Combustão: Limerência, Monotropia e o Amor na Mente Autista
Uma análise sobre o "maravilhoso sofrimento" de amar através do hiperfoco e como o mito de Perséfone ilumina o caminho para o amor-próprio.
Combustão
O absurdo ardor do meu olhar em brasa
Fundindo-se à maciez da exuberante luz
Incrustada no teu olhar, que me arrasa,
A tantos lugares pelo tempo me conduz
Que me perco numa confusão de sentidos
O tempo desmorona em súbita fragilidade
A matéria confunde-se em estado desconhecido
E o fogo que me queima não alcança saciedade
Enquanto desvaneço em espontânea combustão
Tomada por energia pura, sinto-me imortal
E testifico na agonia de maravilhoso sofrimento
Se chama amor essa única e complexa sensação
E quando me toma absolutamente sofro do mal
De só haver de concreto em mim Esse sentimento
O Amor não é Porto, é Incêndio
Escrevi “Combustão” sob a pele de uma jovem que descobre, a duras penas, que o amor para mentes como a nossa não é um porto seguro, mas um incêndio.
Para a mulher autista, a experiência do afeto muitas vezes transborda os limites da realidade compartilhada. O que apresento neste poema é a anatomia da limerência: aquele estado onde o outro se torna um objeto de hiperfoco absoluto, um “objeto limerente” que habita um plano idealizado, muito além do alcance físico ou social.
Neste cenário, a monotropia — essa característica de nossas mentes de canalizar toda a energia em um único túnel de atenção — transforma o sentimento em uma reação química incontrolável. Onde o mundo espera o “frio na barriga”, nós experimentamos o “olhar em brasa” e a “confusão de sentidos”.
A Imortalidade do Abstrato
O “maravilhoso sofrimento” que descrevo nos versos é o paradoxo de sentir-se imortal enquanto a própria matéria se dissolve. Para aquela jovem, o amor não era uma troca, mas uma dissolução no objeto limerente. Quando o hiperfoco é tão intenso quanto o bejto limerente é inalcançável, o comburente da relação amorosa idealizada passa a ser a própria queima interna.
Por isso minha fidelidade ao longo de décadas, a um unico objeto limerente, teve idas e vindas. Sim, este foi uma amor conturbardo, atravessado por culpa no qual as fugas para a realidade se tornaram um respiro para o corpo. Mas a realidade traz uma fisicalidade acachapante que a imaginação não tem e isso pode ser sufocante para a alma, de modo que o refugio na imaginação sempre foi necessário para alma tomar fôlego. Esse ciclo interminável me levou ao mito de Perséfone e à escrita de um livro de onde irrompe o amor próprio como o amor maior. Minha teoria é de que a imaginação possibilitou a criação gradativa desse amor próprio. Mas no princípio de desse realcionamento amoroso unilateral para a percepção mundana, eu vivia em combustão, lutando para não ser consumida por uma afeição que se configurava como um marqvilhoso sofrimento. É o que o poema registra: um extase quase religioso de adoração e entrega, rompendo mais e mais minha conexão com a realidade.



