longos, Oryanna). E, por fim, um transgressor reincidente encerra a discussão pois ele já pediu desculpas e isso é suficiente. Ele não precisa entender que agiu errado nem se comprometer a não errar de novo. Ele já pediu desculpas e está na hora de encerrar o assunto, pois a interlocutora já quebrou todos os protocolos de etiqueta e extrapolou em muito seu limite de tempo, magnanimamente concedido. E ela silencia, um estranhamento a contorcer-se nas entranhas, sem se dar conta dos mecanismos de controle a ela aplicados.
A Misoginia é ensinada
O estarrecedor é quando esses comportamentos são lidos em um jovem de 18 anos, afeito a desviar-se da responsabilidade apontando a quebra de decoro da sua interlocutora . Uma quebra de decoro, se existente, ínfima perto da quebra de regras claras, de cujo cumprimento depende o bem-estar coletivo. E quando o mecanismo de gaslighting é dissecado e levado ao conhecimento paterno, percebe-se que os discursos de ambos estão perfeitamente alinhados:
“Oryanna, acho que meu filho deve melhorar o convívio e os afazeres. É dever e cobramos isso dele.
Acho que você também pode levar as coisas menos a ferro e fogo e com menor senso de urgência. Peço que alinhe esses assuntos com a mãe dele.
Eu já havia pensado que aconteceu alguma coisa, um acidente, coisa assim.
Acho que ambos viverão melhor se cada um evoluir um pouquinho e respeitar as limitações do outro.
Mas novamente, vamos cobrar evolução dele.
Não consigo ouvir seu áudio agora, normalmente não ouço áudios longos, à noite então, se eu ouvir não durmo. Espero que tenha desabafado...
Boa noite, releva algumas coisas... Faz bem pra todo mundo.”
Quando foi que a falta de respeito de educação do filho dele se transformou em um defeito da minha personalidade? Da minha índole? Quando foi que a cobrança do cumprimento de regras simples de convivência que todo mundo cumpre, menos o moleque, se tornou uma rigidez minha? Quando foi que eu dei a este sujeito a liberdade de determinar como devo me portar e gerenciar minha própria casa? Nunca. Ele jura que nasceu com esse direito de deslegitimar a reclamação factual, transformando-a em desabafo. Um desabafo que ele não se dará ao trabalho de ouvir porque vai lhe tirar o sono. Eu posso perder o sono lidando com os abusos do filho dele, mas ele não precisa. Por sinal, devo alinhar esses assuntos com a mãe. Ele paga a pensão e ensina o filho como destruir o psicológico de uma mulher, e a mãe que lide com os resultados disso. Porque sim, na análise do discurso, o dele e o do filho são iguais. Como se tivessem combinado na hora que levei entre a redação de três textos descartados e a escolha do áudio como meio de comunicação.
A Escalada: Da Manipulação à Ameaça Física
E a comunicação do moleque escalou em três meses. Ele era um bom ouvinte, disposto a se adaptar. E eu disposta a tratá-lo como adulto. Quando ele, nas palavras do pai, “teve uma recaída” e passou de protótipo de adulto funcional a moleque, e isso teve que ser levado ao conhecimento dos pais, o gaslighting começou. E antes das perguntas invasivas, teve a violência física. Aquela que não atinge o corpo, mas foi talhada para quebrar a alma. Depois da bronca dos pais, ele se deu ao direito de ficar “muito puto” e me confrontar aos berros exigindo que o assistisse a escovar os dentes para provar que a cusparada de pasta de dente na pia não era sua marca pessoal, diariamente retificada. O motivo dele ficar “muito puto”? Instruções gerais de limpeza que sugeriam o uso do sabonete líquido e uma esponja específica pendurada do lado do espelho, para limpeza após o uso, caso necessário. Aviso geral, sem nomes. Mas o suficiente para ele ficar “muito puto" e, diante da minha recusa em assistir sua performance descabida, me impediu de entrar em meu quarto empurrando a porta, que eu tentava fechar. Cerca de 90 quilos em 1,85 metros de pura fúria e determinação, entre mim e a porta. Eu, que já vivi cenas de portas arrombadas, móveis quebrados no chute, passei por isso e os pais acharam normal.
