O Altar da Única Crença: "Indiferença" e a Sacralização do Amor na Mente Neurodivergente
Uma análise profunda de como o amor limerente pode funcionar como um mecanismo de sobrevivência psíquica e autocriação espiritual.

Indiferença
Desconsidero a distância e as diferenças
Lembro sempre que o amor nos faz iguais
Se desejasse seguir regras, nem saberia quais
Então aceito você como minha única crença
E cultivo esse sentimento tão distinto
Como princípio e finalidade da minha vida
E só serei vista prostrada e arrependida
Se não der vazão ao que intensamente sinto
O Manifesto da Autocriação Espiritual: Limerência e Sobrevivência Neurodivergente
Esse poema singelo traz uma carga emocional muito forte, especialmente por tratar a indiferença do título não como o tema central, mas como o obstáculo ativamente ignorado ou desconsiderado. O título sugere um distanciamento, mas o conteúdo é de uma entrega absoluta. A indiferença é algo que vem de fora (ou das circunstâncias) e a escolha da jovem autora é combatê-la com a crença. Contudo, esta jovem autora era uma questionadora nata, em franca querela com as crenças que lhe foram impostas desde a tenra idade. Esta era a menina que escrutinou a doutrina cristã e os hábitos de uma comunidade para decretar “eles não sabem o que fazem”, uma repulsa substituindo o perdão de Cristo na Cruz. Esta jovem, ao trazer a crença para o fazer poético, obriga a um olhar diferenciado para o objeto limerente, lentes pelas quais optamos analisar a obsessão romântica. Dorothy Tennov, ao cunhar o conceito de amor limerente, o traz como um estado de obsessão cognitiva involuntária e pensamento intrusivo. Para ela, o objeto limerente não tem uma função por suas qualidades reais, mas pelo que ele ativa no limerente (o apaixonado). A função do objeto limerente é fornecer a mistura exata de esperança (sinais de que a reciprocidade é possível) e incerteza (medo de rejeição). É essa instabilidade que mantém o estado limerente “vivo” e intenso. E tudo não passa de idealização: o limerente responde a uma construção mental do objeto, e não à pessoa real. O processo de “cristalização” (termo que ela toma de Stendhal) faz com que as virtudes do objeto sejam ampliadas e seus defeitos ignorados, transformando-o em um centro de significado absoluto.
E tudo isso corrobora com a leitura proposta na análise de poemas desta safra amorosa de minha adolescência, pois, embora a limerência possa ser devastadora, Tennov identifica na limerência funções que resgatam o indivíduo de estados de apatia: autoaperfeiçoamento, energia e inspiração que incitam a criatividade e uma ética que o torna melhor, um significado vital ao agregar sabor à vida, sendo descrita como a experiência mais prazerosa que alguém pode ter, apesar da dor associada.
É importante, contudo, ressaltar que a jovem autora era neurodivergente, sem diagnóstico e sem suporte. E quando me refiro a suporte, preciso esclarecer que não se trata apenas do suporte necessário para uma pessoa autista, mas do suporte básico para todo e qualquer vivente, especialmente em tenra idade. Como uma adolescente sem suporte familiar, provendo o próprio sustento e lugar no mundo, esta jovem vivia no limiar da humanidade. Seu senso de ser era algo já precário, ainda mais precarizado pela neurodivergência desconhecida, mas sentida. Se há uma coisa que não posso dizer é que nunca me senti diferente e estranha no mundo. E a análise da trajetória poética e existencial aqui discutida revela que, para a mulher neurodivergente inserida em contextos de repressão e doutrinação, o fenômeno da limerência, cunhado por Dorothy Tennov para descrever a obsessão cognitiva involuntária por um objeto romântico, assume funções que transcendem a biologia reprodutiva tal e qual ela cogita.
A Limerência como Hiperfoco de Gênero
Diferente do objeto de fixação comumente associado ao autismo masculino (focado em sistemas, lore ou colecionismo visível, como o Spock para o personagem Sheldon Cooper), a socialização feminina frequentemente empurra o hiperfoco para o campo dos relacionamentos. O que surge é uma Limerência de Hiperfoco, onde a energia mental é canalizada para a construção de um universo único e interno. Enquanto o homem encontra tribos em convenções de quadrinhos e outras nerdices, a mulher constrói um santuário clandestino, muitas vezes permeado pelo sentimento de vergonha e isolamento.
