Energização: o Objeto Limerente como Suporte de Substituição
A limerência serviu como mecanismo de autorregulação para uma adolescente neurodivergente em situação de abandono. Uma reflexão profunda sobre poesia, diagnóstico oculto e a criação de ídolos sagrados
Energização
Tua presença para mim é essencial valiosa,
Pois teu olhar sobre minha alma, desliza
Como água fresca límpida preciosa
Que me purifica me alegra me revitaliza.

Energização: O Espelho de Água
Já estabelecemos, na leitura de outros poemas desta remessa amorosa, que o objeto limerente é um repositório. Mas o lugar que ele habitava — o mundo secreto, a brecha dimensional — permaneceu apenas como um espaço imaginário. Isso, de certo modo, diminui o impacto do objeto limerente na vida da adolescente sem suporte. Conforme mencionado na análise do poema Inspiração, a adolescente que escreveu era uma menina sem nome certo que, aos 13 anos, fugiu de casa com medo de ser relegada à ignorância ao ser tirada da escola.
Ela precisava desesperadamente de uma âncora e de um suporte que talvez nem seja cabível chamar de “substituição” neste ponto, posto que pode ser lido como um substituto do suporte paterno. Afinal, vestir e alimentar uma criança neurodivergente está muito distante do suporte necessário. Infelizmente, a austeridade do ambiente que julgou adequado tirá-la da escola para domar o seu gênio — silencioso, cabe dizer — não tinha mais do que isso a oferecer.
Assim, a ideia do amor romântico, comum na educação das meninas ainda criadas para o casamento no início da década de 90, sagra-se como a via salvadora. E, para uma adolescente rebelde que renegara o cristianismo ao detectar inconsistências graves nos dogmas e pregadores, é curioso que tenha criado sua própria versão de um Deus: à sua própria imagem e semelhança, embora não o soubesse, por desconhecer os potenciais bloqueados pelo ruído externo.
Esse ídolo sagrado, erguido com os tijolos do que ela possuía de mais bonito, mas que ainda não conseguia reconhecer em si mesma, serviu de repositório e abrigo. Diante de uma realidade que a negava, ela projetou sua própria essência — o bom, o belo e o puro — no olhar de pedra de um ídolo que os olhos de hoje diriam vazio, não fosse o diagnóstico da neurodivergência.
A Liturgia da Autopreservação
Para aquela adolescente, a presença do objeto não era um capricho; era energização. Em um ambiente hostil, a limerência funcionava como um mecanismo de autorregulação. Onde havia dor, ela buscava “água fresca”; onde havia o turvo do trauma, ela clamava pelo “límpido”.
O que lemos nestes versos é uma transfiguração. A Alma como Altar celebra a entrega absoluta. A Purificação pelo Outro cura, aos poucos, a rispidez de um mundo que a julgou, precocemente, inadequada. O desejo de ser “limpa” e “revitalizada” revela o peso de se sentir errada ou quebrada pelo mundo. E há o diagnóstico oculto: o hiperfoco e a intensidade quase mística do sentimento espelham o grito de uma mente neurodivergente buscando ordem e beleza em meio à negligência.
Hoje, ao revisitar estas palavras, percebo que o objeto era apenas o pretexto. A água fresca nunca veio de fora. A fonte sempre esteve nas mãos daquela menina que, mesmo sem suporte, já era mestre na arte da resistência. Ela não estava apenas amando; ela estava, através da poesia, mantendo a própria alma viva.