Este pai, principalmente, não só achou normal o comportamento do filho como aparentemente ensinou técnicas de controle. Quando um garoto de 18 anos, com tendências a regredir comportamentalmente aos cinco diante de uma louça suja, para do seu lado e pergunta do nada “E a senhora, não se relaciona?”, há aí um julgamento e uma invasão; quando na semana seguinte ele repete a cena e pergunta “Há quanto tempo a senhora não sai de casa?”, há um método. E eu não lembro o que respondi da primeira vez, mas da segunda eu pensei longamente e respondi honestamente: três semanas.
Eu sou autista. Tenho um incômodo permanente em forma de gente dentro de casa, por que eu sairia, se há mais gente lá fora? Essa pergunta eu não fiz a ele, claro. Me limitei à resposta direta enquanto meu pensamento arborescia, processando o tom de julgamento, o propósito, o padrão e situações relacionadas. Mas deixo esta pergunta para você, leitor.
Eu, ocasião da pergunta, me debatia com a ciência de que esse tipo de questionamento, mais do que um julgamento, traz um veredito machista: uma mulher que não sai, não se relaciona, é uma mulher amarga, mal amada. Claro, se ela saísse e se relacionasse seria uma puta a quem este pai não confiaria seu filho, a não ser para coisas para as quais servem as putas em seu diminuto mundo. Mas sendo uma mulher amarga e mal amada, esta já é uma mulher cuja autoridade, dentro da própria casa, pode ser deslegitimada por táticas mais antigas do que andar para a frente; esse perfil traçado ou confirmado nessas perguntas do moleque fez um homem adulto criar o discurso determinando como devo me portar, ressaltando justamente minha rigidez, falta de leveza e tendência ao erro como qualquer vivente. Não importa se o que está em questão são combinados de convivência muito claros cujo não cumprimento afeta outras pessoas. O que importa é que eu não estou agindo com a leveza conveniente para dois machos disfuncionais.
O Ultimato e o Anjo Azul da Vingança
E assim, o rapazote, depois que eu — culpem a rigidez (cognitiva) ou o horóscopo, como quiserem — provei que ele mentia e me fiz ouvir pela mãe, veio com outra retaliação presumida e verbalizada para ela, que convenientemente não entendeu que a conversa desastrosa com o pai resultara em um pedido de que o filho buscasse outro lugar para viver, e insistiu em sistemas de monitoria diária do comportamento e desempenho dele, me deixando sem outra opção senão aceitar sua permanência. Diante do aviso de que ele retaliaria, seguindo o padrão já detectado, ela se limitou a informar que se ele chegasse de cara feia era pra avisar imediatamente.
Ele, que passara a noite fora, chegou por volta de meio-dia, enquanto eu redigia uma carta para a mãe explicando que não poderia permanecer com ele. Eu havia deixado claro no áudio que eu não havia assumido a função de maternar o filho deles. E mesmo por escrito ela ignorara, insistindo em um arranjo muito mais favorável para ela do que para mim. Como se não bastasse me sentir manipulada, quando encerramos a conversa, eu me vi com medo pela Mina, minha gata. E depois de três horas processando desconfortos, eu dicidi. Novamente, desde que cheguei a Belo horizonte há seis meses, me vi na situação de não sair para ir ao correio da esquina por medo dele chegar antes de eu voltar e descontar sua fúria em Mina.
E de fato ele chegou furioso. Não apenas a cara estava feia como a postura era de um homem resoluto e assim ele entrou em seu quarto e deu uma volta rápida que o devolveu imediatamente à porta do meu, aberta para circulação da gata, onde me interpelou em um timbre grave e alto:
— Alguém entrou no meu quarto?
— Entrar, ninguém entrou — respondi.
