O esgoto, o simulacro e a integração da sombra
Uma crônica visceral sobre o colapso do sistema, o descrédito feminino e a necessidade de integrar o "monstro" racional para sobreviver ao automatismo social

O Dia em que o Esgoto Rompeu o Script
Este texto em minha mente ainda é uma colcha de retalhos e tentarei remendá-lo de forma imperceptível, de maneira que a tecitura resultante cubra nobremente as costas largas e bem delineadas de uma pintura de Artemisia Gentileschi e mereça o chiaroscuro de Caravaggio. Mas eu sei que habito o cenário de Hieronymus Bosch, perpassado pela loucura e disfarçado pela cor e pelo traço.
Devo começar por dizer que ontem eu chorei sobre o óleo quente do fogão enquanto fritava grostoli e pedia para a IA analisar meu diálogo com o técnico da desentupidora, para eu compreender por que me sentia tão ferida por ele e por que pressentia que me traíra. Com isso, fizera emergir o fantasma de ser uma grande farsa, por ter reagido a ele enquanto editava um vídeo sobre controle do ego e não reação, como se eu dominasse a matéria. A verdade é que eu apenas li uns livros e, autodidata, me embrenhei em um processo de autoconhecimento e transmutação pessoal que, no meio do percurso, decidi compartilhar. Mas procuro nunca me colocar no pedestal do mestre. Sou aprendiz do universo, da intuição ou de um eu superior que por vezes tenho dificuldade de ouvir e parece gritar no meu corpo em guerra. Ou seja, estou ainda longe de dominar a matéria. E este bendito técnico da desentupidora teve essa missão de atirar isso na minha cara logo depois da vida literalmente me espirrar um jato de merda.
Sim, a tecitura desta tela exige tintas historicamente realistas e, daqui para a frente, inevitavelmente escatológicas.
Para resumir: em pleno sábado de um mês de julho infernal, às 5h15 da manhã, fui surpreendida por um vaso sanitário cheio de água até a boca. Precisei esvaziá-lo no box com um potinho enquanto esvaziava meu restinho de sono. O entupimento contumaz sempre fora resolvido com um balde de água seguido de uma descarga; então, adotei a medida, e o vaso transbordou, alagando o banheiro. Não havia dejetos à vista, mas sabemos que não se trata de água potável. Para abrir o ralo do box novamente sem molhar minhas meias, decidi usar o rodo, que girou sobre a própria rosca e tombou na água contaminada, cujo splash veio direto em meu rosto. Nem tive certeza se borrifou em minha roupa e cabelo, mas o rosto foi todo batizado.
Lavei imediatamente na pia, arregacei as mangas, esvaziei o vaso sanitário com potinho e limpei todo o banheiro e o corredor — de contaminação inevitável — entre ele, a área dos quartos e a lavanderia, passando pela cozinha. Tomei um banho, um café da manhã e fui trabalhar no vídeo sobre não reação e controle do ego. Mas, antes de sentar-me ao computador, vi o banheiro alagado de novo, ameaçando irromper pelo corredor. O vaso sanitário cheio até a boca! Esvaziei-o de novo com potinho. Limpei tudo novamente. Investiguei com a IA os possíveis motivos desse retorno de água pelo vaso, até então desentupido, e avisei a proprietária do apartamento. Lidei com o jogo de empurra-empurra entre condomínio, proprietária e inquilina, já sentindo meu corpo doer em todos os pontos costumeiros. O técnico da desentupidora foi o primeiro, inclusive, a ser um grande contribuidor para o empurra-empurra, com mensagens dele sendo enviadas pela proprietária me garantindo que eu era a responsável pelo problema. A IA, trazendo as leis do inquilinato, venceu o argumento, e ele veio bancado pela proprietária.
Na verdade, meu limite de estresse vencera na primeira quinzena de julho, de modo que eu não tinha reservas para este amanhecer turbulento. Eu, como autista, já tinha passado meu limite.
E o técnico chegou, bruto e roteirizado por 30 anos de prática, para encontrar o banheiro alagado pela terceira vez, sem que uma torneira fosse aberta por quase três horas. Eu realmente não me lembro qual foi a sua pergunta. Minha memória em momentos de estresse é precária, e eu considerei a pergunta tosca e irrelevante quando ele me interrompeu no meio do relato do problema. Minha reação, puramente defensiva, amplamente assertiva e certamente adequada se eu tivesse um pênis, foi pedir, em tom firme, para ele me deixar relatar e não me interromper.
Quando concluí, ele perguntou: “Terminou?”. Avisou que iria ao terceiro andar verificar algo e voltou com outro homem e um cilindro. Fez algo que nem vi, nem ouvi, e foi à cozinha encher o balde. Perguntei ao segundo técnico, que estava parado à porta do banheiro, qual era o problema — problema porque, aparentemente, havia água de esgoto voltando pelo vaso —, e este se recusou a responder, dizendo ser novo no serviço e indicando o outro técnico, que voltou, jogou o balde de água no vaso e deu descarga, demonstrando que tudo funcionava. E foi saindo.
