Notas sobre o Entorpecimento e a Fúria
Um ensaio sobre o desacordo entre corpo e mente, o resgate de um poema de 1998 e as fissuras da exaustão criativa

Notas sobre o Entorpecimento e a Fúria Hoje me falta profundidade Mas preciso expressar algo Que, embora discreto, faz muito estrago Pois salienta minhas necessidades Sinto falta de grandes expectativas Há um calor no meu olhar não satisfeito Que busco projetar em qualquer sujeito Que me dê a certeza de estar viva Hoje não me sinto autêntica Me sinto ausente, dispersiva Num mar morto estou à deriva Esse silêncio é uma aventura fantástica As tantas emoções que me são nocivas São meros aperitivos para o banquete De deliciosas sensações que, inevitavelmente, Me atordoam tanto quanto a vida delas me priva Preciso de emoção na minha vida Embriagar-me de todas as sensações Que enxergo na alma como velhos vulcões Velhas montanhas adormecidas Com suas vertentes de calor e fogo Enferrujadas pelo tempo, no tempo inertes E embora sua intensidade não aparente É ardente, inflamado, delirante o seu âmago
O Corpo Enferrujado e o Vulcão Rasurado: Uma Leitura de Arquivo
Hoje acordei extremamente exausta, mas determinada a fazer o meu trabalho. Parte do meu compromisso nesta segunda-feira, 3 de agosto de 2026, é preparar o texto que vai ao ar na quinta-feira no Substack — este mesmo texto que você, leitor, está lendo agora. Trata-se da análise de um dos anexos de um dos velhos volumes impressos de Retrato das Sombras.
Na minha percepção, a maioria desses anexos a partir de agora era composta por poemas de um período posterior aos meus 20 anos, escritos entre as minhas duas e três décadas de vida. Mas deparei-me com um poema que, por razões que hoje desconheço e não recordo, não entrou nos impressos. Ele não tem título, mas está datado entre os dias 11 e 12 de abril de 1998. Eu tinha apenas 19 anos.
Ele repousa no verso do poema Escassez — que já foi publicado aqui no substack e que foi escrito no dia 1º de janeiro do mesmo ano. É um poema longo e guarda um mistério: não sei o motivo do descarte ou de ter ficado de fora. Mas presumo. Há poemas que escrevo e que me fazem sentir excessivamente exposta. Deixei um poema similar fora de Perséfone em Hades por este motivo, vindo a incluí-lo mais tarde em Abyssalia. Talvez seja este o caso aqui. A estrofe riscada no papel amarelado dá uma pista direta sobre isso: ela é, em sua essência, uma estrofe que me expõe demais.
A Anatomia do Texto: Sem e Com a Rasura
Na primeira leitura do poema, sem a estrofe rasurada, a estrutura opera sobre um contraste brutal. Por fora, a superfície é fria e apática, de quem se sente à deriva (“num mar morto”, “hoje não me sinto autêntica”). Por dentro, contudo, o âmago está em ebulição. A imagem das “velhas montanhas adormecidas” e dos “velhos vulcões” sintetiza o descompasso de uma casca “enferrujada pelo tempo”, enquanto a matéria interna permanece “ardente, inflamado, delirante”. Há também uma busca por validação externa — o calor projetado no outro para ter a certeza de estar viva — e a ironia de chamar o silêncio de “uma aventura fantástica”, transformando o tédio anestesiante no único acontecimento do dia. O olhar do outro, no caso, presumo ser uma paixonite limerente passageira e não uma paixão avassaladora real.
Quando reinserimos a estrofe rasurada, a espinha dorsal do poema muda dramaticamente. A rasura não era um excesso estético; era o ponto onde a carne ficava exposta. Sem ela, o texto saltava do isolamento apático direto para o desejo poético e vulcânico. Com ela, surge a atração pelo perigo e pela autodestruição consciente:
“As tantas emoções que me são nocivas são meros aperitivos para o banquete de deliciosas sensações que, inevitavelmente, me atordoam tanto quanto a vida delas me priva.”
A poeta de 19 anos admitia aceitar o nocivo para romper a anestesia. Trata-se do paradoxo entre o atordoamento do sentir e a violência da privação ordinária. Talvez da privação consciente e racional, buscando pertencimento. Ao riscar o trecho em 1998, talvez mimetizar a mesma busca por aceitação, polindo o poema para torná-lo mais elegante e contido. Ao resgatá-lo hoje, trago de volta a fome real, imperfeita e crua.
