Cessar Repentino: O poema riscado e a dissecação da autofagia
Uma análise profunda do poema "Cessar Repentino", abordando a hipervigilância neurodivergente, a hiperseletividade na limerência e o manuscrito riscado como autodefesa.

Cessar Repentino
Vou embora agora
Enquanto partir é opção
Quando pressinto o fim
Já digo adeus a cada hora
E não suporto essa consumição
Melhor o cessar repentino
Como se eu não soubesse a que vim
Nem me importasse o meu destino.Autodefesa e Autofagia
A jornada sobre os poemas limerentes em Retrato das Sombras acabou. Eu acho. Não tenho certeza, porque não fiz anotações e já detectei poemas analisados duplamente. Mas, enfim, a análise da cognição autista e da limerência na minha poesia ainda não terminou. Na verdade, um dos volumes de Retrato das Sombras — três encadernados em espiral, impressos em gráficas em um tempo em que isso era caro — guarda algumas surpresas.
Tenho em mãos um desses volumes. Ele está maltratado, entregue à umidade de algum canto dos meus guardados, cheio de folhas manuscritas que fui grampeando ao longo dos anos. Ali coexistem versões originais de poemas antigos, como o Soneto de Infidelidade e Ausência, e registros do começo de um novo ciclo em minha vida. Relendo essas páginas, percebo um aprendizado muito mais prático e cru.
Aos 20 e poucos anos, eu era uma jovem que recém havia escapado de um relacionamento de mais de quatro anos marcado por abusos financeiros, psicológicos e sexuais. Aquela relação, no fundo, tinha sido uma espécie de blindagem social que criei para me proteger do mundo. Quando fugi dali, me vi subitamente livre, menos alvo dos apetites alheios, mas diante de um desafio inédito: viver os relacionamentos reais de forma prática, sem escudos, buscando a saúde e não apenas a proteção.
Mas as defesas de quem sobreviveu ao abuso não desaparecem da noite para o dia. Elas mudam de forma. Aprendendo a ler os códigos sociais do mundo, minhas linhas de fuga se refinaram através de flertes e começos que quase nunca se concretizavam, barrados por uma antecipação crônica do fim. É dessa época de transição que nasce este pequeno poema, sem data, mas com endereço certo na minha história.
A versão que acabou sendo publicada na era do Orkut terminava exatamente ali, no “meu destino”. Olhando para ele hoje, percebo que o poema opera em três camadas distintas de sobrevivência:
A Visão Literária: A Escrita da Autofagia
Formalmente, “Cessar Repentino” é um poema de aceleração. O ritmo dita o passo de quem já está de malas prontas. O eu lírico vive no futuro do pretérito da rejeição.
Ao rimar “opção” com “consumição”, o texto estabelece o custo da permanência. E a palavra consumição, aqui, ganha o seu sentido mais visceral: ela não é predação, o outro não está mais devorando. Trata-se de uma autofagia. É o ato de consumir-se a si mesma na engrenagem de uma paixão, de uma ausência ou de uma dor. O “cessar repentino” é o corte cirúrgico necessário para interromper esse processo de autodestruição.
O próprio poema declara certo autoconhecimento que evidencia ser uma medida conhecida. O cessar repentino é uma extensão emocional das fugas reais já efetivadas: de casa aos 13 anos, do relacionamento aos 20. Um mecanismo de defesa já consolidado e íntimo.
A Sombra do Objeto Limerente: A Âncora do Possível
O objeto limerente não é citado, mas a sua presença invisível dita as regras do jogo. Naquela faixa dos 20 anos, ele era uma constante muito viva, moldada a partir de uma pessoa real e jovem. Ele não habitava o plano do impossível místico, mas a categoria dos possíveis viáveis. Havia uma probabilidade matemática de acontecer, e esse “quase” dava a ele uma força brutal.
Esse ideal funcionava como uma âncora de abordagem racional e hiperseletividade. Diante de um flerte real no mundo — que dava trabalho, exigia negociação e ativava gatilhos de trauma —, a mente calculava os riscos e recuava. Para que tolerar a autofagia e o desgaste de um início real se o mundo da imaginação oferecia um refúgio perfeitamente seguro, viável e sob controle? O objeto limerente justificava o adeus preventivo de “Cessar Repentino”, mantendo o padrão afetivo num patamar onde o mundo real não podia machucar. Não muito, pelo menos.
A Perspectiva Neurodivergente: A Hipervigilância Cognitiva
Para uma mente neurodivergente, que processa estímulos e interações com uma carga sensorial e emocional amplificada, o verso “Quando pressinto o fim já digo adeus a cada hora” é a pura expressão do mapeamento de padrões e da ansiedade de separação. É a hipervigilância ativada: a leitura obsessiva de micro-sinais de rejeição para não ser pega desprevenida.
A evitação de demanda e a exaustão social fazem com que o término lento seja insuportável. Em vez de passar pelo desgaste neurotípico de discutir, ponderar ou ver o vínculo ruir aos poucos, a mente prefere o colapso controlado — o corte abrupto que preserva a integridade do sistema central.
O que as rasuras escondem
O que mais me fascina no texto original, contudo, são as linhas que risquei e descartei na versão final. Abaixo do ponto final, o lápis tentou continuar:
fingir não haver ressentimento tem bem mais dignidade do que fingir não ver o abismo
E, logo atrás, garranchos fortes e quase ilegíveis tentavam desenhar uma explicação:
“o fim trágico se precipita. Meu Humor não suporta...”

Ali, a poesia havia terminado. O que estava escrito sob as rasuras com força já não era arte; era justificativa. Era a urgência da mulher real tentando sustentar a decisão de ir embora, envelopando o medo do abismo com a palavra dignidade.
A poesia limpa me deu a intuição de sair enquanto partir ainda era uma escolha. As linhas riscadas foram o rascunho da engenharia psicológica que eu precisava criar para me convencer de que interromper a autofagia era a única forma de continuar inteira.
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