O motivo do comportamento intimidatório estava no fato de que minha natureza não é de uma vítima passiva. Não espere, caro leitor, encontrar aqui a autista de voz baixa e mansa. Eu falo alto, e se precisar eu grito. E, especialmente, eu ajo. E assim, quando a mãe disse que estava monitorando, pedindo fotos das tarefas dele feitas, de suas obrigações cumpridas, eu fui até a porta de seu quarto e, deste limiar, filmei o caos e a sujeira. Sacolas de presentes que ele ganhara quando da visita da mãe amontoados junto a roupas e calçados pelo chão; piso imundo, com muito pó e manchas de líquidos derramados. Eu nunca cobrei a limpeza. Respeitei a nojeira a título de privacidade. E não a invadi para filmar. Ele sempre deixa o quarto aberto. Literalmente porta escancarada. E adquiri o hábito de fechar porque o vento da janela escancarada a faz bater o tempo todo. E com o tempo tomei por missão proteger meus olhos da nojeira, fechando logo cedo. O que fiz foi apenas retornar ao ponto original de abertura total e, do limiar da porta, gravar o vídeo que prova que ele a enganava.
A postura intimidadora seguiu-se ao sair trancando, pela primeira vez em três meses, a porta, levando consigo a chave. Reagi imediatamente sem pensar, exigindo que retornasse e deixasse a chave para uso como de costume: manter sua privacidade quando dentro;trancar por fora — minha atitude — quando o vento faz ela abrir sozinha e bater insistentemente. Ele gritou muito no estreito corredor. Agora amparado no meu “aviltante desrespeito à sua privacidade”. Eu gritei de volta. Ele devolveu a chave e deve permanecer até o fim do mês de maio no apartamento. Exigi, emparelhando meu tom ao dele, que a partir de hoje me responda apenas “sim, senhora” quando eu chamar sua atenção. Deixei claro que esta é minha casa e que aqui ele não mija nos cantos para demarcar território.
Dissecando os Mecanismos de Controle
Avisei a mãe do ocorrido, conforme solicitado, e enviei a carta redigida, agora irrefutavelmente embasada. Ainda estou remoendo a situação. Não posso evitar. Sei, contudo, que meu objetivo ao falar com o pai era um ultimato, mas seu comportamento me levou a reagir exigindo imediatamente que buscassem outro lugar para o moleque malcriado morar, percebendo um problema sistêmico e um drama falmiliar que não me cabe.
Diante de sua resposta, eu imediatamente escrevi: “Agora sei por que ele faz gaslighting comigo”. Ele ficou de estudar o termo, que alegou desconhecer, numa pretensa humildade que visava me educar. Eu, contudo, não sou humilde. Não é uma questão de ego, é lógica. E ainda vivencio o perigo que corri gritando no corredor para evitar a retaliação em forma de reivindicação de território; em tentativa de inversão dele, reduzindo a uma “invasão de privacidade” todo um mecanismo de controle instaurado por ele e pelo pai em minha casa. Porque sim, eu vi a escalada da comunicação e o mimetismo dos discursos calcado no meu perfil traçado por eles em conjunto. Enquanto a mãe acreditava monitorar o filho, ele estava me monitorando e articulando com o pai. Gradativamente foi tentando sitiar o meu discurso com a sombra do monstro em mim. Mal sabe ele que, desde o meu diagnóstico, o monstro em mim é só uma faceta que me serve de vigia e se transforma no anjo azul da vingança. Deveria ser da justiça, eu sei, mas sou dramática e escorpiana. Me deixem.
E acho importante contar esta pequena história para que as mulheres dissequem os mecanismos de controle e digam não. Mesmo correndo o risco que corri no corredor estreito. Mas evitando correr o risco que corri no corredor estreito.
Usem a voz.
Não é a toa que o silenciamento das mulheres é o objetivo principal dos discursos misóginos.
Apoie a autonomia e a segurança de uma artista
Viver em moradia compartilhada nem sempre é uma escolha, mas muitas vezes uma necessidade financeira que nos expõe a dinâmicas de poder e silenciamento comuns às mulheres e ainda mais perigosos para as autistas. Meu maior desejo é poder morar sozinha com minha gata, Mina, em segurança — sem a sombra do medo ou a necessidade de defender meu território diariamente contra o machismo estrutural.
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Filme que deu origem ao termo gaslighting, e cujo cartaz ilustra este post:
À MEIA LUZ. Direção: George Cukor. Estados Unidos: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), 1944. 1 filme (114 min).



