A Teologia da Limerência: Uma Defesa do Amor Visceral e o Autismo
Entre a "Defesa" de 1994 e o "Take Me to Church" de Hozier: a busca por regulação por meio do Objeto Limerente .

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Defesa
Não diga que estou deturpando o sentido do amor
ao enxergá-lo junto aos obscenos instintos da carne.
É normal que a beleza meus sentidos contamine,
vista através desse sentimento de tão alto valor.
Tampouco afirme ser o amor sentimento cultivado
nos campos férteis dos corações nobres e puros,
que não se impõe ao coração em instantes obscuros,
pois o estará negando nesse argumento equivocado.
Estará negando, do Amor, o cultuada eternidade;
estará relegando ao tempo demasiado o poder
e tirando de muitos algo de bom em que crer.
Estará contradizendo a metade da humanidade.
Não tente, a mim, descrevê-lo num aspecto único.
Sei que tem muitas formas e é sempre indescritível;
sob qualquer forma, a elevação da alma é plausível
e ostenta essa terna ingenuidade de que não abdico.
A mim não queira defini-lo em eloquentes palavras.
Eu muito tentei e nenhuma palavra serviu a esse fim;
nenhum meio humano o conceberia perfeito assim
e de nenhuma rude emoção humana ele deriva.
Não aspire ferir o que sinto, pelas paixões humanas
em que todo o meu ardente e receptivo ser lateja.
Através delas o espírito se educa e o amor viceja;
então as virtudes se firmam severas, fluentes e plenas.
Antes de julgar a emoção, examine os teus conceitos,
porque é esse amor que sobrepuja a minha ignorância.
Examine atentamente os recantos da tua consciência
antes de execrar o mais nobre dos meus sentimentos.
O Manifesto da Intensidade: Uma Defesa do Sentir Neurodivergente
O poema em questão não é apenas uma composição lírica; é um documento de autodefesa. Embora eu não recorde o momento exato da escrita, o tom do poema me diz que a defesa do sentir e a defesa do amor, como o vejo, são oriundas de um ataque. Como uma pessoa orientada a caber no mundo, presumo que boa parte desse ataque fosse interno. Meu inimigo íntimo era o ego, ou o narrador clínico a ostentar sua racionalidade.
Escrito na década de 90, imagino que eu tivesse uns 17 anos, pois, por essa época, confidenciei o meu “crush” para algumas pessoas e, claro, ouvi que era bobagem. Você, caro leitor, já deve ter ouvido uma frase que diz mais ou menos assim: “Não tire a esperança de alguém, pois você nunca sabe — isso pode ser tudo o que ela tem”. E, sim, era tudo para mim. Se hoje tenho propósitos, projetos e a Mina, nessa época o objeto do meu afeto, o Objeto Limerente (LO), era tudo o que eu tinha. Dele provinha minha esperança de pertencer, de receber afeto, de uma vida menos miserável e sofrida.
A Fusão entre o Espírito e a Carne
Em uma primeira leitura, o que salta aos olhos é a recusa da dicotomia entre o amor “puro” (platônico/idealizado) e o amor “instintivo” (físico/visceral). O eu lírico desafia a visão higienizada do afeto, argumentando que a elevação da alma não ocorre apesar das paixões humanas, mas sim através delas. Para uma jovem autista, essa “contaminação dos sentidos” mencionada no poema pode ser lida como a própria experiência sensorial amplificada — onde o sentimento não é apenas uma ideia, mas um evento físico que “lateja”.
Mas, indo um pouco mais longe, eu diria que o poema faz uma ponte entre o platônico e o instintivo. Ao defender essa união como o estado natural do amor, o poema, a meu ver, tentava convencer aquela jovem autista sem diagnóstico a aceitar que o amor real vivenciado neste mundo lida com o corpo e seus pruridos e fluidos. Os instintos aflorados na adolescência e o despertar do desejo trazem seu contraponto: a repulsa. Na imaginação tudo é mais limpo e perfumado — ou melhor ainda, inodoro.
Eu creio que, até a adolescência, minha referência de humanidade partia do meu próprio corpo. E este corpo não agradava, desde o cerne desconhecido até o cheiro de leite azedo em minhas mãos suadas quando eu tinha pouco mais de cinco anos. Eu não sabia ainda que a bioquímica faz milagres e os feromônios funcionam melhor do que o mais requintado perfume. Em suma: os que amamos cheiram lindamente, até quando não cheiram muito bem.
O fato de isso ser uma questão tão contundente creio que entrega o nível do meu isolamento. Fugir da proximidade e do toque humano era uma forma de autodefesa contra a possibilidade de rejeição. Presumo que a ausência de contato físico e afeto por parte de minha própria genitora — uma mulher autista com muitos filhos — e o isolamento na categoria de “filha do meio” me propiciaram essa experiência, ou melhor, essa falta de experiência em relação aos corpos humanos, o que impossibilitava humanizar o meu próprio.
Amadurecer traria a questão da intimidade para os assuntos prioritários. Explorar essa nova dimensão do amor trouxe, disso eu lembro, muita angústia. Mas eu tinha a escrita para me ajudar a instaurar um tribunal interno, no qual eu pudesse advogar em favor de um amor que integra corpo e espírito.
E, embora eu nunca tenha experimentado o amor como o idealizei, em poucos momentos pude compreender que, sim, o amor nos possibilita alguns instantes de plenitude, nos quais é possível habitar plenamente o corpo e sentir o espírito limpo e purificado. Isso me traz uma canção que adoro e que presumo ser erroneamente apreciada: Take Me to Church, do Hozier. Sempre imagino essa canção sendo tocada em algum culto religioso, quando ela, na verdade, é sobre a ritualística do sexo, exposta de uma forma poética e altamente profana.
O rito religioso mencionado se mescla aos signos do sexo como “deathless death” — ou “la petite mort” —, sendo o clímax de uma entrega sem precedentes. A adaga sacrificial é o símbolo fálico que uma deusa pagã e debochada deseja ardentemente. E esta mesma deusa pagã é a única entidade reverenciada na canção. Embora aluda a Deus e à igreja, a música celebra o sexo entre duas pessoas que se amam e se admiram como algo sem pecado. O sexo, cuja implícita sujidade é o único meio de nos sentirmos realmente limpos.
E sim, o amor concretizado por meio do sexo tem essa capacidade de sobrepujar nossa biologia e agregar à nossa autoconsciência uma sensação de pureza, integridade e beleza que nenhuma outra comunhão humana propicia. Talvez a maternidade, mas eu não saberia dizer. E, naquela época, eu não saberia desse êxtase que Hozier lindamente descreve:
There is no sweeter innocence
Than our gentle sin
In the madness and soil
Of that sad earthly scene
Only then I am human
Only then I am clean,
oh, oh Amen, amen, amen
Mas eu estava trabalhando em minha mente essa dualidade corpo-espírito por meio da escrita. Pouco se fala da sexualidade neurodivergente, especialmente da mulher neurodivergente. E este poema dá uma pista do trabalho que dá ser uma mulher autista. Vai muito além da repulsa declarada de Sheldon Cooper em The Big Bang Theory. Trata-se, sem dúvida, de mais um campo de batalha, no qual poucas vezes temos êxito.


