"Distração": O terror extraordinário de amar, Limerência e Monotropismo
A dopamina é o combustível da busca, não da paz. Entendendo a biologia da obsessão por meio da obra juvenil Retrato das Sombras.

Distração
Eu estranhei tanto dia cinza
sendo que nem tinha amanhecido.
Tudo sempre é esquecido
diante do absurdo da beleza
da minha intrigante loucura.
Estava, então, imersa num delírio
de espontâneo prazer e martírio
e do qual tu eras importante figura.
Eu buscava de ti mais vestígios
em minha alma esmaecida,
buscava ardente e desinibida
para minha paixão um alívio.
E encontrei-te em cada fragmento
do meu ser que pude sentir
encontrei-te de posseiro a exigir
cada estímulo do meu pensamento.
Da Sobrevivência ao Intelecto: Entendendo a Limerência
Confesso que selecionar um poema para esta nova aventura pelas produções poéticas amorosas de Retrato das Sombras (1994-1999) me foi custoso. Senti, por um momento, que não estava pronta para falar de amor. Minha mente está orientada para a sobrevivência, como o ser à deriva que sou neste momento. Mas, felizmente, fui fisgada pelo deleite intelectual.
E por isso trarei a vocês, caros leitores, o conceito de limerência. A partir de agora, quando falarmos desse amor que idealiza e não se realiza senão nos recônditos da imaginação, trataremos de Limerência, um conceito criado no fim dos anos 70 por Dorothy Tennov. E não, Limerência não é amor platônico, que é apresentado como uma elevação da alma.
A limerência é um estado biológico alterado, para o qual hoje a neurociência apresenta as bases neurológicas, ciente de que a dopamina não é sobre o prazer de ter, mas sobre o desejo de buscar. Ela é o combustível da busca, e não da paz. O combustível da paz é a ocitocina. Sem ocitocina — ou seja, sem o prazer de ter — a dopamina vem acompanhada de noradrenalina; daí o estado mental e físico descrito no poema.
A relevância disso para um contexto de escrita neurodivergente extrapola a mera curiosidade acadêmica sobre a comunicação autista. Tennov insiste que a limerência não é uma escolha, mas uma resposta biológica disparada por gatilhos específicos que opera em estruturas cerebrais primitivas, abaixo do nível cognitivo racional. Logo, a Limerência é também resultado de uma conectividade cerebral ou de estruturas diferenciadas.
Isso torna a experiência do amor para o neurodivergente algo realmente extraordinário. Leia o “extraordinário” incutindo-lhe uma definição neutra ou ligeiramente negativa. Atribua a esse extraordinário o terror com que vem imbuído o desconhecido, e prepare-se.
A Biologia da Busca: Helen Fisher e a VTA
Para validar o que Dorothy Tennov apenas intuía nos anos 70, a antropóloga biológica Helen Fisher trouxe, décadas depois, a prova definitiva através de ressonâncias magnéticas funcionais (fMRI). Fisher demonstrou que o cérebro apaixonado — ou limerente — não ativa primariamente as áreas da emoção, mas sim a Área Tegmentar Ventral (VTA).
Esta é uma fábrica de dopamina primitiva, parte do sistema de recompensa reptiliano, responsável pelo “querer”, pela motivação e pelo foco obsessivo. A VTA não “sente”; ela “impulsiona”.
O “Extraordinário” Neurodivergente: Monotropismo e Hiperfoco
É aqui que a neurodivergência encontra seu “extraordinário” aterrorizante através do conceito de Monotropismo. Se a mente neurotípica já se vê refém dessa biologia, a mente autista — que opera através de “túneis de atenção” (monotropismo) — vivencia a limerência não apenas como um sentimento, mas como um hiperfoco sistêmico.
Quando o objeto da limerência entra no túnel de atenção monotrópico, ele consome todos os recursos cognitivos, tornando-se o único sinal em um mundo de ruído. A biologia da VTA encontra a arquitetura do monotropismo, transformando o amor em uma força gravitacional inescapável, onde a sobrevivência depende, literal e neurologicamente, daquele único ponto de foco.
Referências Bibliográficas
Para quem deseja aprofundar nas bases científicas dessa experiência, recomendo a leitura de três obras essenciais que fundamentam este texto:
• A origem do conceito: “Love and Limerence” (1979), onde Dorothy Tennov mapeou pela primeira vez essa condição.
• A prova biológica: O estudo de Helen Fisher (2005) sobre a ativação da VTA no amor romântico, que confirma a natureza instintiva do sentimento.
• A visão neurodivergente: A teoria do Monotropismo de Murray, Lawson e Lesser (2005), que explica a intensidade do foco autista.


