O Espelho 'Entre Mil Faces': O Objeto Limerente como Repositório de Luz
Projetamos no outro a vastidão que ainda não cabe em nós. Uma análise sobre o trânsito entre a rigidez lógica e a invenção de si.

ENTRE AS MIL FACES Imagem única do sentimento permanente Que se esboce entre as mil faces do desejo Não tens a certeza que eu exijo Nem a presença que se faz conveniente Quando de pálpebra-serradas te contemplo Ignoro sem perceber o raciocínio ríjo Que me prende à lógica, e rastejo, Pelas peculiaridades do teu ser amplo É grande alegria quando me encontro
Bastidores de uma Alma
Muito da escolha de parear ‘entre as mil faces’ com o poema viagem pelo mar noturno veio do fato de também ser apêndice em retrato da sombras, grampeado a posteriori, supostamente resgatado de algum caderno durante alguma faxina. Porém, origens similares não justificariam sua posição neste trabalho de análise que compactua pragmatismo e intuição em uma alquimia improvável. E nesta alquimia que captura o meu olhar pela forma e o meu intelecto pelo conteúdo dois pontos saltam aos olhos na leitura atenta: uma delas é a percepção de um raciocínio rijo e o verso final, que sentencia o poema como um exercício poético inacabado enquanto decreta “ é grande a alegria quando me encontro”.
Não recordo, mas posso presumir o motivo do abandono do poema neste verso solitário que aponta o caminho até agora intuído: o objeto limerente nunca foi apenas um destinatário romântico ou externo e sim um arcabouço para autocriação. E a constatação simplesmente esgota o poema, que seria mais tarde resgatado do expurgo definitivo. Presunção, claro. Mas plausível. E a segunda estrofe desenha o cenário de mergulho no mundo secreto criado para habitat deste objeto limerente no qual ele é retrabalhado a cada esquete. E assim o texto que o cria e recria em um ensaio interminável desenvolve recursos internos que de outro modo não seriam oportunizados.
Uma das falas marcantes que ouvi em terapia surgida após analise de um sonho dizia que o motivo de eu ter me tornado uma pessoa relativamente saudável era minha capacidade de navegar nas aguas inconscientes. E agora, relendo mais uma vez a segunda estrofe, mais uma vez vejo esses mergulhos “de pálpebras cerradas”nesses mundos imaginários como um estado meditativo, no qual a reza e a invenção se emaranham. E o que a imaginação cria livremente a partir da liquidez inconsciente, a palavra formata e entrega ao mundo sensível. E eu existo nesse trânsito. Me formo também nesse trânsito.
Ensaiando o Protagonismo na Imensidão do Outro
Em um tempo no qual eu acreditava ser má e imerecedora de qualquer bem, o objeto limerente funcionava como repositório da luz que me era negada. No palco criado para ele havia a “vastidão” e a “amplitude” que, naquele momento, não cabiam em minha identidade. E ao rastejar pelas “peculiaridades do ser” do outro inventado, eu tateava as minhas próprias fronteiras.
A alegria não vem da posse do outro, mas do reconhecimento de si mesma refletida naquela imensidão. Talvez por isso objetos limerentes sejam fadados à pecha de amor platônico. Sua função é cénica, ensaística, para os bastidores de uma alma que não se sente ainda apta a protagonizar a própria história.