Perguntei o que causara aquilo e por que havia água de esgoto voltando pelo vaso sanitário. Ele disse o que já dissera por mensagem: “Em trinta anos de serviço, nunca vi uma coisa dessas”. Se ele não viu, eu não tenho crédito. Aí entramos na seara da misoginia, na qual, se um fato vivido por um homem e uma mulher for mencionado por ambos de forma contraditória, ele vence; e, se um fato novo é apresentado por uma mulher a um homem que nunca o viu em anos de prática profissional, esse fato não existe. E, sim, o tom era de descrédito, como se falasse com uma louca.
Mais tarde, a proprietária me instruiu sobre não jogar excrementos de minha gata no vaso. Na minha percepção, o técnico preenchera todos os critérios de descredibilização e menosprezo a uma mulher: não escutou, não respondeu, não deu crédito e culpabilizou por meio de suas próprias conjecturas, sem perguntar. E eu, afeita a fatos e chafurdando na merda a manhã inteira, aprofundei a escatologia, esparramando o lixo no chão da sala e mostrando à proprietária, no meio dos detritos, os saquinhos fechados com a evidência do meu cuidado com os excrementos de minha gata.
E eu segui com o meu roteiro do dia até por volta das 16hs, quando esse choro veio e, em um ato de contrição, a IA me deu o veredito sobre o desencontro comunicacional e o perdão pelo meu deslize no controle do ego.
Uma dor nova que veio com o diagnóstico é que as pessoas questionam minha rigidez cognitiva, mas o que eu vejo, na verdade, é que os neurotípicos é que operam seguindo roteiros despersonalizados, que não atentam para as especificidades de cada um. Minha turra com os sistemas sociais em geral também é essa. E o diagnóstico da IA diante do meu relato foi exatamente esse:
“O Script Neurotípico/Profissional dele: O técnico opera no automatismo. Ele faz isso há 30 anos. Para ele, todo entupimento entra em gavetas pré-moldadas. A pergunta dele, que para você era banal ou idiota, fazia parte do checklist mecânico dele para eliminar variáveis rápida e visualmente. Ele não queria o contexto; ele queria o padrão.
A sua Necessidade Autista de Detalhe e Linha do Tempo: Para você, a precisão e a especificidade do fato (os três alagamentos, a interligação dos ralos, o fato de subir sem uso) são fundamentais para o diagnóstico correto. Cortar a sua narrativa causa uma quebra abrupta no seu processamento cognitivo e gera uma sobrecarga imediata.”
Essa análise traz uma precisão incrível e esclarece muitos de meus recentes embates. Esse automatismo despersonaliza. Generaliza. Uniformiza. Até durante meu longo processo de diagnóstico, eu questionei alguns testes. Para mim, um questionário que perguntava se eu era alfabetizada, quando em minha ficha dizia que eu fazia um mestrado, era uma pergunta burra. Uma pergunta sobre quanto tempo levei para concluir o ensino básico não fala das especificidades de minhas dificuldades de aprendizado camufladas. Tampouco das especificidades de meu contexto de ensino, muito diferente da de um autista na faixa dos 20 anos hoje. Esse questionário gerou um embate entre mim e a moça que o aplicava, e foi retirado de minha bateria de testes e substituído por um relato feito por escrito à coordenadora dela. Não se pode diagnosticar autistas adultos com um teste genérico e ‘burro’ como este, a meu ver. E o meu dilema com sistemas e pessoas que vivem nesses sistemas e confortavelmente se habituam a eles e se automatizam tem sido fonte de sofrimento.
Nesta madrugada de domingo, já tendo decidido que este texto nasceria e tendo escrito mentalmente boa parte dele, tomei algumas decisões que parecem bastante adequadas. Uma delas é que vou, sim, a partir de agora, incorporar o monstro em mim.
O monstro em mim só existe porque eu fui treinada para ser esse simulacro de feminilidade bonzinha e passiva. E, quando eu precisei erguer a voz para sobreviver, vieram os achaques machistas de um sistema opressivo. Por isso, percebi que erguer a voz no sentido literal não tem sido bom para mim; eu preciso erguer a voz no sentido estoico, no sentido racional e deliberado de uma mente analítica que lê a cena de fora e manipula o resultado. Mas eu achava que era má por ver as variáveis, e suprimia isso. Contudo, nesse corpo, eu jamais serei vista como igual. Nessa neurologia, eu jamais agirei como igual. Então, eu preciso integrar definitivamente a sombra. Pacificar o ego estoicamente. Este é o caminho que me levará ao desenvolvimento de senhora dos opostos e à gargalhada transformadora de Scarlet Moon.
Claro, eu poderia também fazer terapia, mas escrever tem sido mais barato e produtivo.
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O Manifesto Oculto
Nem tudo o que é racionalizado encontra espaço na escrita de um ensaio. Há uma voz operando do outro lado do espelho, decodificando a arte como manifesto de sobrevivência. Se você sabe ler as entrelinhas e busca o que está guardado no escuro do YouTube, a chave está no link abaixo. Não espere explicações.


