Cântico: A Arquitetura do Desejo como Escudo de Sobrevivência
O abraço como proteção sensorial e a escrita como escudo de sobrevivência psíquica.

Cântico
Venha amor, que arde febre
E delírio na ânsia pelo teu toque
Quero que teu abraço me sufoque
E em pedaços meus temores quebre
Venha amor quero em teus lábios
beber o vinho saboroso do amor
Quero em tuas mãos render louvor
de corpo lassivo e espírito ébrio.
A Arquitetura do Desejo como Escudo de Sobrevivência
Esse flerte com o erotismo me trouxe um sorriso no rosto, porque de algum modo ele me remete ao Cântico dos Cânticos bíblico. Minha educação religiosa servindo de inspiração direta ou indireta é algo que diverte meu senso de humor. O poema Cântico, no entanto, não é meramente uma lírica amorosa; é um documento fóssil de uma psique em estado de alerta. Escrito por uma adolescente neurodivergente que enfrentava o abandono e a exigência de uma maturidade precoce, os versos revelam como o “amor” foi ressignificado para servir como um mecanismo de regulação sensorial e existencial.
Creio que essa informação carece de contexto: eu fugi de casa aos 13 anos quando meus familiares ameaçaram me tirar da escola, e desde então eu vivi por conta própria, escapando da miséria, do meu medo de viver nas ruas, e de predadores sexuais. Isso coloca o objeto limerente, aqui o muso do poema, como uma âncora essencial.
O Abraço como Contenção Sensorial (Deep Pressure)
Talvez fosse apenas um arroubo hormonal o que suscitou o poema; o clímax de uma longa esquete mental cujo fim traz um quê de urgência e, por isso, o viés que tomo nesta leitura seja excêntrico. Hoje, a mulher adulta, em vez de uma metáfora romântica, identifica, na análise clínica e biográfica, uma busca por propriocepção.
Para uma mente neurodivergente em meio ao caos do abandono — sim, eu fugi, mas vivenciava o abandono desde antes de pegar a estrada — o mundo é excessivamente fluido e ameaçador. O pedido pelo “sufocamento” é, na verdade, o clamor por um limite físico claro. Por um toque firme que traga conforto e segurança. O objeto amado funciona como uma manta ponderada humana: o peso do outro serve para “quebrar os temores” e silenciar o ruído de um sistema nervoso permanentemente em modo de luta ou fuga. E a menina em mim se emociona com essa constatação. O tempo é só uma ilusão e ela vive em mim, e sentimos, por vezes, juntas.
Limerência como Anestesia e Ancoragem
A limerência transforma o poema em um ritual de sacralização. A adolescente, desprovida de proteção parental, projeta no Objeto Limerente (LO) as qualidades de uma divindade salvadora. A “Febre e o Delírio” não são apenas paixão, mas a manifestação da tempestade dopaminérgica que a limerência proporciona. Em uma vida marcada pela escassez afetiva, o hiperfoco no outro torna-se a única fonte de prazer e sentido.
O “Espírito Ébrio” reflete a fuga necessária para os mundos secretos onde esse amor é vivido. E minha mente, especialmente sensível ao escrever este texto, traz um verso da Legião Urbana na música L’avventura: “O sol é um só, mas quem sabe são duas manhãs”. Quem sabe, em alguma outra realidade, essas esquetes que me mantinham ancorada nesta realidade fossem de fato reais.
Estou particularmente melancólica hoje, tentando fazer valer o tempo que tenho, como talvez o tenha feito para suportar o “crescimento rápido” imposto pela negligência. O poema Cântico me parece ser o ápice de uma experiência sensível na qual a escrita permite que aquela adolescente acesse um estado de dissociação criativa, onde o “vinho” do outro substitui a dureza da realidade. Render “louvor” ao outro era, talvez, a única forma possível de expressar a própria necessidade de ser cuidada, deslocando o desejo de amparo para o terreno do desejo erótico-místico. Creio que minha percepção do objeto limerente para a mulher autista se consolida nessas leituras perpassadas de emoção e música.
O Poema como Ato de Resistência
Cântico é o grito de uma criança que usa a máscara da amante para negociar sua segurança no mundo ou o simples exercício do erotismo estimulado pelo objeto limerente? Isso importa?
Creio que, na primeira hipótese, a proposição do objeto limerente se consolida, e na segunda temos um lampejo de como a sexualidade da mulher autista opera. Retomando a música de Renato Russo, “O sol é um só, mas quem sabe são duas manhãs”, e ambas as proposições adentram pontos vitais da existência de mulheres no espectro.
Fato é que cada verso é uma tentativa de transformar o medo em beleza e o abandono em uma “ânsia pelo toque”. A adolescente que escreveu esses versos não estava apenas pedindo amor; ela estava construindo, através das palavras e da obsessão limerente, um abrigo onde pudesse finalmente deixar de ser forte para simplesmente ser.
“E em pedaços meus temores quebre”
Este verso final sela a função do poema: o amor aqui não é um complemento, mas uma ferramenta de demolição das defesas traumáticas, permitindo que, sob os destroços do medo, a verdadeira identidade neurodivergente pudesse , enfim, respirar.
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