Hiperfoco Emocional e Autismo: O Poema como Autodefesa
Uma investigação profunda sobre o hiperfoco emocional na adolescência autista, a dinâmica do amor limerente e a escrita como território de sustentação do eu

O Poema como Trincheira: Hiperfoco, Autismo e a Defesa do Sentir
Ontem, o texto foi sobre o hiperfoco em processos criativos — aquela imersão absoluta que, embora produtiva, pode ser dolorosa e complexa. Hoje, ao revisitar um poema que escrevi entre os meus 14 e 20 anos, percebo que ele é um registro fóssil desse mesmo mecanismo, mas aplicado ao campo minado do sentimento.
O poema se chama “Sentir”.
Esse meu defeito de sentir intensamente
fez de alguns beijos uma tortura
de frouxos abraços, prisão permanente
e de instantes, recordação que perdura.
Esse meu defeito deu profundidade
a gestos imprevistos ou premeditados
a atitudes de explicita vaidade;
deu verdade a discursos infundados.
Mas é meu jeito de viver intensamente.
E posso afirmar, sentindo desse modo,
que ninguém vive de fato o que não sente.
A Escrita como Sustentação do Eu
Olhando para trás, vejo esse poema como um documento de autodefesa. E um documento de processo criativo, pois claramente ele foi planejado como um soneto, mas o assunto se esgotou no último terceto. Revisitar estes poemas sempre traz a surpresa da forma, pois boa parte está blocada na impressão. E a forma que se revela desvela um intento e uma pressa, ou uma efetividade de processamento; ou mesmo uma objetividade comunicativa que não admite floreios.
O sentir e o sentimento abordados nessa forma, na adolescência, especialmente para uma pessoa autista, não são uma “paixonite” ou uma atração passageira; é uma possessão. É um arrebatamento que exige uma leitura simultânea e impossível: tentar decifrar o próprio corpo, a ansiedade e as reações sensoriais, ao mesmo tempo em que se tenta ler o outro e o mundo ao redor.
E há um agravante nesse sentir intensamente: minhas manifestações de afeto, desde a infância, raramente eram bem recebidas. Talvez por serem inoportunas ou por não seguirem os protocolos sociais, eu não sei precisar. Lembro de uma experiência que cravou o sentimento de rejeição no espectro romântico do sentir, quando eu tinha uns 8 ou 9 anos. Sim, a empreitada romântica na vida das meninas começa cedo.
Lembro desses garotos na sala de aula passando entre as fileiras de carteiras e arrogantemente apontando para as meninas em uma versão revisitada de bem-me-quer-mal-quer: bonita-feia-feia-bonita-feia-bonita. Estava quase me despetalando sozinha quando ouvi “bonita” na minha vez. Não olhei para o dedo apontando para mim, mas intimamente agradeci. Mais tarde naquele mesmo dia, os mesmos meninos me cercaram para zombar de um de seus colegas que me achava particularmente bonita. E, segundo eles, o garoto queria falar comigo. O meu admirador não mais secreto parecia mais encabulado do que eu e não me pareceu adequado falar com ele diante de seus colegas zombeteiros. Então, gaguejando, porém resoluta, disse:
— Tá. Podemos falar lá fora, no portão, na hora da saída.
Ele desconversou. Os meninos riram e ele se juntou aos amigos na zombaria, aliviado de ter saído da condição de objeto de troça. Eu vesti a carapuça e sei que a usei por muito tempo.
Esse episódio demarcou um momento traumático para mim, que morria de vergonha de ser vista, especialmente vista como chacota. E o monstro em mim, já bem desenvolvido, sabia-se indigno de afeto, de modo que até ter sido considerada bonita por eles perdeu seu valor. Nessa época, Ika, minha irmã três anos mais velha, já trocava beijos molhados entre os muros da escola, às vezes sob aplausos de uma multidão, em uma espécie de jogo que nunca compreendi. Nesse momento eu entendi que não saberia nem seria considerada merecedora de jogar esse jogo. E cresci com o receio de que demonstrar o que sentia era a certeza de algo que incomodaria as pessoas ou se viraria contra mim.
A escrita surgiu, então, para sustentar a minha intensidade e o meu direito de sentir e expressar esse sentir. O que o mundo lia do lado de fora como “inadequado” ou “excessivo”, minha poesia trabalhava para validar como parte integrante de quem eu sou. Se o mundo tentava tornar esse aspecto sombrio e inaceitável, eu me juntava aos aspecto sombrio e inaceitável através das palavras, talvez por ter percebido que não poderia vence-lo. Era minha natureza.
O Real vs. O Limerente
Durante mais de 40 anos, vivi duas vidas. No mundo real, busquei a racionalidade e a praticidade. Tive relacionamentos que atendiam a necessidades de validação e blindagem social; laços construídos sobre objetivos específicos para navegar em uma sociedade que eu não compreendia plenamente.
Mas, paralelamente, existia o objeto limerente.
Enquanto os relacionamentos reais eram terrenos de interpretações errôneas e respostas biológicas confusas, o objeto limerente funcionava como meu farol na escuridão, meu porto seguro em uma deriva existencial. Se um hiperfoco em um projeto criativo pode nos consumir por semanas, imagine a magnitude de uma devoção que atravessa trinta anos de uma vida.
A Verdade da Intensidade
Hoje, o diagnóstico de autismo justifica o que eu não conseguia controlar: essa voltagem extrema do sentir, do pensar e do perceber; ou do não perceber. O poema “Sentir” foi meu primeiro passo para assumir que não existe vida real sem a verdade do sentimento, por mais “defeituoso” que ele pareça aos olhos de quem prefere os abraços frouxos.
Ao final, se não podemos conter a maré da nossa própria intensidade, que possamos ao menos aprender a nadar nela — e, de preferência, transformá-la em arte.


