Divagação: Poesia como Resistência Estética e a Neurobiologia do Olhar
A resistência estética do processamento neurodivergente. Uma análise profunda sobre a 'Parte do Espectador' de Eric Kandel e a limerência de Dorothy Tennov.

Divagação Às vezes minha razão interfere afirmando que não te conheço e não há coerência no que peço nas preces que o coração profere. Mas encontrei no teu olhar profundo mais do que mera familiaridade. A lembrança do teu olhar transcende todo o tempo e mistérios do mundo. Essa terna sensação de tão autêntica, Fez tudo o resto perder a importância e firmou-se na minha inconstância de forma urgente, surreal e poética. Esse reconhecimento súbito, imediato não me pede nenhuma racionalização. Eu sinto, eu sonho, eu vivo a ligação dos nossos olhos cansados e famintos. Fui despertada pelo reflexo do teu espírito a iluminar os meus sonhos frios e opacos e senti pulsarem meus nervos secos. Deste vivacidade a tudo que sinto.
A Experiência Estética como Fenômeno de Vivificação
A razão atropelada pela prece do coração e a constatação final de uma vivificação me obrigaram a ler este poema para além de sua evidente relação com o conceito de limerência de Dorothy Tennov. Talvez eu estivesse mais sensível neste momento, no qual me pareceu necessário desconectar um pouco desta análise racionalizada do sentir para percebê-lo apenas como experiência estética. Ou, talvez, seja isso o que o poema pede.
Neste diálogo travado entre a observadora que hoje sou e a menina que um dia fui — e que escreveu estes versos —, cabe-me apenas seguir a intuição. Essa conexão entre os olhares famintos que o poema celebra, hoje, é a conexão entre os nossos olhares. Vejo aquela menina com tanto carinho, mas com um rigor que só o tempo e a ciência de minha neurodivergência poderiam me permitir.
A Parte do Espectador: O Processo Bottom-Up
Amparar esta leitura em uma experiência estética levou-me a Eric Kandel. “A Parte do Espectador” na apreciação de uma obra de arte (The Beholder’s Share), conforme ele propõe, é um exercício de empatia estética que extrapola os processos cognitivos dominantes, ditos neurotípicos. Isso ocorre porque a empatia estética requer um processamento guiado por dados (bottom-up).
É como um aficionado por uma pintura que se senta diante de uma obra em um museu e frui dela lentamente, detalhe por detalhe, decifrando os processos e camadas que resultam em cores, volumes e um jogo assombroso de luz e sombra. Uma mente neurotípica pode apreender o quadro como um todo; seu processamento é tipicamente top-down — guiado por conceitos. Esse espectador verá um quadro geral; seu processamento intuitivo preencherá as lacunas à sua revelia, determinando o significado da pintura. Contudo, essa mente neurotípica também pode sentar-se diante do quadro e vivenciar o exercício estético bottom-up: partir do dado para o todo. Essa entrega possibilita a empatia estética e, portanto, está acessível a todos; basta querer.
A Intuição Autista e a Tecitura da Coerência
Contudo, a mente neurodivergente — e falo com ênfase na mente autista, minha perspectiva — vive essa experiência estética de forma quase constante. O mundo lhe assoma em imagens. O olho, um detector, é invadido, e o processo cognitivo é uma tecitura do dado coletado visualmente e da coerência buscada conscientemente.
Isso significa que a fruição estética do autista não é intuitiva? Eu penso que é. Só que a intuição autista é mais lenta, feita de dados aferidos um a um. Aquele processamento em segundo plano, que está sempre buscando padrões e coerência, nunca deixa de funcionar e faz digressões o tempo todo. Por isso, quando decidi abordar esse poema como uma resistência estética, abri uma caixa misteriosa, cujo conteúdo me surpreendeu justamente por trazer conceitos conhecidos, como a autocriação, a autoficção, a autoetnografia e a metacognição.
A Poesia como Sutura da Realidade
Tudo isso habita naturalmente o processo criativo de uma mente que resiste por meio da produção. Criar um “Deus particular” e adorá-lo em versos; defendê-lo como quem faz uma prece; refutar a razão em nome do afeto irracional sob a alcunha de amor — tudo isso é resistência estética. É a única força capaz de suturar o tecido da realidade esfacelado pela incoerência, pelo dado concreto sem os vernizes da convenção. A sutura é uma filigrana delicada que une as partes em uma gestalt suportável.
Tanto creio na intuição neurodivergente que essas suturas me lembraram de um poema, desses perdidos em cadernos, largados como um projeto inacabado:
Vedado ao sumo das pétalas Aos teus poros: sal e hemoglobina Nódoas da fluidez escatológica Nas suturas da menina A poesia é resíduo acidental De decalcar máscaras em teu miolo E a ternura é o histriônico arranhado A blasfemar meu nome no teu couro
O Espelho de Velázquez: O Encontro do Tempo
Isso me traz à menção de Kandel (2012) sobre o quadro As Meninas, de Velázquez. Um marco na história da arte, ele coloca o rei e a rainha no plano do espectador ao mostrar apenas seu reflexo no espelho. Hoje, eu sou a espectadora de minha própria obra. Meu rosto ocupa exatamente esse reflexo no espelho. Do centro de minha criação, olha-me a menina pequena que fui, silenciosa e sobrecarregada em seus sentires; de cantos escuros da obra, emergem versões minhas que parecem perfeitamente cientes do lugar que ocupo hoje, como se o tempo não fosse, de fato, linear.
E uma adolescente, com os dedos sujos de tinta, encara-me e confirma:
“A lembrança do teu olhar transcende
todo o tempo e os mistérios do mundo”.
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Vem ler comigo sobre neurociência?
KANDEL, Eric R. The Beholder’s Share: The Liberation of the Observer’s Eye. In: KANDEL, Eric R. The Age of Insight: The Quest to Understand the Unconscious in Art, Mind, and Brain, from Vienna 1900 to the Present. New York: Random House, 2012. cap. 11, p. 217-237.
TENNOV, Dorothy. Love and Limerence: The Experience of Being in Love. New York: Stein and Day, 1979.


