Como o autismo transforma a experiência do amor romântico? (Poema Inédito)
Escrito na adolescência, o poema inédito 'Amor' inpira um ensaio sobre o impacto do autismo feminino na escrita e na vivência da paixão. Eis a jornada entre a rigidez cognitiva e a dispersão.

Amor
Percebo, novamente, a alma fora deste plano
E, outra vez, faço uma tentativa desarvorada
De dizer como a esse extremo me abandono:
O que sinto, nos teus olhos mergulhada?
Ah, sinto a Sutil Liberdade oferecida pela morte,
E a necessidade sufocante de inspirar a vida.
Adentra minhas narinas a tua Essência forte,
E a alma cresce, sente-se no corpo comprimida.
Tão desproporcional é a dimensão que toma,
Que o mundo parece simples e insignificante.
Sinto quebrar à minha volta uma redoma
E encher estes meus olhos de luz ofuscante.
Em seguida, penetra a percepção já exaltada:
Excitantes emanações de um estranho universo,
Onde pertence-me tudo e sou parte do nada;
Onde em mim te encontro e, em ti, me disperso.
O Amor pela Perspectiva Neurodivergente: Um Prefácio
Este poema nunca viu a luz de outros olhos que não os meus. E confesso que mostrá-lo ainda me faz sentir como se estivesse me expondo demais. Embora eu saiba que ele não me revela como suponho, não posso evitar lembrar dos sonhos nos quais estamos nus e a vergonha nos devora mais do que os olhares alheios — que não parecem se importar com nossa nudez.
Bem, neste caso, caro leitor, eu peço que você se importe. Conto com isso! Só assim viveremos uma grande aventura pelas veredas sinuosas da paixão e do amor pela perspectiva neurodivergente. E sim, compreender como ama um autista é extremamente relevante: explora o sofrimento e a solidão, mas também a devoção, a racionalização sistemática do sentir e o impacto fisiológico do afeto. Prepare-se para uma jornada alucinante.
Darei uma grande pista sobre o que nos espera no percurso por meio de uma breve anedota: logo que meu diagnóstico foi cogitado, passei a consumir muito material a respeito de autismo feminino, pois não me via nos estereótipos tão comuns na mídia. E assim, em uma TED Talk que não saberei referenciar no momento, uma brasileira de cerca de 60 anos, de cabelos curtos e grisalhos, disse: “Uma autista, quando se apaixona, escreve um livro”. Ela comparava isso a atitudes de apaixonados neurotípicos que eu não memorizei. Este era mais um dado que, junto ao fato de eu ter criado personagens autistas em meus roteiros e contos sem saber que o fazia, gritava o resultado do meu laudo mais de um ano antes de ele ser elaborado.
Além dos poemas em Retratos das Sombras, escrevi Perséfone em Hades. E se estes que agora apresento, finalmente, a um público leitor, falam de uma experiência neurodivergente não diagnosticada, Perséfone em Hades determina algo que já havia expressado no poema “Beijos de Pedra e Nicotina”, presente em Abyssália (prestes a ser lançado pela Editora Donizela): “Eu amo muito mais o amor”.
O amor romântico, esta construção social metralhada no inconsciente coletivo e dispersada pela poesia, sempre foi minha maior devoção. Por isso, os amantes passaram e o amor ficou e se susteve, como parte de um código de ética organizado por uma rigidez cognitiva. Como tal, o amor fez com que minha maior fidelidade sempre fosse para comigo mesma. Não presuma um egocentrismo nisso. Amar o outro quase me destruiu algumas vezes, tal era minha disposição de entrega e sensação de dispersão. Mas essa concepção de amor tão rígida, que compunha minhas cartilhas de sobrevivência, me obrigava a voltar para mim — para o meu core, para a minha essência.
Não é o caso do amor que inspirou este poema. Este que foi o meu primeiro Amor, esta primeira possessão que só podia dispersar com palavras, não era um amor por alguém do meu convívio. O objeto do meu afeto vivia a ocenaos de distancia e sua possibilidade de adentar minha realidade era multiplas vezes menor do que ganhar na mega-sena. Isso deflagrou uma luta ferrenha entre a necessidade amar e a de lutar com todos os recursos da razão para não viver mais em minha imaginação do que no mundo real. Este amor, dito platönico, foi um dos motivos da escrita de perséfone em Hades, uma obra declaradament sobre o inferno de amar. E se o poema inaugural “Apolo”, declara que o livro é resultado de um divorcio em andamento, a partir do segundo poema, a luta é para não sucumbri ao chamado do amor platonico. Sabedora de a fuga para dentro seria o caminho mais fácil eu criei minha propria versão, infernal e sombria, de A rosa purpura do Cairo”. É uma experiencia fascinante que você leitor, pode ter aqui nesta news letter que tem uma se seção específicapara isso.
Jà o poema amor, escrito quando eu não tinha recursos narrativos com os quais me proteger, descreve a possesão, a perversa ansiedade, a invasão dos sentidos. Única resistencia racional é o poema, claramente fruto de um questinamento, delcarado no quarto verso? E, se consideramos que que o objeto de afeto nunca ocupou o mesmo continente, o setimo verso não reflete a percepção olfativa de um cheiro másculo e envolvente ( eu li julia,sabrina e bianca aos 12 anos, sim), mas de um sentir que está imbricado no proprio ato de repirar.