O Diálogo com o Presente e a Proteção da Mente
O mais impressionante é como esse poema de 1998 dialoga visceralmente com o que vivo hoje. Enfrento um momento de profunda exaustão, que mimetiza uma apativa, uma falta de profundidade. Mas eu sinto o vulcão. Vejo as velhas montanhas adormecidas em horizonte enevoado. Ou são meus olhos que não estão focando direito hoje? ainda?
Preciso encarar a timeline de um vídeo para desmembrar um formato horizontal em três ou quatro versões verticais. Na prática, é o trabalho monumental de estruturar quatro novas micronarrativas, criar quatro novos roteiros e redefinir a composição visual. Falta-me coragem física para isso. Meu corpo está exausto, num desdobramento do cansaço da última semana que culminou em enxaqueca e esgotamento. A mente desenha uma programação inteira, mas o corpo não acompanha.
O poema fala exatamente desse estado. Ele traduz como apatia e superficialidade esse estado em que é possível executar a maioria das tarefas no automático — coisas que não exigem fisicamente, visualmente ou cognitivamente de você, ao contrário do trabalho analítico de montagem em uma timeline. A mente permanece preservada em algum lugar, sem que ninguém perceba a dimensão do esgotamento físico e mental.
Acredito que operei assim durante a maior parte da minha vida. Muitas vezes, as pessoas ao redor percebem apenas a irritação, o tom mais ríspido, desencadeando comentários misóginos e reducionistas. Para a minha geração, educada para tratar os processos do corpo feminino como algo vexatório e vergonhoso a ser escondido a sete chaves, esse tipo de exposição provocava um profundo constrangimento e apequenamento.
Hoje compreendo que o “entorpecimento” e a “falta de profundidade” descritos no poema de 1998 são a tradução dessa mesma exaustão: a incapacidade do corpo em acessar ou expressar o proprio desgaste e a necessidade de repouso. E cutucar essa barreira de “superficialidade”e torpor gera irritação e por conseguinte choro. Ou meltdown para os intimos da linguagem do autismo. Chilique para os misoginos ou reducionistas da sensibilidade humana à sua serventia.
Este poema curtucou essa barreira erguida desde ontem. Abriu um veio e principiou um choro. Uma uma minima lágrma qu emal umedeceu o canro do olho esquerdo, mas lubrificou a alma. A partir de agora estou no limiar. Não preciso de muito para transbordar ou chorar — basta o olhar sobre o papel amarelecido ou um detalhe que saia do trilho. Por outro lado, posso passar ainda me entorpecer se essa for a estratégia da minha mente para me proteger caso eu precise interagir.
Estar no meu próprio ambiente, no meu quarto, diante do meu computador, com a minha gata dormindo tranquilamente na cama, permite-me baixar a guarda. A sensibilidade emerge sem o meu controle rigoroso, mas não como uma enchente profunda. É um um gotejamento, um filete. O corpo está tão massacrado que não há um canal aberto, apenas um veio estreito que só a escrita pode canalizar.
A Encomenda do Poema e o Resgate do Livro
Essa redescoberta me trouxe uma clareza prática. Hoje não vou encarar a timeline. Em vez disso, vou ler para preparar o novo roteiro desta e focar em escrever os novos poemas de Senhora dos Opostos. Aprendi ainda na época de Perséfone em Hades que não preciso esperar apenas pelo arroubo visceral para criar; posso escrever poema sob encomenda — a minha própria encomenda.
O desacordo entre a mente cheia de propósitos e o corpo incapaz de executá-los é o próprio mote de Senhora dos Opostos. Pretendo entregar aos meus assinantes um poema novo no domingo, transformando esse esforço criativo no canal necessário para que esses velhos vulcões e montanhas adormecidas voltem a fluir, unindo novamente o corpo entorpecido à alma efervescente.
Há uma sincronicidade bonita nisso. O texto que publiquei recentemente trazia o título Ainda sem instruções para sustentar um corpo em chamas. De repente, me vejo diante de um manuscrito antigo que fala sobre matéria ígnea, vulcões e a energia que ameaça partir ao meio um corpo incapaz de sustentá-la.
Este poema não é um descarte, tampouco um mero anexo. No dia em que Retrato das Sombras se tornar o livro que nasceu para ser — resgatando o título da minha adolescência que por muito tempo me pareceu estranho, mas que hoje faz todo o sentido do mundo —, este texto estará lá. Ele é parte viva da minha história. E hoje ele me trouxe instruções, da menina poeta para a mulher que eu desejo ser.
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