Oryanna Borges

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Crônicas

O Creme de Confeiteiro no Campo de Batalha: Crônica de um Burnout Autista

Um relato visceral sobre perimenopausa, invisibilidade médica e o custo da excelência criativa no autismo adulto

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Oryanna Borges
jun 14, 2026
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O canva otimizou a foto apagando meus olhos! Ou ffoi o cabelo mesmo?

Campo de Batalha e Comida de Conforto

Hoje pela manhã, enquanto eu preparava o meu café da manhã, analisei como meu corpo estava e como ele receberia esse alimento. Eu me perguntava se o meu paladar conseguiria tomar aquele café que, de costume, é o meu primeiro prazer do dia. Ontem, por exemplo, não foi possível nem sonhar com o cheiro maravilhoso de um café, porque me dava náuseas.

Refletindo sobre isso, voltei alguns meses atrás na minha história, no momento em que, diante de uma médica psiquiatra, levantei a possibilidade de, em 2020, ter passado por um Burnout autista que não foi devidamente tratado e não foi devidamente assumido pela ciência e pela medicina. Eu sempre me pergunto, quando vem essa questão e quando vêm as questões que derrubam o meu corpo: existe uma forma de resetar o meu corpo?

Parece que ele entrou em um modo de sobrevivência no qual não diferencia um pequeno contratempo de um grande desgaste ou um grande sofrimento. Tudo é motivo para chegar no limite do sofrimento, que é a enxaqueca. Eu tenho convivido com isso desde 2020. Aquela médica, na ocasião, disse ativamente — sem me deixar concluir o raciocínio — que não achava que era isso. Me deu uma lição de moral, comparou o meu sofrimento a um “cortezinho”, enquanto lá fora existiam pessoas com “braços quebrados”. Me comparou a um esquizofrênico surtando na sala de espera, dizendo que este, sim, seria uma emergência e eu não.

Ela se recusou a rever minha medicação, mesmo aquela que estava dificultando minha vida como uma pessoa que tem alexitimia. Se você toma uma medicação comum para depressão como a sertralina , o efeito colateral mais comum é o embotamento emocional. Essa anestesia afetiva é extremamente prejudicial para quem tem dificuldade de compreender os próprios sentimentos. A capacidade de sentir, além do óbvio conhecimento sobre gostar disso ou daquilo, está vinculada a reações vitais no convício social. Eu já passei horas em uma sala de aula processando um desconforto alienigena que misturava vergonha, desrespeito do outro, abuso emocional, mas que na complexidade de tudo eu não sabia processar e elaborar uma ideia clara sobre o ocorrido. Regir e defender-se torna-se impossível quando um processo que já é precário neurológicamente é prejudicado pela medicação errada. Você fica perdido, não acessa, não sente, e isso cria entraves ao processamento, que se torna mais dispendioso do ponto de vista neurológico. Especialmente quando falamos de um inconsciente hiperativo e persistente como o meu.

A ecolalia musical se tornou o meu sinal de alerta. A música evoca um sentimento que não me habita mais ( ou ainda) e ainda assim eu quero ouvi-la incessantemente. É como se eu pudesse apenas mudar o rádio de estação depois de entender por que estou ouvindo essa canção há dois meses, em doses espaçadas durante o dia. Duarante um desses hiperfocos musicais descobri que a medicação estava me impedindo de processar o básico para minha subsistência psiquica.

Na ocasião, essa médica, que eu chamo de assinante de receitas, reagiu com extrema violência quando pedi a revisão sugerida pela minha psicóloga do Centro Eliane de Grammont. Ela não queria me conhecer, não queria saber dos meus sentimentos. Tinha ódio nos olhos enquanto assinava a minha receita após as comparações pejorativas e desumanas que fez. Tudo isso me levou a não procurar ajuda médica aqui em Belo Horizonte. Quando tentei, não consegui. O sistema aqui é mais precário que em São Paulo; lá, quando me deparava com essa desumanidade, ainda havia um movimento para resolver. Aqui eu desanimei e me isolei em um casulo protetivo.

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