Cerco: Mãos que Moldam o Invisível na Engenharia do Afeto
Da bioconstrução à sinestesia: descubra como o poema "Cerco" revela a Engenharia do Afeto e o uso do objeto limerente como auto-regulação no autismo.

Cerco
Se o encontro em pensamentos me perco
E permito-me ausentar do tempo
Palavras a serem ditas contemplo
Mas de despropósito e ócio me cerco
Para que tua lembrança surja com ímpeto
Tua fragrância me envolva como num abraço
E me leve até as bordas do infinito espaço
Incitando a fantasia ao entorpecer meu olfato
O Labirinto de Barro e Memória: O “Cerco” como Arquitetura de Sobrevivência
Sempre olhei para os meus momentos de ócio e despropósito com o peso da culpa. Antes do diagnóstico de autismo nível , a sensação era de que eu estava perdendo a luta contra uma fuga voluntária, um desvio de energia que deveria estar focado na vida real. Mas hoje, ao observar o meu poema ‘Cerco’ e analisa-lo sob a perspectiva de um objeto limerente em uma mente neurodivergente lembrei-me de minhas coleções infinitas de casas vitorianas e projetos de bioconstrução. Interesses especiais que comumente surgem em momentos de crise, estas coleções virtuais trazem autorregulação. Compreendo que não se trata de fuga. Trata-se de fundação..
A Menina que Criou o Próprio Chão
Para aquela menina que cresceu solitária, quase abandonada à própria sorte e forçada a amadurecer sem o suporte de um afeto constante, o mundo era um lugar de ruído e imprevisibilidade. Sem braços que a amparassem, aprendeu a construir o próprio suporte. O objeto limerente não era apenas uma fantasia adolescente; era um ancoradouro sensorial.E sinestesia presente neste poema e recorente em outros desta seara amorosa, indicam que minha percepção está correta.
Na ausência de um porto seguro externo, eu evocava essa presença — esse outro construído minuciosamente na imaginação. A previsibilidade de um ser que eu mesma desenhei servia para acalmar um sistema nervoso em constante estado de alerta.
A Alquimia da Sinestesia: Do Olhar ao Sentir
Nos meus poemas, especialmente nos que falam de amor, a sinestesia é a marca registrada desse processo de regulação. Tudo começa de fora para dentro. Há uma captura visual: o processo se inicia no olhar — a imagem do ser amado, os detalhes de uma arquitetura, a estampa de um papel de parede. Pela sinestesia, essa visão é imediatamente internalizada e transmutada. O que eu vejo, eu começo a cheirar; o que eu contemplo, eu começo a tocar internamente.
A fragrância que surge no poema não é apenas uma memória olfativa, mas o resultado final dessa “digestão” visual. É a sinestesia que permite que uma imagem externa se torne uma presença táctil e olfativa dentro de mim, criando uma previsibilidade absoluta que o mundo real jamais poderia oferecere talvez, acima e tudo, um conforto sensorial em um ambiente controlado: a imaginação.
Do Barro às Casas Vitorianas: O Stim da Alma
O processo com objeto limerente não é diferente do hiperfoco aleatório. Quando a crise se instala e a confusão externa ameaça me desmanchar, meu cérebro busca a regulação no hiperfoco. É aí que surgem os interesses aleatórios como a Bioconstrução. O foco nas mãos moldando o barro e a argila trazem algo profundamente profundamente regulador. E observar a terra se tornando parede traz lógica e materialidade para um momento de caos. Através dos neurônios-espelho, meu cérebro não apenas vê essas imagens; ele as sente. O conforto sensorial de uma casa vitoriana aconchegante e antiga funciona como um “stimming” visual e tátil. Eu não estou apenas salvando fotos de casas; estou construindo, tijolo por tijolo, a previsibilidade que me falta no caos do presente.
A Poesia como Meditação e Auto-Criação
O poema, assim como a coleção virtual de imagens de casa antigas e processo de biocontrução, deixa de ser apenas literatura para se tornar uma meditação encarnada. Ele mimetiza a oração e a filosofia, mergulhando em direções que a palavra dita, no cotidiano, não alcança. O Cerco não é uma prisão, é um limite necessário. O Entorpecer é a anestesia necessária para que a alma possa se reorganizar. O objeto limerente e o hiperfoco são as ferramentas que utilizo para me criar e recriar.O poema é um registro de autocriação.
Hoje, entendo que esse processo de escapar para os interesses especiais não é uma perda de tempo. É o exercício de uma Oryanna que, finalmente, se permite o direito ao refúgio. Se para sobreviver eu precisei ser arquiteta de mundos internos, hoje uso essa mesma habilidade para construir o meu doutorado e a minha história. A limerência e o barro são, no fim, a mesma busca por um lugar onde eu possa, enfim, existir.


