
Poema Rubro
Sobre a pele, teu olhar arde. A claridade quente e serena de um sol no princípio da tarde, fazendo uma abordagem obscena numa exploração covarde da minha pele morena. A minha pele sequiosa que arde, mas cora de uma timidez pequena.
Pertencente à mesma safra e à mesma verve Poema e Deitado, este poema nasceu sob o impacto do mesmo objeto inspirador: aquela figura canalha, meio safada na pose, mas que, na prática dos fatos, me tratava com desconcertante respeito.
Para a minha vivência autista, a presença do outro nunca é neutra; ela chega em ondas sensoriais concentradas. E eu, que vivia no mundo da imaginação, agonizava em paixonites reais. O poema teta metabolizar esse descoompasso como metabolizar.
E o rubor atravessa tudo: meu semblante, o sol e o sangue quente de paixão.
Rubro é o registro do exato instante em que o olhar alheio ameaça invadir a fortaleza interna, e a única resposta possível para não queimar por inteiro é transformar a tensão em verso.


