Idolatria Silenciosa: Um Poema Interrompido
Nos anexos de Retrato das Sombras, a arqueologia de um fragmento salvo sobre a limerência e a neurodivergência na terceira década de vida

Idolatria Silenciosa
O amor às vezes traz essa melancolia suspirosa
Esse sorriso envelhecido embriagado de saudade
Mesmo resignado à condição de idolatria silenciosa
Condenado à mais singela e remota possibilidade
E sinto ao vivê-lo por essa angústia suportável
A rude avidez com que assimila sua suavidade
E a Ternura
A brutalidade do
E assim aparece o impresso em meio às folhas manchadas do meu volume mais desgastado de Retrato das Sombras. Escrito entre os 20 e 29 anos, este poema interrompido foi considerado digno de ser salvo. O papel macerado revela dobras, puimentos, furos e a ferrugem de grampos que não resistiram ao manuseio.
Talvez — e este talvez não está embasado na memória, mas na minha lógica interna — o que o tenha salvado sejam as duas palavras que hoje se tornaram seu título: idolatria silenciosa. Sim, o objeto limerente era precioso demais para ser descartado, mesmo em versos interrompidos.
Hoje o poema faz sentido mesmo em sua incompletude. É o resguardo fossilizado do meu bem mais precioso, esteio de minha existência. Sinto que atualmente desloquei esse esteio inteiramente para uma felina cinzenta de olhos amarelos. E isso me causa um riso estranho e tranquilo, como o sono dela ao meu lado enquanto escrevo. Seus três quilos de ternura pulsando suavemente, sempre comigo. Segura o bastante ppara depois de seis anos me permitir acariciar sua barriga .
Mas eu ainda consigo embarcar nesse poema e navegar a angústia suportável que ele revela.
A Perspectiva Neurodivergente: A Intensidade do Processamento
Sob a lente da neurodivergência, este poema revela a crueza de um processamento emoional hiperintenso. O afeto não é apenas sentido; é analisado, categorizado e suportado como uma sobrecarga física. Há uma tentativa de autorregulação emocional através da escrita: a mente busca racionalizar o afeto transformando-o em “idolatria silenciosa” — um refúgio seguro e contemplativo que evita o caos do contato social imprevisível. A “rude avidez” com que a mente “assimila sua suavidade” descreve perfeitamente o funcionamento de um sistema sensorial/emocional ávido por calmaria, mas que processa tudo na voltagem máxima.
A Cristalização e o Choque da Realidade
A aplicação da teoria da limerência de Dorothy Tennov a este fragmento revela o fenômeno da cristalização em seu estado mais puro. O “objeto limerente” não é percebido em sua alteridade real, mas sim como uma entidade idealizada, justificando a “idolatria”. Na limerência, a mente se alimenta obsessivamente da reciprocidade idealizada, mesmo que baseada na “mais singela e remota possibilidade”. O eu lírico encontra-se no estágio de submissão voluntária ao ciclo de desejo e incerteza, onde a própria dor é romantizada para manter o objeto ativo no imaginário.
A ruptura física do poema , que termina abruptamente com dois versos claramente interrompidos revela o esgotamento, talvez, da fantasia limerente. A limerência exige um isolamento asséptico para prosperar; a intrusão da “brutalidade” — seja a rejeição explícita, a indiferença do objeto ou a crueza do mundo real — quebra o feitiço. A interrupção do poema cristaliza o exato milissegundo em que a arquitetura idealizada da limerência colide com a fricção do real. Seja porque o real exigiu atenção, seja porque o real quebrou a magia do momento com sua nudez estrutural amparada pela minha racionalidade.
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