Exuberância: Autismo, Masking e a Poesia do Anoitecer
Uma reflexão profunda sobre o poema "Exuberância". Como o anoitecer revela a face por trás do masking social e a intensidade da alma neurodivergente.

Exuberância
Aos poucos a luz recua e anoitece
A saudade é lua branca, lua cheia
Refletida em teus olhos a noite cresce
Refletida em mim a lua Incendeia
A Exuberância do Avesso: Uma Autoconfissão Poética
A lua dos amantes, que incendeia de paixão — ou talvez saudade —, sempre fez este poema ser lido como uma quadrinha agridoce e rasa. Um sabor que se confundia na língua e desaparecia antes de ser devidamente desvendado. Na recente incursão por esses poemas amorosos, à luz da neurodivergência, ele trouxe mais do que sinestesia: trouxe lembranças.
Mais do que uma metáfora amorosa, o poema carrega a história de uma adolescência tomada pelo trabalho e pelo afã da sobrevivência em um mundo nunca talhado para a poeta . Assim, o anoitecer trazia — e ainda traz — uma sensação libertadora. As obrigações do dia arrefecem com a luz, e a luta cotidiana abre lugar para o descanso. Ainda me é comum procrastinar e sofrer ao longo do dia para sentir, ao cair da noite, uma necessidade de produzir. Algumas vezes essa necessidade vem da culpa; noutras, vem da inspiração, como agora. O anoitecer, assim como aqueles olhos escuros que enfunam as velas dos meus pensamentos, traz-me o balanço de águas calmas, de luzes macias e acolhimento.
O incêndio que este poema propaga é um incêndio benigno, transformador, ou talvez breve demais para deixar a alma mais do que chamuscada enquanto permanece aquecida por um tempo. É, talvez, o incêndio criador da entrega plena ao mundo dos sonhos.
O Fim da Máscara (O Recuo da Luz)
De certo modo, para mim, o anoitecer nunca foi sobre o fim do dia, mas sobre o fim do personagem. A “luz que recua” é o silenciamento das demandas externas, das ordens, do masking social que eu, como uma adolescente autista não diagnosticada, sustentava até o limite. Quando a luz saía de cena, a minha verdadeira vida começava. Uma vida embrionária, quase inconsciente, nos braços de um sonho lindo e acolhedor.
A suavidade do poema que, na abordagem sinestésica, tem um sabor que se perde antes de se dar a conhecer, reflete talvez Vinicius de Moraes em seu Poema dos Olhos da Amada:
“Oh, minha amada
Que os olhos teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...”
A Geometria do Objeto Limerente
Nesse poema, existe uma divisão espacial muito clara entre o “eu” e o “outro”. Nos olhos dele, a Noite reflete a busca por um conforto sensorial e por uma libertação do masking. Ele era o ponto de repouso, um silêncio acolhedor e passivo. A “Lua que Incendeia” revela o paradoxo da neurodivergência. Enquanto o mundo via uma adolescente quieta, deitada no escuro de um quarto nos domingos à tarde, por dentro havia um mundo efervescente. A Lua — o hiperfoco, a adoração, a capacidade de criar mundos — não era fria. Ela incendiava o sistema nervoso e constituía novas sinapses.
A “Fuga” que era Fundação
Muitas vezes me culpei por achar que essas fantasias e o tempo gasto com recortes, revistas e biografias me tiravam da “vida real”. Hoje, entendo que essa era a minha autorregulação. O poema registra o momento em que eu transformava a saudade “de tudo que eu ainda não vi”* em matéria-prima criativa. Sem esse ponto de fuga, eu teria colapsado ainda na adolescência. Graças a recursos como o objeto limerente, pude me autocriar e chegar à vida adulta... para colapsar aos trinta anos, quando decidi que precisava ser “normal”. O poder incendiário dessa lua criadora foi sufocado pela rotina e, sem o tempo para me refugiar nessa dimensão imaginária, a realidade bruta me atropelou.
Exuberância, portanto, não é sobre o que se vê por fora. É sobre a voltagem altíssima de uma alma que só encontra paz quando o mundo apaga as luzes e permite que o brilho interno, finalmente, transborde.


