Insurgência Afiada: O Corte que aciona o Modo Combate
Da invisibilidade no anos 90 ao embate no sistema de saúde em BH: uma reflexão sobre o corte de cabelo como ato de libertação e o peso de existir como mulher autista.

O Peso Extirpado e a Sorte Afiada no Costume de Existir
Em meados dos anos 90, aos 16 anos, comecei uma carreira como promotora de eventos. Na verdade, eu era demonstradora (a moça que serve produtos para degustação no supermercado), mas o primeiro nome é mais elegante para uma profissão fantasma. E para os trabalhadores que faziam eventos mais chiques, como feiras e eventos de grande porte, o anglicismo era mais usual. Mas a informalidade ainda era o ponto em comum entre essas nomenclaturas. Ainda assim, eu sobreviveria por sete anos nessa área, graças à minha aparência longilínea de longas madeixas.
Quando me pareceu que a estabilidade era o ideal, me estabeleci como promotora efetiva de uma multinacional. E aí o caldo entornou. As campanhas de dois ou três meses, que me davam intervalos de uma a duas semanas entre elas, vinham com um script a ser seguido e uma mobilidade pelos supermercados que nunca exigia a criação de laços que subsistissem a duas semanas de relacionamento cordial. Tudo isso deu lugar ao que hoje chamo de sobrecarga. Antes de sucumbir à massiva carga de trabalho físico e relacional, para dialogar seriamente com minha maior adversária, cortei minhas longas madeixas e, pela primeira e única vez, tingi meus cabelos. De vermelho.
Quando, em 2016, precisava me reinventar profissional e pessoalmente, cortei de novo meus cabelos, bem curtos. Nessa ocasião, não lutei com a morte, pois eu tinha plena noção do que era o corte:
Talhador da contrariedade nutriz; alavanca de crescimento e instigador da teimosia necessária para aguentar as pontas até o atrevimento.



