
Algoz A vida me impôs por castigo a distância Vivo eu cá, tão longe da minha verdade O sonho que acalento não alcança a realidade E já alcança o reino dos sonhos, meus desejos de infância Ah, meu algoz involuntário é o desejo! À minha vontade a vida se manifesta contra Aparentemente, meu desejo é sempre uma afronta A esse Deus cuja vontade eu invejo Quem me dera se meu desejo fosse lei Ah, eu baniria o sonho da ideia humana Transformaria o riso em regra absoluta Daria forma ao mundo que criei Nos meus dias mais inocentes, minha época mais serena Onde a felicidade era a virtude mais bonita
O Desejo Como Território de Conflito
Algoz é destes poemas que parecem confusos numa primeira leitura, eu sei. Nem todo mundo vai compreender de imediato que em mundo no qual os desejos se realizam não há necessidade de sonho e que sonhar sem expectativa de realização é ser atormentado continuamente pela esperança. Só quem já sentiu saudade da vida que não viveu talvez compreenda de imediato este poema singelo, escrito no dia 30 de março de 1997, por uma jovem de 17 anos à deriva no mundo.
Poemas como este eram mensagens em garrafas lançadas ao acaso.
E por acaso um dia este poema foi destacado de seu caderno original e salvo do descarte definitivo, sendo tornado um anexo de Retrato das Sombras , mesmo depois de ter sido preterido como parte da obra imaginada e impressa em três volumes espiralados. O título, algoz, é posterior à escrita do poema, porque está em outra caligrafia e caneta. E recordo da fase na qual eu escrevia tudo em caixa alta, em busca dessa simetria que o universo nunca pareceu me conceder.
Há uma nessa garrafa que agora abrimos a dor silenciosa da constatação de que a vida, por vezes nos exila de nós mesmos. Parece um exílio geográfico, mas é ontológico — a sensação incômoda e contínua de viver distante daquilo que reconhecemos por nossa própria verdade. É a partir desse desterro interior, sentido desde a mais tenra idade, que nasce Algoz, um texto que tenta tatear a fronteira sempre tensa entre a força do que quer existir em mim e a rigidez imutável do mundo.
Infelizmente ainda hoje isso é verdade e meu exílio talvez seja também mais geográfico do que parece.
Mas, no centro dessa reflexão, o paradoxo do desejo como um algoz involuntário, é o que mais carece ser cartografado no momento.
Acostumamo-nos a encarar o desejar como chama vital, impulso criador ou promessa de futuro. Contudo, quando o desejo se vê seguidamente impedido de se manifestar na matéria, ele se converte em instrumento de tortura. É involuntário porque não há escolha — a pulsão simplesmente emerge —, e torna-se carrasco porque reaviva, a cada investida, a consciência exata daquilo que falta. Desejar, nesse cenário, é a fresta por onde a dor entra.
O budismo ensina isso. Talvez meu exílio seja de outra vida na qual não fui Helena, tampouco troiana, mas budista. E não das melhores, aparentemente.
Quando escrevo que a vida se manifesta contra a minha vontade, não me refiro a um mero azar cotidiano, mas a um descompasso com a própria engrenagem do real. Há uma vontade soberana — chame-se destino, vida ou Deus. Eu chamei de Deus — que tem o poder absoluto de transformar intenção em ato. Invejar essa vontade divina não é um gesto de soberba, mas o anseio humano mais profundo de ver o querer ganhar corpo, textura e permanência.
Eu ainda invejo essa força e tenho tentado manifestar essa potência em mim. Há quem diga que somos pó, mas há quem diga que somos Deuses e tenho feito escolhas grandiosas ultimamente. E acho que mereço. Pois , nem no auge de uma adolescência conturbada pelos hormônios, pela vulnerabilidade extrema, pelo autismo sem diagnóstico… nem assim o meu desejo tornado lei desemboca em tirania, mas em reparação.
Se eu pudesse dar forma ao mundo que criei, a primeira medida seria radical, sem dúvida: banir o sonho da ideia humana. Mas só isso. E juro que faz sentido. Afinal, a necessidade de sonhar só existe onde a realidade é insuficiente. Banir o sonho seria instaurar a presença absoluta, onde a felicidade não precisaria ser perseguida como abstração ou esforço, mas vivida como a virtude mais bonita e simples.
Olhar para este poema hoje, quando o preparo para você, leitor, é encarar pela segunda vez a perda de uma inocência serena. Aquela em que desejar e ser não eram forças em combate. Não que eu algum dia tenha tido essa inocência. Ela também foi inventada em minha imaginação, em algum outro poema.
Algoz é o registro deste devaneio louco e a recusa em aceitar o hiato entre a imaginação criadora e a finitude; o registro de quem continua querendo dar forma ao mundo, mesmo quando a vida teima em impor a distância.
É um poema imperfeito, formalmente estranho, como este dia no qual o retomo como uma relíquia da inocência inventada. A mesma que inventei e vivi por quase duas semanas e que terminou hoje.
E cá estamos no purgatório poético entre o desejo e o sonho



