"Investigação": A Decodificação Analítica do Olhar Neurotípico Por Meio da Poesia
Uma análise fenomenológica profunda sobre o esforço cognitivo autista no processamento social.

Investigação
Teus olhos doces, envolventes, vivazes
À natural ingenuidade dos meus
Fazem-se mágicos, penetrantes, audazes
E em instantes alternados dizem adeus.
Teus olhos ríspidos, intransponíveis, opacos
À natural curiosidade dos meus
Fazem-se distantes, indistintos, fora de foco
E em instantes alternados dizem-me adeus.
Teus olhos ferinos, embora mansos, mentem
Tento distinguir se tenho-os nos meus
Se a injúria de iludir-me cometem
Quando em mim se esquecem ou dizem-me adeus.A Decodificação do Olhar Neurotípico
Este poema parece apenas um poema de amor. Ou de flerte. Mas é um registro fenomenológico e semiótico do esforço de processamento social para uma mente autista. Eu creio que já tinha uns 20 anos, se minha memória não me trai. Já havia tentado escapar do amor limerente pelo único objeto de devoção da vida inteira. Já tinha em meu currículo um relacionamento real de 4 anos, finalizado. Este poema marca meu retorno ao mercado amoroso. Mas o esforço que o poema relata não era uma renovação de votos com a busca da felicidade. O que parece o lirismo amoroso tradicional, na verdade, é um relatório de campo. O eu lírico atua como um observador analítico que tenta decodificar, de forma manual e consciente, as pistas visuais e comportamentais do interlocutor — elementos que, na população neurotípica, são processados de modo intuitivo e automatizado.