No poema Indiferença, o objeto não é apenas um alvo de afeto, mas um repositório de bom, belo e luz. Já propus aqui diversas vezes que, sendo uma menina perguntadeira macetada pelas convenções de como deve se portar e se calar uma menina, eu precisava projetar em algo esse bom, belo e luz que não podia enxergar ou manter em mim. Assim, a teoria é que, no caso do autismo feminino, diante de um sistema externo que busca domar, reprimir e invalidar a essência da pessoa neurodivergente, a mente projeta sua própria bondade e dignidade no Objeto Limerente . Neste caso, ao considerar-se indigna, a autora usa o objeto para guardar o que tem de melhor. Amar o objeto torna-se a única forma segura de amar a si mesma. As esquetes mentais e fantasias intrusivas funcionam como reguladores de um sistema nervoso sobrecarregado, gerando a dopamina necessária para a manutenção da homeostase em um mundo caótico.
A Substituição da Fé e a Ética do Sentimento
Mas é na adição da fé que esta teoria ganha um outro nível de sofisticação. Ainda na puberdade, identificara a precariedade e a incoerência das religiões institucionais e relegara as crenças ao campo da estultice. Contudo, a vida à deriva requisita ancoramentos e faróis que guiem o navegante . E é aqui que a jovem autora opera uma transmutação: a necessidade humana de transcendência é transferida para a relação limerente. Ela cria uma religiosidade privada. O poema declara o objeto limerente como “única crença”. Trata-se de uma religião de uma pessoa só, onde o sagrado é a própria capacidade de sentir intensamente, se este objeto limerente é repositório e espelho. Que os deuses fossem criados à imagem e semelhança do homem e da natureza já lhe era claro nessa época. E que os deuses ditam a moralidade humana por meio de sua mitologia também. Deste modo, o objeto limerente, sacralizado, possibilitou também a criação de uma moralidade autônoma. A ética comportamental deixa de ser um conjunto de regras externas impostas e passa a ser orientada pela fidelidade ao sentimento. O único pecado é a traição à própria intensidade.
Há um verso potente sobre a quebra de normas:
“Se desejasse seguir regras, nem saberia. Quais.”
Isso reforça que o sentimento é instintivo e indomável. Ele não cabe em manuais ou comportamentos sociais esperados. É uma rebeldia contra a lógica, o que torna o obstáculo da indiferença ainda mais irrelevante para quem ama. E desvela um conflito perfeitamente lembrado por esta autora, já não mais tão jovem: a culpa pelo tempo dedicado ao impossível; viver mais tempo na imaginação do que no real. E o poema opera nesse limiar entre a crença e a descrença, reforçando o intento de ser plenamente fiel aos sentimentos, talvez mais para si do que para o mundo.
A Espiritualização do Sentimento
O uso de termos como “única crença”, “prostrada” e “arrependida” retira o amor do campo casual e o coloca no campo do sagrado. E essa manobra era essencial para driblar a própria racionalidade. O único “pecado” possível, para a jovem autora, não é amar demais, mas sim “não dar vazão” ao que sentia.
Sacralizar o objeto limerente o tornou quase perene. Um artifício, um Deus Ex-Machina sacado das coxias para o centro do palco toda vez que a cena ameaça desandar.
A Poesia como Válvula e Documento
O poema “Indiferença” não é apenas um lamento romântico; é um Manifesto de Autocriação. Ele documenta o momento em que a subjetividade neurodivergente se recusa a ser domada e cria seu próprio “Deus” à sua imagem e semelhança. A limerência, portanto, emerge não como um gasto inútil de energia, mas como uma ferramenta de preservação da identidade, permitindo que a beleza e a ética pessoal sobrevivam intactas em um ambiente hostil.
O que você leu aqui é parte de um esforço contínuo para resgatar a dignidade da nossa própria intensidade. A poesia, para mim, sempre foi o “Deus Ex-Machina” que salvou a cena quando o mundo real ameaçava desandar.
Qual estátua ou “objeto” ajudou você a atravessar seus desertos? 🚀


